Administração Pública

Contragolpe de Paulinho dá
certo e abala as redes sociais

  DANIEL LIMA - 05/02/2018

Não vou dizer que “infelizmente estava certo”. Diria que “felizmente estava certo” com o fracasso que anunciei aqui sobre a bobagem de redes sociais estenderem uma disputa cujo contragolpe do prefeito Paulinho Serra fora perfeito e decisivo. O resumo da ópera é que temos um prefeito em Santo André que precisa correr para fugir do prejuízo e grupos político-partidários que ficaram a chupar o dedo na tentativa de ganharem musculatura à parte do todo da sociedade desorganizada. Sobraram os ativistas sociais que precisam se organizar em forma de corpo e mente, não exclusivamente em movimentos virtuais. 

A manifestação pífia chegou a cinco centenas de pessoas. Muitos militantes políticos ganharam fôlego como invasores indesejados. Não há como negar que o domingo no Paço Municipal de Santo André foi um fracasso anunciado aqui. 

O primeiro ciclo entre vários que devem marcar a arrumação das bases legais e contributivas do IPTU em Santo André termina com perdas e danos distribuídos entre o prefeito tucano e integrantes de redes sociais. Erraram demais e não podem lamentar.  Vão espernear, claro. Procurarão alardear vitórias que não existem. Estão a ver navios, embora propaguem que estão por cima da carne seca.

Contragolpe perfeito

O contragolpe do prefeito Paulinho Serra, ante iminente nocaute, esvaziou as manifestações que tomariam o Paço Municipal. Bastava que não voltasse atrás em tempo cirurgicamente adotado para que explodisse a cobrança do extorsivo IPTU aprovada por legisladores. Até os vereadores que participaram da patetice já tinham tirado o time de campo, pressionados pelas bases ultrajadas. 

O volume de contestações ameaçava a governabilidade. Paulinho Serra recuou com a promessa de tornar as negociações mais socializantes. Quer ouvir segmentos da sociedade desorganizada de Santo André. Mas é sempre aconselhável ficar de olhos abertos. Há representações corporativas que não valem o que propagam. São grupinhos de amigos a controlar entidades históricas. Não têm compromisso para valer fora das quatro linhas do próprio campo de jogo do gabinete corporativo. Os associados que se lixem. 

Valor Venal é um perigo

Pouco interessava naquele instante decisivo de dissuasão do movimento se Paulinho Serra cumpriria alguma proposta além da já consolidada de que os carnês, conforme antecipamos aqui, ganhariam o destino da lata do lixo. Se entre as questões aparentemente pendentes o Valor Venal dos imóveis estará ou não enquadrado na decisão é outra história. 

Aliás, essa é uma situação que precisa ser resolvida em breve, sob pena de a maldade completa do IPTU resistir pela metade em forma de um outro ataque aos contribuintes. Todos pagariam muito mais pelos negócios imobiliários porque o valor venal subiria muita acima do razoável para uma cidade abalroada pela crise econômica nacional, não bastasse a desindustrialização devastadora.  

A grande maioria dos contribuintes de Santo André que pretendia invadir o Paço Municipal neste domingo decidiu dar-se por satisfeita. O mal maior do IPTU fora eliminado. Restaram os movimentos sociais engajados em redes digitais. Acompanhei atentamente as reações em quatro desses endereços. Havia entre as lideranças desses agrupamentos a resolução de esticar a corda para enforcar o prefeito. Deram-se mal. Mesmo que tenham tido os melhores propósitos.

Ambiente explicativo 

Virou mantra autofágico a continuidade do movimento sob o argumento de que o prefeito concedera a suspensão do IPTU ao invés da revogação.  Pouco importava destrinchar filigranas jurídicas que supostamente poderiam desaconselhar a revogação da trapalhada fiscal antes da suspensão legal. Criou-se ambiente de retaliação ao prefeito. 

Havia um cheiro de política partidária no ar, embora também não faltassem manifestantes nas redes sociais a sugerir ponderação sobre a oportunidade da extensão do movimento. O ambiente digital ficou nebuloso. Era hora de estruturar a reação organizada ao campo da racionalidade, do planejamento. Preferiu-se o esforço físico da deslocação até o Paço Municipal. 

Sofri ameaças de ser enxotado de grupo do aplicativo WhatsApp. Ousei não só enviar cópia do texto publicado nesta revista digital dando conta do que poderia ser o fracasso da manifestação programada para domingo como também porque de vez em quando participava como um dos integrantes a desaconselhar a investida no Paço. Apelei nas duas situações à democracia, à liberdade de opinião. Fui salvo pelo bom-senso. Mas isso não significa que esteja livre de um ou outro totalitário da vez. Eles frequentam todos os universos materiais e digitais. Basta contrariá-los. 

Disputa manipulada 

Imagino o dia seguinte da frouxidão deste domingo no Paço Municipal. Não faltarão manipuladores de sempre a arguir que o movimento cumpriu a missão. No gabinete do prefeito Paulinho Serra e dos assessores também deverão se ouvir fogos de artifício de malabarismos semânticos. O roto falará do rasgado como se estivessem preparados para uma festa a rigor. Traquinagens semânticas não se sustentam.  

A Administração de Paulinho Serra e as redes sociais mais combativas quebraram a cara. Deram-se mal. Foram reprovadas. Salva-se nesse tiroteio o conjunto da sociedade que se mobilizara para invadir o Paço Municipal e que decidira recuar em nome da cidadania monetária. Quem não se apercebeu da enroscada do esvaziamento automático se deu mal. 

A politização do movimento, denunciado por leitores de CapitalSocial que constam do grupo que criei há mais de um ano, foi severamente condenada. Até com certo exagero. Esperar que em situação de desgoverno de planejamento fiscal (foi isso, afinal, que a gestão de Paulinho Serra se provou infeliz) interesses partidários não aflorem seria ingenuidade. E discriminação. 

O problema é que na medida em que se insistiu na manifestação fora de hora e os contribuintes abandonaram o barco após a reação do prefeito Paulinho Serra, sobraram participantes engajados. O que seria minoria inexpressiva ante uma multidão de 20 mil ou 30 mil pessoas projetadas para ocupar o Paço Municipal, tornou-se minoria barulhenta quando apenas algumas centenas deslocaram-se ao cadafalso.  

Superando pressões 

CapitalSocial é a marca que este jornalista defende depois de prestar serviços à sociedade em outras publicações. Não temos vocação alguma de seguir a manada, qualquer que seja. Nem quando o Ministério Público Estadual, em oposição às investigações da Polícia Civil do governo Geraldo Alckmin, manipulou a história do assassinato do prefeito Celso Daniel.  

Muito menos quando denunciamos mandachuvas da região em algazarras criminais, quase todas ignoradas pelas autoridades legais. Enfrentar alguns amalucados de redes sociais é café pequeno. Até porque, provavelmente eles se deram conta de que cometeram uma grande bobagem tática que pode sacrificar a estratégia.

Nenhuma publicação tem dedicado mais espaço analítico à questão do IPTU em Santo André. Enquanto todos dormiam nos louros de negligência ou do comodismo, em julho do ano passado já chamávamos a atenção à roubalheira aprovada pelo Legislativo. O relacionamento com qualquer agente público ou privado desta publicação está subordinado à virtude da transparência embutida na responsabilidade social.

Vamos continuar a atuar no caso do IPTU. Avançaremos muito no horizonte. Vamos mais longe. Hoje publicaremos o ranking de atratividade do imposto. Trata-se de iniciativa inédita. Contamos com mais ingredientes que poderão ser utilizados para um encontro das águas nos debates que o prefeito de Santo André prometeu aos contribuintes. 

Metades da laranja

Temos em nosso arquivo quase 300 artigos que tratam diretamente ou indiretamente do IPTU. Um acervo inigualável. Os marinheiros de primeira viagem teriam muito a aprender se conhecem esses trabalhos. Eles preferem julgamentos apressados e viciados. São paus mandados de mandachuvas e mandachuvinhas. 

Negar que o prefeito Paulinho Serra cometeu uma das maiores barbaridades administrativas da história de Santo André e que os recalcitrantes fora de hora fracassaram ao tentar dar sobrevida ao movimento após o recuo do tucano são metades da mesma laranja de estultice e compromisso com o erro. 

O dia seguinte do caso IPTU em Santo André não se deve restringir a debates locais. A Província do Grande ABC como um todo precisa acordar para enfrentar um imposto que, conforme provamos na matéria a ser publicada nesta edição, é um obstáculo a mais ao Desenvolvimento Econômico. 

Vamos insistir em buscar aliados que tratem questão tecnicamente com ampla repercussão na sociedade. Os políticos e partidários não devem ser banidos dos debates. Só não podem prevalecer com vieses e querelas. Como o foram no Paço Municipal no domingo que passou. Do jeitinho que Paulinho Serra esperava para dividir um deslize monumental com os adversários que tão bem conhece. 

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