Economia

Casas Bahia festeja 35
anos com muitos planos

  DANIEL LIMA - 09/09/1987

O polonês Samuel Klein, que fugiu do comunismo para se tornar um dos exemplos mais bem acabados de sucesso na livre iniciativa, tem planos ambiciosos para as Casas Bahia, a quinta rede nacional do setor varejista. Quando esta década terminar a Casas Bahia terá quase duplicado o atual número de pontos de venda – 47- e terá avançado à terceira colocação no ranking de receitas operacionais brutas. A Casas Bahia está comemorando 35 anos de atividades, mas não tem tempo para festejar. Vai comemorar, na verdade, crescendo mais e mais. Além de cinco novas unidades até o final do ano, incorporará ao patrimônio do grupo Casas Bahia um depósito de 40 mil metros quadrados de área construída, em Santo André, que representa quase o dobro da capacidade total dos três depósitos atuais, que poderão ser transformados em novas fábricas de móveis de cozinha e dormitório.

Concentrando a rede de lojas na Grande São Paulo, “onde dinheiro flui naturalmente”, segundo a definição do diretor-presidente, a Casas Bahia está mais próxima da classe média do que imaginam os estrategistas de mercado, que identificam inclinação do marketing para camadas populares. É o próprio Samuel Klein quem cita números capazes de convencer os incrédulos. Mensalmente a Casas Bahia vende três mil unidades de freezers, 30 mil televisores a cores, dois mil fornos de microondas, sem falar em eletrodomésticos comuns, como 10 mil unidades de fogões, 10 mil geladeiras. Em agosto ultimo os 47 pontos de venda colecionaram 125 mil pedidos de compras, um pouco abaixo do recorde de dezembro do ano passado — 130 mil pedidos. Nos dois últimos anos, conforme os arquivos da matriz da empresa, em São Caetano, dois milhões de clientes passaram pelas Casas Bahia. Desse total 800 mil têm contas ativas. Mensalmente, 50 mil zeram suas contas mas outros 50 mil integram-se à relação. O crescimento real nos últimos anos de 25% implica em investimentos médios de US$ 3 milhões/ano.

Tudo isso, explica o presidente Samuel Klein, está ligado ao sistema de atendimento. Boa parte dos cinco mil funcionários do grupo Casas Bahia não recebe treinamento especial. Eles simplesmente têm vencimentos bem acima da média do setor. Isto significa, em última instância, uma capacidade profissional bem mais apurada. Os vendedores recebem em média CZ$ 30 mil mensais. Quem menos ganha são os faxineiros e office-boys: CZ$ 5 mil mensais. Os motoristas da frota de 250 veículos de entrega em domicilio faturam em média até CZ$ 25 mil mensais, e os ajudantes até CZ$ 19 mil.

Muito tem de passado na política administrativa e funcional das Casas Bahia. Samuel Klein recorda os tempos difíceis da II Guerra Mundial, quando perdeu familiares, e a aversão ao comunismo, que tomou conta da Polônia e de outros países. Ficou cinco anos na Alemanha Ocidental até que, em 1952, veio para o Brasil. Mais exatamente para São Caetano, onde montou a primeira Casas Bahia. Escolheu o nome em homenagem às correntes migratórias que já começavam a surgir no ABC Paulista, despertadas pelos primeiros sinais e intensa industrialização. Bahia, baiano, baianada, eram termos populares pejorativos que, revertidos para a área comercial, foi o grande dispositivo de marketing para Samuel Klein começar a consolidar-se como empresário.

Mas o grande impulso aconteceu nos últimos 15 anos, quando Samuel Klein passou a reservar 3% da receita operacional bruta para o setor de publicidade. O boom foi imediato. De meia dúzia de lojas, a Casas Bahia passou por quase meia centena, das quais metade em prédios próprios. Na realidade, a Casas Bahia foi o primeiro grupo comercial a descobrir o ABC Paulista como grande consumidor. Algo que só mais recentemente foi assimilado por outras grandes redes varejistas.

A concorrência não preocupa o comandante da Casas Bahia. Pelo contrário. Ele entende que a competitividade só vai apurar o ritmo de atuação de sua empresa, que comercializa 70% de produção própria nos segmentos de armários de cozinha e dormitórios. Mas, além da industrialização de móveis, com cinco unidades, o grupo Casas Bahia conta também com duas concessionárias de veículos, uma financeira e uma coligada no setor de computação, que presta serviços exclusivamente às empresa da holding. Sem contar pequenos negócios, onde se inclui até mesmo o único cinema de Mauá, outra cidade do ABC. Quando 1987 terminar, a rede de lojas da Casas Bahia que responde por grande parte do faturamento da holding, terá faturado CZ$ 10 bilhões, 20% acima dos números do ano passado e o suficiente para que 10 novas unidades, em zonas centrais e periféricas, engrossem a presença da empresa na Grande São Paulo, seu único e grande filão.

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