Economia

Balanço imobiliário confirma
manipulações biguccianas

  DANIEL LIMA - 07/03/2018

Se o Ministério Público Estadual decidisse seguir recomendação deste jornalista e o Judiciário não trocasse os pés pelas mãos ao dar provimento a uma queixa-crime infundada contra a liberdade de opinião sustentada em provas, o então presidente do Clube dos Construtores do Grande ABC, Milton Bigucci, teria sido punido por manipular dados do mercado imobiliário da região. Tudo para artificializar a temperatura de negócios do setor.  Ou seja: deu um drible da vaca na credulidade popular. Se isso não está no Código de Processo Criminal, então não entendo patavina de leis. 

Foi por desqualificar pesquisas mentirosas fabricadas pelo então presidente daquela associação que virei alvo de uma das maiores barbaridades jurídicas que este País já vivenciou no campo da informação social. O meritíssimo de Santo André me condenou a oito meses de prisão por escrever verdades inconvenientes, as quais, por não entender nada de jornalismo, julgou como ofensas ao empresário de ficha corrida no próprio Ministério Público. 

Não custa lembrar que a ação criminal movida contra este jornalista não contestava uma linha sequer das denúncias que formulei. Apenas – vejam só – me qualificavam como criminoso perigoso à sociedade porque escrevi em alguns dos 11 artigos selecionados que a entidade então dirigida por Milton Bigucci era mequetrefe e chinfrim. Fui bastante generoso, mas o meritíssimo de Santo André que certamente jamais leu uma crítica sequer ao Supremo Tribunal Federal, ao Congresso Nacional, entre tantas instituições muito mais importantes deste País, me lascou uma sentença para lá de absurda. 

Distância enorme 

Como o tempo é o senhor da razão – e tem sido em outras situações envolvendo este jornalista e aquele recordista de negócios abusivos contra a clientela, segundo denúncia do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo – eis que novos números do balanço imobiliário da região confessam o que cansei de afirmar com base em informações de fontes insuspeitas: a atividade imobiliária da região guarda distância estelar do que existe na vizinha Capital.

Milton Bigucci sempre controlou os números para informar o distinto público que a Província representava 30% dos negócios paulistanos. Não é bem assim. Aliás, está distante disso. A força relativa sempre foi usada para engabelar os compradores de imóveis. 

Logo após assumir a presidência do Clube dos Construtores, em dezembro de 2015, o engenheiro e também empresário Marcus Santaguita tomou providência para acabar com a farra dos números: dispensou os funcionários que industrializavam a numeralha escolhida por Milton Bigucci e entregou os dados regionais aos cuidados de uma empresa privada especializada no assunto (Embraesp), que atende ao conglomerado Secovi, o Sindicato da Habitação de São Paulo, ao qual está filiado o Clube dos Construtores. Todas as unidades do Secovi no Estado já contavam com suporte da Embraesp. Menos o Clube dos Construtores. O esquentamento estatístico engendrado por Milton Bigucci obstava a idoneidade da Embraesp. 

A medida corajosa interromper invencionices é explicada pela diplomacia de Santaguita nas relações com Milton Bigucci e o conglomerado MBigucci. Bigucci e seu conglomerado são metades da mesma laranja de influência nas atividades do setor na região. Quando escrevo influência quero dizer muita coisa. Dados oficiais colocam a Construtora MZM em primeiro lugar no mercado regional. Não se tem notícia de que a MZM tem a mesma influência extracampo, por dizer assim. 

Protegidíssimo pela imprensa regional, Milton Bigucci não suporta a independência de CapitalSocial, mas sabe que vai ter de conviver com essa franja de independência. Por isso mesmo não tem como fugir da realidade dos fatos. Os 30% de participação regional em relação à Capital sempre foi uma balela. Nem com números fabricados nas quebradas do corporativismo que despreza a responsabilidade social se chegou a tanto. Em 2013, conforme dados do Clube dos Construtores ainda sob o controle de Milton Bigucci, a região contava com 26,81% dos lançamentos frente a Capital. No ano seguinte foram 17,8% e em 2015, 21,36%.  Quando foi apeado da presidência, após denúncia de participação na Máfia do ISS em São Paulo, Milton Bigucci viu a participação regional cair expressivamente, agora com a Embraesp a comandar o jogo estatístico. 

Dados devastadores 

O Clube dos Construtores divulgou balanço dos lançamentos de imóveis residenciais na região em 2017, com base na pesquisa da Embraesp, em atendimento ao Secovi. Sabem os leitores qual é a participação da região: apenas 8,5% ante a Capital. No ano passado, também sob o controle da Embraesp, a região participou com 11,91% dos lançamentos, sempre em confronto com a Capital. 

Informa o Clube o Clube dos Construtores que o Secovi só revelou os dados relativos a lançamentos no ano passado. Faltam os dados de vendas. Mas isso não importa agora. Até porque, quando saírem, deverão confirmar ou agravar as alquimias de Milton Bigucci. 

Vamos aos números, então. No ano passado a cidade de São Paulo contou com o lançamento de 28,7 mil unidades residenciais, volume 48% superior às 19,4 mil unidades de 2016. Na Província, segundo a mesma fonte estatística, foram registrados 2.311 lançamentos de imóveis residenciais no ano passado, com crescimento de 23,75% sobre a temporada de 2016. Os 8,50% de participação da região em relação a São Paulo aparecem quando se confrontam os lançamentos da região e os da Capital. 

Provas do crime 

Para os leitores ainda sem familiaridade com a seriedade editorial de CapitalSocial, reproduzo alguns trechos da matéria que assinei na edição de 20 de fevereiro de 2014, que tratava exatamente da manipulação de dados por Milton Bigucci. Vejam os pontos principais sob o título “Bigucci repete balanço enganoso à frente do Clube dos Construtores”: 

 Comandante há mais de duas décadas do desmoralizado e inoperante Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC, o empresário Milton Bigucci, velho conhecido de guerra de irregularidades no setor, reuniu a Imprensa para mais uma vez desfilar fantasias numéricas mal-ajambradas. O balanço do mercado imobiliário da Província do Grande ABC em 2013 é mais uma vez um amontoado de imprecisões, mistificações e vazios. (...) Atuando como agente de marketing que pretende fazer crer que o mercado imobiliário é um mar de rosas, como se micos não se espalhassem por todo o território regional, Milton Bigucci disse aos incautos que o setor apresentou o melhor resultado da história no ano passado, levando-se em conta que a história da atividade na região começa em 2006, quando o Clube dos Construtores iniciou pesquisas sobre lançamentos e vendas de imóveis, principalmente ou sobretudo apartamentos.

Realidade paralela  

 (...) O recorde divulgado por Milton Bigucci tem contorno e conteúdo de quem pouco se importa com a realidade dos fatos. As 10.054 unidades vendidas no ano passado, sempre segundo o dirigente, seriam um número histórico porque superariam os anos anteriores. O que Milton Bigucci não disse porque não lhe interessa dizer é que quando iniciou o que chama de produção de dados estatísticos do mercado imobiliário da região (os quais não passam de embuste), tanto Diadema quanto Mauá não constavam dos estudos. E tampouco o programa popular Minha Casa, Minha Vida, que foge da proposta de mensurar o setor dentro dos conceitos de oferta e demanda convencionais. Ora bolas, apenas a título de analogia: imagine o leitor que Santo André venha a ser anexada por São Bernardo como Município, e, um prefeito espertíssimo, de São Bernardo, saia a público para dizer que o PIB de São Bernardo quase dobrou em poucos anos. A comparação é aberrativamente simplória porque as estatísticas industrializadas por Milton Bigucci são aberrativamente simplórias.

Deliberado à enganação 

 (...) Tudo é deliberadamente preparado e repetido a cada temporada para anabolizar uma atividade que insiste em tentar bater recordes de valorização do metro quadrado, embora as condições macroeconômicas se apresentem como obstáculos. (...). Houvesse uma legislação que obrigasse os insensatos do mercado imobiliário a pagarem por imóveis os valores de metro quadrado que anunciam ao público em anúncios, entrevistas e outras formas de comunicação, a irresponsabilidade de manipulação de preços acabaria num instante. Uma Lei de Responsabilidade Imobiliária cairia como luva para reduzir drasticamente a ação eticamente criminosa de agentes especulativos.

Artimanhas demais  

 O balanço do mercado imobiliário divulgado por Milton Bigucci também é manco, caolho e indecente como instrumento de informação porque não tem respaldo técnico e científico. Jamais Milton Bigucci abrirá as planilhas do comportamento do setor porque tudo é feito de improviso, num sistema de captação de dados que se divide entre a fragilidade metodológica e o esfarelamento estrutural. Fosse um time de futebol, as estatísticas do Clube dos Construtores seriam um catado, porque são um mal-ajambrado ajuntamento de dados. Chutam-se números ao prazer da especulação imobiliária.

ITBI revelador 

Para completar esse massacre de informações fundamentadas, eis que lanço mão também de outra matéria, assinada na edição de dezembro de 2016 sob o título “Província perde de goleada para mercado imobiliário da Capital”. Busquei dados que corroboravam integralmente com a denúncia de abusos estatísticos de Milton Bigucci. Leiam alguns trechos imperdíveis:

 O PIB da cidade de São Paulo é cinco vezes maior que o PIB dos sete municípios da Província do Grande ABC, mas quando se trata de receitas de um imposto (ITBI) que mede a temperatura econômica do setor imobiliário, a diferença é nove vezes favorável à Capital. O resultado dessa comparação não é a explicitação definitiva do fosso de desenvolvimento econômico que separa a região da cidade mais importante do País, mas deve ser observado com máxima atenção porque se soma a tantos outros indicadores que identificam fadiga de material da Província. Confrontar o PIB (Produto Interno Bruto) da região com o da Capital e agregar os valores monetários de arrecadação com o ITBI (Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis Inter Vivos) são um caminho para identificar sem maniqueísmos especulativos o que separa os dois territórios em dinamismo econômico.  

Muitas vezes maior 

 Quando as receitas de ITBI na Capital são quase 10 vezes maiores às que entram nos cofres públicos dos sete municípios da Província do Grande ABC enquanto o PIB da Capital não chega à vantagem de cinco vezes o PIB da região, constata-se preocupante contraste.  Resumidamente, o mercado imobiliário da região é relativamente muito mais modesto do que poderia ser frente ao da Capital. A pergunta que salta à vista é enfática: por que a Província perde de 10 a 5 para a Capital em PIB é derrotada pela mesma Capital por 10 a 1 quando o aferidor de riqueza são os negócios imobiliários que passam rigorosamente pelo ITBI? 

Muito mais riqueza  

 Quando os números do PIB de um determinado território não acompanham em termos relativos a participação de receitas originárias de negócios imobiliários, sinaliza-se que a geração de riqueza, síntese do indicador, não corre na mesma raia de efetividade econômica. Tradução preliminar: São Paulo conta com geração de receitas de negócios imobiliários muito acima da distância que separa os dois territórios no Produto Interno Bruto. A tradução final dessa diferença é que São Paulo internaliza muito mais riqueza gerada pelo PIB do que a Província do Grande ABC. 

Riqueza dispersa 

 Mais tradução ainda: a riqueza gerada na Província do Grande ABC é retida em menor proporção na própria região em relação à riqueza fomentada na Capital. A diversidade econômica da cidade de São Paulo, com esplêndida árvore genealógica de atividades múltiplas, de hotéis a restaurante, de indústria a entretenimento, do sistema financeiro a consultorias, supera largamente a Província do Grande ABC dependente em excesso do setor automotivo e com um baixo índice de interatividade e tecnologia nas áreas de comércio e serviços. 

Desmonte regional 

 Essa temática é árida em todos os sentidos, mas deveria ser levada muito a sério pelos administradores públicos da região que teimam em desfilar argumentos triunfalistas irresistíveis aos fatos. A diferença entre o que a Prefeitura de São Paulo arrecada com o ITBI e o que o conjunto das prefeituras da região contabiliza com o imposto dá dimensão relativamente segura da desvalorização do espaço físico regional. Ou alguém tem dúvidas de que a terra é um dos ativos que balizam o desenvolvimento econômico?  

Mercado debilitado

 Arrecadar nove vezes menos que a Capital em negócios imobiliários quando a distância do PIB não passa de cinco vezes é sintoma de enfraquecimento do mercado imobiliário da região como consequência da quebra do desenvolvimento econômico. Anos a fio de desindustrialização e de desaquecimento da mobilidade social não ficariam de graça. Quem tem propriedade imobiliária na região não pode perder de vista que os níveis de valorização frente à Capital são um jogo entre uma equipe pequena e um dos times grandes do futebol brasileiro. 

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