Caso Celso Daniel

Que tipo de otário é você sobre
o arrebatamento do prefeito? (1)

  DANIEL LIMA - 12/03/2018

Não se ofenda com a pergunta, caro leitor. Essa é a maneira que encontrei para retomar com impacto um tema que poderá parecer envelhecido, mas está longe disso. Há mais de 16 anos o prefeito Celso Daniel foi assassinado, mas, como uma premonição dessas séries de filmes que estão na moda, o assunto é uma obra em aberto. Principalmente agora que o Ministério Público Estadual retoma investigações para tentar mudar um enredo mais que surrado, definido pela força-tarefa da Polícia Civil e agentes da Polícia Federal. Um ponto específico, entre tantos que forram de intrigas os consumidores de informação, merece esclarecimento. É aí que o leitor entra sob a condicionalidade de três vertentes excludentes de otário. Que otário você é, afinal?

A questão é a seguinte: você acredita que, na noite do arrebatamento, do sequestro, o prefeito Celso Daniel foi retirado a pontapés do banco de acompanhante da Pajero para facilitar a tarefa dos sequestradores. Você acredita que o condutor do veículo, Sérgio Gomes da Silva, primeiro-amigo de Celso Daniel foi o autor da violência, como se já não bastasse o quadro de horrores naquela noite no chamado Três Tombos, na Capital, quando o então prefeito de Santo André e seu fiel amigo retornavam de jantar nos Jardins?

Usando e abusando 

Você tem coragem de responder sem pestanejar a questão central desse ponto das investigações que coloco de forma sucinta? Esse é apenas um fragmento de um processo criminal dividido e jamais entrecruzado tanto em investigações quanto juridicamente entre a Polícia Civil e a força-tarefa do Ministério Público Estadual nomeada a toque de caixa pelo governador Geraldo Alckmin. Que tipo de otário é você ao meter-se nas discussões sobre o arrebatamento de Celso Daniel do interior da Pajero atacada pelos sequestradores?

O caro leitor que se mete a discutir o caso Celso Daniel de orelhada, principalmente de orelhada, é um otário consciente ou reconhece uma banda larga de ineficiências informativas que o levaram a meter o pé na jaca da especulação de quem não tem o que perder? Sim, geralmente os leitores não têm o que perder quando entram numa bola tematicamente dividida como essa do caso Celso Daniel. Ficar com o senso comum é sempre vantagem e tanto. Mas, nesse caso específico, é uma senhora roubada. 

Por mais que já tenha escrito sobre o caso Celso Daniel (não tenho concorrente no País nem em quantidade nem em qualidade da informação, porque isenta de partidarismos e de ideologias) jamais me dediquei com certa profundidade a uma especificidade do sequestro de Celso Daniel. O vetor posiciona Sérgio Gomes da Silva (que o Ministério Público estigmatizou e criminalizou sub-repticiamente com o codinome de Sombra) em condição incriminatória. 

Não há documentos conhecidos nos quais os promotores criminais tenham sugerido que fora Sérgio Gomes da Silva um amigo desalmado que, a pontapés, jogou Celso Daniel nos braços da bandidagem entrincheirada. E não existe nada nesse sentido porque nenhum dos sequestradores provou em qualquer momento das investigações e inquirições que Sérgio Gomes da Silva estivera por trás de alguma coisa que significasse interromper o trajeto da Pajero em direção a Santo André.

Abrindo a porta 

Entretanto, propagou-se de forma insidiosa uma informação de bastidores que instalara Sérgio Gomes da Silva como protagonista da ação de sequestro. Ele teria aberto a porta travada mecanicamente e, em seguida, expulsara Celso Daniel a pontapés do veículo, entregando-o aos bandidos. É nesse ponto que você, caro leitor, entra. Que tipo de otário é você? Como se saberá, na sequência, tudo depende da bola em profundidade em que você se meteu. 

Elenco três morfologias distintas da operação de sequestro para construir perfis de otários sugeridos. Seria reducionismo concentrar em apenas uma tipologia o que a maledicência, para não dizer o mau-caratismo, colocou na mesa de especulações sobre o assassinato do prefeito. Vamos à tipificação dos otários consequentes da captura de Celso Daniel: 

 Otário induzido

Quem acredita na história narrada acima, ou seja, de que Sérgio Gomes da Silva fora um traidor que, associado a bandidos sequestradores, entregou Celso Daniel de bandeja, é um otário induzido. Para um otário induzido chegar ao grau de otário convertido teria de ultrapassar o limite de captura de informações gerais que de alguma forma não lhe tomaram mais tempo e cuidados informativos. 

O otário induzido não tem o perfil de alguém que considera o caso Celso Daniel acontecimento que, necessariamente, ultrapasse o campo de jogo da coincidência de assassinato de alguém relativamente famoso e importante no enxadrismo político nacional.  O otário induzido entende que há correlação pecaminosa entre o sequestro do prefeito e a participação do primeiro-amigo do prefeito, mas nada que o leve a desconsiderar outras versões. O otário induzido é a noiva pura pronta para dar um passo além de ter aceitado o parceiro com quem pretende dividir a vida; passa-lhe pela cabeça inaugurar o placar antes do casamento.

 Otário convertido

Sair do casulo de otário induzido para o campo aberto de otário convertido significa que o leitor desta categoria agregou valores informativos e permeados de interesses políticos, além de criminais, para se convencer de que a suposta atitude de Sérgio Gomes da Silva tem sim muito a ver com tudo que se publicou a respeito do assassinato do prefeito. 

Ou seja: o lance do arrebatamento de Celso Daniel foi programado para ser do jeito que foi. Nada se deu por acaso. Portanto, não há dúvidas de que Sérgio Gomes da Silva participou ativamente do sequestro, como inimigo íntimo do prefeito. 

Essa avaliação não tem o carregamento nocivo e entorpecedor do estágio seguinte ao qual chegaremos. Trata-se de um leitor que só não é comum porque, além de ler, tem a prerrogativa de refletir com liberdade. Inclusive com o direito de emoldurar um quadro de avaliação que estabelece convicção entre a verdade dos fatos e as manipulações dos fatos. Otário convertido é leitor ávido por assuntos nos quais possa mergulhar e extrair conclusões que considera prováveis. É a noiva convencida de que mais que inaugurar o placar antes do casamento, também é preciso programar novos testes de aferição da masculinidade do futuro parceiro.

 Otário fundamentalista

Não foi preciso ler muito e sequer ouvir mais que o mínimo para o otário fundamentalista, que vê ideologia e política partidária em tudo, convencer-se de que naquela noite de 18 de janeiro de 2002 introduziu-se na literatura da política nacional um capítulo muito especial a dar conta das ambições petistas. Nem pensar que um assassinato de um figurão da política pudesse ser catalogado como ocasional.

O otário fundamentalista organizou as informações precárias de que dispunha como armamento argumentativo à prova de qualquer contraposição. Nada que fosse eventualmente desdobrado das investigações em sentido contrário aos elementos que entabulou em forma de teoria conspiratória o retiraria da sólida convicção de que a cúpula petista executara ação estratégica para apagar qualquer risco que o prefeito Celso Daniel viesse a representar aos planos de conquistar o governo federal. Nesse caso, a noiva aprovou os experimentos pré-nupciais, ficou tão encantada que deixou de ser noiva para se tornar amante para sempre. 

Sem agravamento 

Tenho uma palavra de consolo ao leitor do compartimento de “otário induzido”. Não se avexe com o que vou apresentar na reta de chegada deste artigo. Você faz parte de uma maioria previamente programada para, subliminarmente, dar como corretas todas as versões que se construíram sobre pontos importantes das investigações ministeriais que, isoladamente das ações policiais, concluíram pela culpabilidade de Sérgio Gomes da Silva, supostamente (e muito que equivocadamente) um dos mandantes do crime. 

A condição de otário induzido não deve atormentar o leitor comum do caso Celso Daniel. Não se preocupe com o Juízo Final. Não existe pecado do outro lado do Equador do caso Celso Daniel quando os pecadores caíram na rede maliciosamente recheada de idiossincrasias para criar ambiente falso sobre aqueles acontecimentos. Durma em paz. Até porque, mais adiante, neste texto, ofereço-lhe a possibilidade de redimir-se. Nas pregações sobre a verdade do caso Celso Daniel já sosseguei a alma e a língua de otários induzidos. Os retardatários têm nova oportunidade. 

Ao “otário convertido” pelo noticiário oficial ou de bastidores, das redes sociais, também existe uma porta de saída sem qualquer relação mesmo que metafórica com a porta pela qual passou vivo, embora assustado, o prefeito Celso Daniel, sequestrado sob a mira de armamento pesado. 

Ao deixar o gueto da indução e alcançar o terreno da convicção, o otário convertido tornou-se uma vítima das forças de oposição à sempre negada possibilidade de que alguém que viria a ser um dos cinco homens do presidente Lula da Silva fosse abatido de forma tão simples, comum, por um bando de pés de chinelos, como o então titular do DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa), Armando de Oliveira, definiu os sequestradores. 

Enredo patético 

Seria mesmo impossível resistir à avalanche do noticiário de mão única que imputou a Sérgio Gomes da Silva o crime de mando. Tudo, claro, para vincular a cúpula nacional do Partido dos Trabalhadores ao assassinato. Foram quatro anos de suprimento de notícias do Ministério Público Estadual ante o silêncio determinado pelo governo do Estado às forças policiais. Tudo para que se definisse uma falsa verdade dos fatos. 

O governo do Estado difundiu com o braço da força-tarefa do MP que o caso Celso Daniel era uma ramificação das roubalheiras no Paço Municipal. Faltou combinar com a Policia Civil e a Polícia Federal, igualmente sob gestão de tucanos. 

Esse enredo paralelo se provou patético. Celso Daniel, inicialmente um homem puro e a caminho da santificação, segundo a versão da força-tarefa do Ministério Público Estadual, viu-se desmascarado como integrante do denunciado esquema de ladroagem na gestão da Prefeitura de Santo André. Tudo isso não é especulação. É o resultado de ampla ocupação de espaços na mídia. Os jornais estão como provas irrefutáveis.  

Esse é um ponto fora do foco do arrebatamento de Celso Daniel, embora esclareça, preliminarmente, o quanto o MP chutou para a linha de fundo as tentativas de acertar o passo das investigações sem conexão com a Polícia Civil e a Polícia Federal. 

Caso perdido 

Quanto à condição de “otário fundamentalista”, não há o que fazer com quem habita esse território de radicalismo empedernido no qual o contraditório, as provas, as evidências e tudo o mais em contraponto à bobagem dos pontapés de Sérgio Gomes da Silva para expulsar o primeiro amigo Celso Daniel da Pajero não passam de inconsistências e invencionices de gente que só tem compromisso com um lado da moeda política. 

Otário fundamentalista é um caso perdido quando se perscruta a verdade sobre qualquer assunto em pauta. Eles não abrem mão de teimosias lastreadas pelo fígado ideológico, quando não pessoal. 

Ao erguerem barricadas supostamente éticas e morais no tratamento do caso Celso Daniel ou em tantas outras situações em que a ideologia entra em campo, os otários fundamentalistas são um passaporte à interrupção do diálogo. Com eles não existe possibilidade de encontrar um ponto sequer de linha de raciocínio convergente.

Exposto tudo isso – pouco diante da complexidade mais que diversionista dos desvios investigativos do caso Celso Daniel – eis que chego ao ponto crucial deste novo artigo. Chego ao ponto no qual as simbologias dos otários se explicam. 

Temperatura elevada 

Afinal -- perguntarão o otário induzido, o otário convertido e o otário fundamentalista -- o que existe materialmente consolidado de prova de que estão estratificados nessas categoriais?

É disso que trataremos em seguida. Vou cumprir, com isso, promessa de mais de 30 dias, quando usei a lista de leitores de CapitalSocial que consta do aplicativo Whatsapp. Pretendia – e consegui -- elevar a temperatura de curiosidade sobre esse desdobramento do caso Celso Daniel. Tudo conectado com a reabertura das investigações, a pedido do Procurador-Geral do Ministério Público em São Paulo. 

Diria que desse mato investigatório não sairá coelho algum pretendido por quem quer retirar a morte do prefeito da bitola criminal. Desde que, claro, o coelho desse mato seja a descoberta que a Polícia Civil e a Polícia Federal cansaram de repetir: o assassinato de Celso Daniel trafegou à parte das denúncias de irregularidades administrativas do petista na Prefeitura de Santo André. 

Quem buscou intimismo entre uma coisa e outra quebrou a cara, embora se deva reconhecer que se fez de Sérgio Gomes da Silva, morto em setembro de 2016, a segunda grande vítima de uma tragédia nacional. Sem contar, claro, os otários induzidos, os otários convertidos e os otários fundamentalistas -- em forma de consumidores de informações.

O desfecho fica para a edição de amanhã. Não custa fazer um pouco mais de mistério. A carapuça de otário cabe perfeitamente na quase totalidade dos consumidores de informações do caso Celso Daniel e vai muito além do arrebatamento. O crime foi tão óbvio que forças policiais o desvendaram sem grandes atropelos. E só refizeram a trajetória investigativa porque sofreram fortes pressões para encontrar uma vereda que confirmasse especulações. Tratou-se de uma operação digna dos melhores momentos da Lava Jato. Com a diferença de que, daquela vez, o Ministério Público Estadual correu em raia própria, em eixo de confronto. Até hoje procura outros mandantes. Mesmo após escolherem um mandante jamais confirmado pelas forças policiais. Mais que isso: inteiramente fora do enredo paralelo. 

Leia mais matérias desta seção: