Imprensa

Manual de gataborralheirismo
e Lista dos 60 ficam para maio

  DANIEL LIMA - 19/04/2018

Fui obrigado a postergar duas promessas digitadas neste espaço. A primeira seria publicada segunda-feira, 16 de abril, um manual sobre o Complexo de Gata Borralheira da região. A segunda que analisaria a cada semana a Lista dos 60 Destaques do Diário do Grande ABC, publicação que completa seis décadas em maio. Deixo tanto a primeira quanto a segunda para depois. Precisamente para maio. Coladíssimas ao aniversário do Diário do Grande ABC. Uma coisa tem a ver com a outra. Ou seja: as promessas estão ligadíssimas à existência do Diário do Grande ABC. 

Sobre a Lista dos 60, talvez a melhor justificativa para a mudança seja o que é a mais pura das verdades: a cada dia somos surpreendidos com o desfilar de identidades de homenageados conflitantes entre si em termos de meritocracia, de padrão de desempenho e de relevância histórica na região. Há critérios tão obscuros nas escolhas (critérios desconhecidos do público, porque se trata de colégio eleitoral corporativo, restrito ao que parece a jornalistas da publicação) que o enquadramento lógico de referenciais se torna tarefa impossível. 

Não vou expor mais exemplos desse conflito latente entre o que é de fato um destaque de gabarito e o que é um destaque de performance restrita a condicionalidades. Acho que bastam os três nomes já mencionados na primeira análise, quando classifiquei os então 17 destaques revelados como integrantes de Primeira Divisão, da Segunda Divisão e da Zona de Rebaixamento. 

Os ex-prefeitos Aarão Teixeira e Gilson Menezes e o eterno presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, Valter Moura, não constariam de lista que passasse pelo crivo de colégio eleitoral mais amplo e exigente. Outros nomes anunciados na sequência diária após aquela leva mencionada de 17 destaques também seriam descartados. 

Conciliação temporal 

Quanto ao breve manual do gataborralheirismo, em fase de produção e que já ultrapassou 60 temáticas, a postergação se deve a conciliá-lo temporalmente com o aniversário do Diário do Grande ABC. Uma coisa tem tudo a ver com a outra; ou seja, o gataborralheirismo regional passa obrigatoriamente pelas páginas do veículo de comunicação mais tradicional da Província do Grande ABC. Mais tradicional não significa que seja o melhor, tanto nestes tempos quanto no passado. Só se apagarem as duas décadas da revista LivreMercado. Quem não é o maior tem de ser o melhor, lembrem-se desse mote publicitário? 

Por falar em Província, se existe um ponto em comum nas entrevistas do Diário do Grande ABC com integrantes da Lista dos 60 é exatamente o que chamaria de Síndrome de Autopromoção. Praticamente metade de cada entrevista é direcionada a elogios quase que coercitivos ao jornal. O que a Rede Globo faz em benefício da própria imagem ao longo da programação é a profissionalização inteligente do autoelogio. O Diário do Grande ABC exagerou quando definiu o projeto de 60 entrevistas. 

Políticos dominam espaços 

O constrangimento leva os entrevistados a excessos que viraram massa bajulativa.  Grande parte deles, os contemplados, perdeu e perde de goleada quando se comparam as raras vezes em que foram destacados pelo jornal ao longo de suas trajetórias. Basta fazer a seguinte comparação: quantas vezes o jornal saiu às ruas nos últimos 30 anos e quantas vezes esse grupo de contemplados ocupou suas páginas? Basta acionar mecanismo de busca na Internet. As respostas emergem. 

Aliás, nada mais explícito de uma colisão que remete ao dilema do ovo e da galinha: seriam esses contemplados tão importantes assim para serem homenageados, embora desprezados pelo jornal ao longo dos tempos, ou os homenageados não são tão importantes assim e mais que justificariam o fato de o jornal não os tornarem mais frequentes em suas páginas?

Fosse o critério de destaque levado a sério, tendo-se as páginas do jornal como medidor, os políticos tomariam todas as vagas. Os dois já anunciados, Aarão Teixeira e Gilson Menezes, entram para a galeria de improváveis, quando não de penetras. 

Racionalidade preservada 

Sei que não faltam ignorantes a bradar suposto mal-estar entre este jornalista e o Diário do Grande ABC. Esses estúpidos interpretativos não sabem o que falam. Não seriam os 17 anos que passei naquela publicação, em três situações distintas, a primeira das quais de 15 anos sequenciais, que me prenderiam à análise protecionista. E tampouco minhas saídas, duas das quais fora de minhas previsões (a última partiu de mim, plenamente racionalizada) que me tornariam opositor obtuso e biliar. A obrigação moral de atuar como jornalista sem partidarismos de qualquer espécie me conduz acima de qualquer interesse pessoal ou profissional. Custa caro, mas o que se pode fazer? 

Como nestes tempos os ignorantes e os maliciosos não podem ser subestimados, retiro alguns parágrafos do Planejamento Estratégico Editorial que preparei e apresentei há 14 anos, em março de 2004, pouco antes de assumir a direção de Redação do Diário do Grande ABC. 

Provas de coerência

Sob o título “Cinco anos para Diário se adaptar aos conceitos de regionalidade”, produzi completo diagnóstico da publicação. Foram quase 100 mil caracteres. Tudo está disponível neste site. Leiam apenas alguns parágrafos para entenderem que, contratado pela publicação, fixei claramente os desafios que me esperavam. Leiam: 

 Reconhecemos as dificuldades que encontraremos em traçar novo perfil editorial para um produto que — agora me manifesto como jornalista — há muito tempo deixou de justificar a própria denominação. Muitos dos problemas que vivenciamos no Grande ABC de uns tempos a esta parte estão situados na zona de aderência do jornal. Reações e inações de uma sociedade declaradamente à deriva resultam de coragem e identificação editorial que o jornal há muito abdicou. Tem-se a impressão — agora me manifesto também como leitor — que o Diário do Grande ABC sofre com a ameaça de uma permanente espada que lhe cortaria a cabeça e lhe retalharia o resto do corpo. Como justificar, em contrário, posicionamentos erráticos, quando não inconsistentes, e dúbios, quando não omissos? Somente a prática nos dará mais respostas a perguntas e afirmações que decidimos não provocar neste estudo-análise. Nada é mais emblemático do que o cotidiano de muito trabalho. A função de analista da situação que encontraríamos no campo de batalha em que se constituiria a formatação de um produto regionalmente forte terá de ser nos primeiros tempos igualmente cumulativa de operacionalidade. Dependeremos de informações de terceiros, mas fundamentalmente dos nossos próprios olhos e juízo para aferir desconfianças ou poucas certezas com respeito à estrutura funcional do jornal. Não bastasse a demolição de eventuais encastelamentos antiprodutivos, teremos de espichar olhos e preparar ouvidos para o atendimento das demandas externas dos consumidores de informação. 

Mais um pouco 

Querem mais um bocadinho daquele projeto? Então, leiam: 

 O jornal, como produto e como instituição, não pode, portanto, construir relações circunstanciais ou efetivas que afetem os insumos editoriais. Dar oportunidade a todos para que participem de uma grande virada institucional do Grande ABC é ação prospectiva que tem o condão de zerar os déficits do presente e do passado. A vantagem de incrementar essa nova empreitada é que os erros acumulados deverão servir de lição. Somente um novo enquadramento editorial que dignifique quem tem garrafas para vender permitirá a reconstrução de relacionamentos entre as instituições mais importantes da região, provavelmente com o Diário do Grande ABC como catalisador dessas operações. Nada, entretanto, que lembre o fracasso do Fórum da Cidadania, deliberadamente uma ação do jornal que, por não ter tido o controle estratégico recomendado, cometeu o desvio múltiplo de baixa representatividade, politiquismo partidário, afrouxamento institucional, entre outros problemas. Tornar-se o centro nuclear das ações de restauração das forças econômicas e sociais da região não significa afirmar que o Diário do Grande ABC deve paternalizar as entidades. Pelo contrário: nosso regionalismo recomenda que as instituições se sintam livres de amarras que eventualmente as embalem incondicionalmente e as coloquem, portanto, a salvo de restrições e correções de rumo. Tivesse o Fórum da Cidadania dispensado o hierarquismo do Diário do Grande ABC, cujos vários representantes tutelaram reuniões de forma muitas vezes explícita, outras vezes implícita, provavelmente não se teria desperdiçado o mecanismo até então mais interessante de reação organizada da comunidade. Mesmo considerando-se que o Fórum da Cidadania se reduziu a apenas um ou dois representantes de cada entidade e que não demorou quase nada para a esfuziante usinagem inicial virar sucata.

Conviver e exorcizar  

Acho que valerá a pena ter esticado o prazo do manual de gataborralheirismo regional. Dezesseis anos atrás, quando escrevi “Complexo de Gata Borralheira”, não faltaram empresas a financiar o livro. A festa no Teatro Municipal de Santo André (como mostra matéria que consta desta primeira página) em homenagem a Celso Daniel, então recentemente assassinado, não foi observada sob luzes de provocação improcedente. Longe disso. Por isso, não seria agora, década e meia depois, que teria conotação depreciativa. Precisamos conviver com nossos fantasmas. Não conheço outra maneira de exorcizá-los. Negá-los, como se negava lá atrás e ainda se nega hoje, é burrice, quando não oportunismo manipulado por gente que detesta mudanças. 

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