Economia

Doença Holandesa e Síndrome
de Estocolmo emperram região

  DANIEL LIMA - 25/04/2018

Uma novidade editorial no mercado de informações do setor automotivo foi proporcionada na edição de ontem da Folha de S. Paulo pela jornalista Estelita Hass Carazzai. Diretamente de Washington, Estelita inquiriu o presidente da Volkswagen no Brasil e na América Latina, Pablo Di Si, numa entrevista completamente fora da normalidade reverencial com que jornalistas brasileiros costumeiramente se dirigem tanto aos executivos das montadoras quanto aos sindicalistas ligadas à indústria automotiva. 

A pergunta-chave ao presidente da multinacional alemã que tem história na Província do Grande ABC jamais foi feita por qualquer profissional do ramo nestas terras: as montadoras estariam chantageando o governo federal? 

Retiraria a interrogação se o título deste texto fizesse referência direta à suposta chantagem, não à dupla enfermidade regional. Afinal, o que vem em seguida não deixa dúvidas sobre a temperatura envolvendo montadoras e governo federal – numa disputa que vem desde o final do ano passado, quando foi retirado de cena o Inovar-Auto, invenção sindical-montadoras para tomar dinheiro do governo federal e corromper os pressupostos de livre-comércio internacional. 

Nosso futuro em jogo 

Esse assunto, o futuro das montadoras no Brasil, interessa diretamente à região. Nossa Doença Holandesa Automotiva nos sustenta ao mesmo tempo em que nos sequestra. Saímos num estalar de dedos da condição de Doença Holandesa para a de Síndrome de Estocolmo. Amamos amar nossa dependência automotiva. Amamos amar nossa perdição econômica.  Esse enunciado deve causar calafrios nos sindicalistas que vivem sobre-rodas. 

Por isso entendo que os leitores deveriam prestar atenção redobrada a estas linhas. Sobremodo os leitores formadores de opinião e tomadores de decisões. Gente com obrigação moral de dedicar-se mais e mais em favor da região, mas que, insistentemente, finge-se de morta. Talvez não precisasse porque o é de fato em matéria de economia regional. 

Para mudar essa tragédia anunciada e consumada ao longo dos anos todos precisam sair do quadradismo das respectivas corporações públicas, privadas e sociais. Até porque, convenhamos, como já acontece há muito tempo, o bicho está pegando. Tanto que o Rota 2030 virou a salvação da lavoura. Lavar as mãos é o pior dos pecados. Omissão não combina com reação. Nem com inconformismo. 

Diário de mãos dadas

O Diário do Grande ABC é o único periódico impresso diário a estabelecer, nas reportagens e em editorais, uma linha declaradamente de pleno apoio às improdutividades geradas ao longo de décadas pelo protecionismo às montadoras de veículos e aos empregados do setor. Há mais de uma década rotulei os metalúrgicos das montadoras e sistemistas de “trabalhadores de primeira classe”. Tudo com base em estudos divulgados pela Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, à época sob a liderança de Celso Daniel. 

Os demais jornais aos quais tenho acesso diariamente (Folha de S. Paulo, Estadão e Valor Econômico) mantêm posição relativamente cautelosa sobre o que pretendem as montadoras agora com os benefícios fiscais embutidos no programa Rota 2030. 

Talvez o menos cauteloso e por isso mesmo mais decidido a enfrentar torcidas organizadas das montadoras e dos metalúrgicos seja o Valor Econômico. A linha editorial do melhor produto impresso diário é discretamente favorável à competitividade em geral sem o guarda-chuva de benefícios setoriais que sempre deram com os burros nágua quando se colocam na mesa resultados sistêmicos. E é exatamente a preocupação com competitividade de que trata o Rota 2030. Sindicalistas e executivos de montadoras estão de mãos dadas em busca de novos favores do governo federal. Um governo federal cuja saúde fiscal está na UTI.  

Uma pergunta inesperada 

Para que não digam que estou a deturpar o conteúdo da entrevista publicada ontem na Folha de S. Paulo, vou reproduzir a pergunta da jornalista. Antes, porém, também para que não se perca o contexto da indagação, recupero questionamentos anteriores, encadeados até chegar ao ponto máximo. Leiam:

Folha – O sr. Acha que um programa como esse é de fato imprescindível, num país que perdeu tanto com a tentativa de criar campeões nacionais? Não há risco de favorecimento?

Pablo Di Si – Países em todo o mundo determinam seus setores estratégicos. Veja o exemplo da China: 20 anos atrás, eles não tinham indústria automobilística. Coreia do Sul, zero. Foi com incentivos setoriais que eles criaram uma indústria automotiva. No Brasil, é a mesma coisa. O Inovar-Auto foi muito bom para o setor e para o país. Os carros brasileiros eram atrasados tecnologicamente. Esse programa trouxe pesquisadores ao Brasil e melhorou a eficiência energética. O governo deixou de arrecadar R$ 7,5 bilhões, ao longo de cinco anos. Nesse mesmo período, as empresas beneficiadas investiram R$ 25 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. Fora os tributos que a indústria gerou. Mas vai muito além dos números. Se isso não continuar, eu não tenho dúvida de que essa inteligência sai do Brasil e vai para outros lugares. 

Folha – Mas por que as indústrias tirariam mão de obra de um mercado que está crescendo quase 20% ao ano?

Pablo Di Si – O custo trabalhista é muito maior aqui. 

Folha – Isso não pode ser visto como chantagem?

Pablo Di Si – Não. O governo diz quais são as regras do jogo e depois cada um joga como quer. Nós vamos avaliar onde somos mais competitivos. Qualquer empresa faz isso. E sendo honesto, não estou chantageando ninguém. Estou sendo claro. 

Contraposições importantes 

Agora, respirem fundo, leitores. Vocês já leram algo assemelhado feito localmente, ou seja, no Brasil, envolvendo um jornalista aqui locado e um presidente de multinacional do setor automotivo? Claro que não. Garanto que não. Mas ainda vou voltar à entrevista. Antes, algumas ponderações.

Primeiro, a indústria automotiva está no Brasil há seis décadas. E não consegue se manter sem benemerências do governo federal. Há uma estranha combinação sempre em detrimento dos cofres públicos, embora não faltem articulistas regiamente pagos para inverterem a ordem das coisas e afirmarem saldos extraordinários em favor dos cofres públicos. 

Segundo, o Ministério da Fazenda reúne dados financeiros muito diferentes sobre os investimentos das montadoras sediadas no País durante o período do Inovar-Auto, programa banido pela OMC (Organização Mundial do Comércio) por violar acordos internacionais. 

Terceiro, o presidente da Volkswagen do Brasil confessa publicamente que o custo trabalhista (e isso envolve salários, benefícios diretos e indiretos e carga trabalhista propriamente dita) é muito maior no País. Uma declaração que confirma estudos que realizei ainda outro dia, os quais provam desequilíbrio canibalizador, por assim dizer, produzido pelas disparidades de vencimentos dos metalúrgicos das montadoras e das sistemistas (empresas que atuam diretamente no entorno da montagem de veículos) em relação aos demais portadores de carteira de trabalho na região. Situação, aliás, que afugenta investimentos e, há muito tempo, acelera a debandada industrial a regiões menos desiguais.  Sem contar, também, que gera fragmentações de consumo, com quebra da mobilidade social. 

Pau no Inovar-Auto

Vale a pena incorporar a este texto outras perguntas e respostas da entrevista publicada na Folha de S. Paulo com o presidente da Volkswagen do Brasil e da América Latina:

Folha – Em meio a um crescente protecionismo no mundo, é o momento de proteger a indústria automotiva?

Pablo Di Si – De forma nenhuma. O caminho é o livre-comércio. O mundo evoluiu nas últimas décadas graças a isso. Uma guerra comercial, para o americano, aumenta o custo em 20%, 30%. E quem vai pagar? O consumidor. Sou totalmente contra o protecionismo. 

Folha – Mas o Inovar-Auto foi condenado por isso (na Organização Mundial do Comércio). 

Pablo Di Si – Um dos erros do Inovar-Auto foi esse. O objetivo inicial do programa era incentivar pesquisa e desenvolvimento. Acabou virando um monstro de 50 cabeças e diferenciou o carro importado do nacional, com a criação de diferentes IPIs. Isso que foi condenado pela OMC. O Rota 2030 tem que excluir absolutamente isso. Tem que ser pesquisa e desenvolvimento. A forma como estamos colocando é: dar créditos tributários de acordo com a eficiência energética do veículo. Se você atinge xis por cento de eficiência energética, tem desconto do IPI – desde que a pesquisa seja feita no Brasil. 

Folha – E isso não é protecionismo?

Pablo Di Si – A carga tributária de um carro no Brasil é de 55%. É preciso equalizar o tributo com Estados Unidos ou China. Ou reduz o tributo ou dá subsídio, por questão de competitividade. 

Certamente o leitor já deve ter chegado à conclusão sobre o exagero ou não de considerar as respostas do presidente da Volkswagen uma declaração de guerra cujo vencedor está definido: o setor automotivo. O governo dá consentimento ou desce par apanhar do lobby automotivo que inclui sindicalistas supostamente socialistas que adoram a raia em que correm muito mais valiosas que raias de outros parceiros de oratória em defesa de trabalhadores.

Jornais de hoje

Tudo o que o leitor leu até o último parágrafo, antes do intertítulo, foi escrito ontem à tarde. Acordo hoje com meus quatro jornais na garagem. Todos se referem a um novo desdobramento do Rota 2030. Nenhum se compara à reportagem da Folha de S. Paulo. Nem mesmo o Valor Econômico. Menos ainda o Estadão. Mais abaixo ainda o Diário do Grande ABC. Por isso, vamos à Folha? 

O título é emblemático: “Fazenda limita benefícios fiscais voltados ao setor automotivo”. A reportagem diz que o Ministério da Fazenda venceu a quebra de braço com o Mdic (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços) e conseguiu limitar os benefícios tributários previstos no Rota 2030.

Continua a reportagem da Folha ao afirmar que empresas que investirem em pesquisa e desenvolvimento terão direito a créditos tributários, mas poderão utilizá-los só no pagamento de IRPJ (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica) e CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido). 

Não vou esmiuçar o texto produzido por quatro jornalistas da Folha de S. Paulo. O resumo da ópera é que os representantes das montadoras não estão satisfeitos com a decisão do Planalto de apoiar a Fazenda. Eles preferiam a proposta do Ministério da Indústria. A reportagem não diz nada sobre um ponto que parece crucial à insatisfação das montadoras: essas multinacionais são o que os especialistas chamam de caixas-pretas, porque praticamente mantêm a sete chaves os resultados das operações no Brasil. 

Mais que isso: dão a ideia geral de que são altruístas porque acumulariam prejuízos ao longo dos anos. Agora, só terão os benefícios fiscais se apresentarem lucros. Um contragolpe e tanto da parte mais saudável e competente do governo Michel Temer – o Ministério da Fazenda que, entre outras conquistas, corrigiu o desastre econômico deixado por Dilma Rousseff na esteira dos gastos fiscais exacerbados no segundo mandato de Lula da Silva.

As viuvinhas das montadoras e dos metalúrgicos privilegiados não estão satisfeitas. Todos representam o atraso que explica o desastre social do País, paraíso de poucos afortunados sempre de bem com o governo federal, entre outras instâncias do poder.  

Leia mais matérias desta seção: