Economia

Doença Holandesa Automotiva
é um alerta que vem de longe

  DANIEL LIMA - 27/04/2018

Rio sem parar (porque aprendi a não levar a sério os bandidos sociais, que também o são na forma com que pretendem desvirtuar a realidade dos fatos) quando um e outro corporativista se manifestam contrários a textos que produzo sobre os estragos das montadoras de veículos e do sindicalismo na região, sobretudo em São Bernardo. Algumas, então, violam completamente o sentido das coisas. Dizer que sofremos de Doença Holandesa Automotiva não é achincalhar a atividade. Tampouco desprezá-la. Trata-se apenas de um grito de alerta. Um grito de alerta que vem de longe. Como provo abaixo. 

Para o infortúnio dos maledicentes geralmente ignorantes, eis que incorporei desde anteontem à expressão Doença Holandesa Automotiva uma outra, igualmente sintetizadora da situação que vivemos por depender excessivamente de uma atividade central. Sei que tem gente que não gostou, mas outros adoraram. “Síndrome de Estocolmo”, referência direta ao fato de amarmos sermos sequestrados pelas montadoras de veículos e suas principais parceiras, as empresas sistemistas, é um achado que completa uma dupla enfermidade econômico com ressonância social.  

Como vou provar logo abaixo (calma que o texto está chegando), quem me acusa de seletividade de análise por conta de o sindicalismo e o petismo estarem vivendo um inferno astral não sabe da missa um terço. E nem está sendo justo. Diferentemente do Fla-Flu nacional, não distingo de maneira geral o petismo de outros ismos partidários.  A Operação Lava Jato é ecumênica na medida em que se avançam os inquéritos. Praticamente nenhum partido político vai escapar. E poucos políticos federais sairão ilesos, porque a roubalheira era generalizada. 

Sobre o sindicalismo, o que a situação regional mostra é que a atuação prioritária  principalmente dos metalúrgicos da CUT, está cristalizada em São Bernardo de milionárias montadoras, espécies de ministério sem pasta nos governos federais.  

Um texto esclarecedor  

Para encurtar a história, reproduzo abaixo um texto que publiquei na revista LivreMercado de janeiro de 1997 (portanto há mais de 21 anos) sob o título “Montadoras não podem continuar sendo referencial de reivindicações”).  Tanto tempo depois não alteraria quase nada em termos conceituais porque o artigo segue atual, como se houvesse sido redigido hoje. Leiam: 

 As montadoras de veículos trouxeram progressos inegáveis ao Grande ABC e continuam a ser indispensáveis ao equilíbrio sócio-econômico regional. Essa é uma verdade tão asfixiantemente incontestável que raramente sofre o impacto de algum contraponto. Mas que existe contraponto existe. Tanto que não se pode contemplar as montadoras com pretensa santificação regional. A recíproca também é verdadeira: não se pode satanizá-las como matrizes das fundas disparidades sociais que se acentuam no Grande ABC à medida que a globalização corta postos de trabalho. Maiores geradoras diretas e indiretas de empregos e de tributos, as automobilísticas da região consagraram o sindicalismo de Lula e seus parceiros num período de obscuridade política no País e de absoluto despreparo administrativo do empresariado. 

Elite sindical  

 A elite sindical do Grande ABC fez das montadoras palanque obrigatório e, com o suporte dos trabalhadores, pressionou os patrões numa frenética corrida de indexação salarial e de contínua incorporação de benefícios sociais extra-constitucionais. Referência maior das relações entre capital e trabalho na economia nacional, as montadoras de veículos e os metalúrgicos botaram lenha na fogueira inflacionária ao longo dos anos. Os pequenos e médios empresários da região, de autopeças num primeiro estágio e dos demais setores em seguida, pagaram o pato porque tiveram de acompanhar as conquistas trabalhistas. 

Pequenos sofrem  

 Deram-se mal com isso, porque o peso relativo da folha salarial numa pequena e média empresa é três ou quatro vezes maior que o de uma automobilística. Os salários indiretos, em forma de transporte, alimentação, bolsa de estudos, cesta básica, seguro-saúde, entre outros, completavam o sadismo econômico que atingia as pequenas e médias, cuja margem histórica de negociação de preços é dramática, atingidas de um lado por grupos estatais monopolistas de fornecedores de matérias-primas e de outro lado por grupos oligopolistas de clientes. Os novos tempos, de abertura comercial e de estabilização, acabaram por agravar as desvantagens de os pequenos e médios estarem tão próximos da influência síndico-empresarial das montadoras.

Referencial suicida 

 Beneficiadas pelo regime automotivo que lhes garante quase que a reserva de mercado em forma de alíquota de importação de veículos protecionista de 70%, ao mesmo tempo em que lhes escancara as portas do fornecimento de autopeças em prejuízo das empresas locais, as montadoras batem recordes de produção. E continuam servindo de referencial aos sindicalistas, para azar das autopeças desprotegidas e de pequenas e médias de outros setores tratados sem o mesmo desvelo pela política econômica do governo federal. 

Contaminação geral  

 Poucos empresários, mesmo de grandes empresas não listadas no setor automotivo, caso de Hugo Miguel Etchenique, presidente do Conselho de Administração da Brasmotor, que esvaziou a fábrica da Brastemp em São Bernardo, têm coragem de dizer em público que o setor automobilístico do Grande ABC causa problemas aos demais no estabelecimento de políticas salariais. Além dele, apenas Dirk Blaesing, executivo da Fairway Filamentos, do setor têxtil, lamentou recentemente o destrutivo efeito montadoras-metalúrgicos no relacionamento com os recursos humanos, admitindo-o como complicador de novos investimentos na região. 

Tratamento equivocado 

 Essa dupla face das atividades automobilísticas no Grande ABC não pode ser interpretada por seus representantes como análise oportunista e injusta diante das evidentes constatações históricas da importância do setor para o desenvolvimento da região. Trata-se, sim, de uma espécie de chamamento à reflexão dos agentes econômicos e sindicais para se debruçarem de forma madura e consciente no problema. Os sindicatos cutistas, por exemplo, continuam a idealizar pautas de reivindicações a partir de conquistas junto às fábricas de veículos sem levar em conta que, recebendo tratamento alfandegário diferente do das montadoras, a defesa natural dos empreendedores de menor porte, até mesmo para que não fechem de vez as portas, é o enxugamento cada vez mais forte do quadro funcional. 

Minoria barulhenta  

 Enfim, representações mais expressivas do capital e do trabalho ainda não se deram conta de que padrões de relacionamentos que naufragaram em períodos de clausura econômica são absolutamente inviáveis em tempos de globalização. Quem paga a conta é o trabalhador desempregado. Mas o que se pode fazer se, como disse outro dia o governador petista do Distrito Federal, Christovão Buarque, a esquerda (que tem a fama de preocupar-se mais com o social) continua a sensibilizar-se apenas com a minoria barulhenta, esquecendo a maioria silenciosa.  

Primeira vez em 2008 

 Utilizei pela primeira vez a expressão “Doença Holandesa”, em referência à indústria automotiva, num ensaio publicado em 16 de setembro de 2008 nesta revista digital, e em seguida na revista LivreMercado. Em dezembro daquele mesmo ano, juntamente com outros 28 articulistas, o texto ganhou forma de livro, na  primeira versão de “Nosso Século XXI”, sob o titulo “Não mais que uma província metida a besta”. Leiam alguns trechos em que faço referência direta à expressão então criada:

Ponto de interrogação 

 Mesmo nestes tempos de estabilidade econômica, com crescimento médio do PIB nacional de mais de 4% ao ano, mesmo com a indústria automobilística batendo recordes sobre recordes, o futuro do Grande ABC é muito mais que um imenso ponto de interrogação. Continuam os incautos a idolatrar a força da indústria automobilística. Esquecem que somos reféns de uma atividade duramente competitiva, de tentáculos mundiais. Chineses e indianos predatórios em direitos trabalhistas e negligentes em cuidados ambientais chegam cada vez mais fortes e devastadores. O saldo comercial já acusa os golpes. A participação relativa de exportações para países estratégicos da pauta brasileira, também. 

Morfina macroeconômica  

 Somos vítimas de uma variável da doença holandesa e não nos damos conta do perigo disso para a estabilidade social e econômica. Nossa doença holandesa é a indústria automotiva, que infla os cofres públicos de recursos tributários, que garante os melhores empregos, que transmite a sensação de que estamos nos recuperando estruturalmente, mas que, de fato, nestes tempos de produção recordista, não passa de mais uma etapa de dose maciça de morfina macroeconômica para sustentar um corpo em processo de esclerose múltipla. 

Nada de destruir 

 Longe de mim sugerir que se exploda nossa indústria automotiva, como algum idiota da simplicidade seria capaz de entender. Seria como acabar com a exploração do petróleo nos países em que a doença holandesa original praticamente dizimou outros setores produtivos por conta de valorização da moeda local e da impraticabilidade de competir internacionalmente, além dos estragos provocados pelo transbordamento de importações. 

Saga vitoriosa 

 O que não podemos é continuar com essa falsa saga vitoriosa de que principalmente as montadoras de veículos, de visibilidade internacional, nos assegurarão a Estrada de Damasco. Pegamos o desvio do inferno social e não nos damos conta disso. Experimentem morar num sobrado cara a cara com pedintes, em vez de apartamentos fortificados. Abram mão de seguros de veículos ou de carros blindados. Procurem um emprego mais rentável.

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