Regionalidade

Uma agenda que escancara
região sem fibra e futuro (1)

  DANIEL LIMA - 08/06/2018

Praticamente 15 anos depois de publicada como Reportagem de Capa da revista LivreMercado, e também nas páginas digitais da então newsletter CapitalSocial, uma histórica agenda que construímos para desafiar o então Grande ABC do futuro prova que não é por acaso que nos transformamos em Província do Grande ABC. Em três capítulos, a partir de hoje, vamos analisar sucintamente as 30 propostas que compuseram “Uma agenda para iluminar a região”. 

Pretendíamos publicar aquelas propostas integralmente, e os resultados também, numa mesma edição, nesta edição mais precisamente. Mas mudamos de ideia. Seria uma batelada e tanto. Melhor dividir para multiplicar a disseminação de conceitos que, em última instância, significam fina sintonia com os pressupostos de regionalidade, razão central desta publicação. 

Jamais poderíamos imaginar quando construímos esse edifício de proposições que chegaríamos próximos ao ano 2020 colecionando tantas decepções. Por mais que apresentássemos espírito crítico à frente de LivreMercado, o futuro que viria e chegou não se apresentava tão medonho. A abertura da matéria publicada na edição de dezembro de LivreMercado expressava nossa preocupação. Vejam: 

 Completamente despreparado para o circo de horrores da globalização sem redes de proteção, o que será do Grande ABC do futuro, da pós-globalização iniciada no governo Collor de Mello e recrudescida durante o governo Fernando Henrique Cardoso? Como deveriam se comportar os governos municipais, empreendedores privados, agentes sindicais e sociais nos próximos anos que abrangem o governo Lula da Silva e seus sucessores? Quais são os referenciais elementares para que o Grande ABC consiga safar-se do esquartejamento a que foi submetido na última década, caindo pelas tabelas da riqueza industrial, base do equilíbrio social?

Mal imaginámos, repito, que o horizonte que se descortinava seria alarmante para a região. Pioramos praticamente em todos os quesitos. A agenda factível em todos os sentidos seria contempladíssima se houvesse um condimento essencial à própria regionalidade: lideranças comprometidas com a sociedade e uma sociedade combativa. Não tivemos e não temos nenhuma coisa nem outra. 

Vamos, então, para os primeiros 10 quesitos de uma agenda de 30. Antes, puxe o lenço de papel ou de tecido: 

 Evitar tratamento festivo a eventos e propostas que não ultrapassam o terreno de conjecturas. 

Exemplo: os infinitos acordos formulados pela Câmara Regional não passam, na maioria dos casos, de cartas de intenção. Entretanto, o que exala do noticiário é o mau cheiro de um propagandismo manipulador que agride o bom senso e a perversa situação socioeconômica do Grande ABC. Prova contundente de que o Grande ABC de papel não corresponde ao Grande ABC de fato está na própria cronologia contrastante dos últimos 10 anos, quando pontificaram bajulações à institucionalidade regional interrompida e trôpega, enquanto a riqueza industrial evaporava.

Resultado: a Câmara Regional já se foi faz tempo e o proselitismo político continua a frequentar o ambiente institucional da região, uma terra de fantasias. Se todas as promessas fossem transformadas em realidade seriamos o paraíso. Mas como a vida é pau puro, as marcas das omissões coletivas estão bem visíveis. Mas mesmo assim há sempre ilusionistas de plantão para engabelar trouxas travestidos de otimistas.

 Exigir a disseminação de conceitos e práticas de empreendedorismo entre os estabelecimentos de ensino público e privado para possibilitar salto em direção à solidez dos negócios, principalmente de pequeno porte. 

Exemplo: ainda é muito larga a distância que separa a academia e o empreendedorismo de pequeno porte no Grande ABC. Cases de sucesso genuinamente regional, em meio ao turbilhão macroeconômico, são valiosíssimos materiais de estudos. Uma pena que universidades, faculdades e escolas de Segundo Grau ainda não tenham percebido a importância de valorizar o empreendedorismo local como plataforma de estudos, principalmente para despertar nos alunos a consciência prática de que, à falta de empregos, só restará a alternativa do negócio próprio. Uma boa maneira de romper a tradição do Grande ABC da manufatura para o Grande ABC de cérebros.

Resultado: o distanciamento não se alterou. E se agravaram os problemas. Os negócios familiares na região são uma imensa massa de anônimos cujos métodos permanecem desconhecidos. Não há sinergia efetiva que possa contribuir para a incursão por atalhos seguros. 

 Incentivar mecanismos de preparação e de proteção aos empreendedores de pequeno porte dos setores comercial e de serviços para o enfrentamento dos grandes conglomerados nacionais e internacionais. 

Exemplo: a cronologia de investimentos dos grandes conglomerados comerciais e de serviços que aportaram na região em paralelo ao esvaziamento industrial não difere da desídia que se deu no Brasil e na América Latina. Somos vítimas de uma acachapante falta de planejamento espacial e setorial. Amenizar o drama do desemprego renitente que sobreveio com a fragilização do setor industrial descentralizado e evadido é um desafio que precisa ser enfrentado.

Resultado: Os gestores públicos seguem a comemorar investimentos de grandes corporações e ignoram dramas dos pequenos e médios. Mais que isso: oferecem mundos e fundos de vantagens fiscais e de infraestrutura a novos desembarques de grandes conglomerados do setor de varejo e desprezam as agruras dos pequenos negócios do setor. O gataborralheirismo explícito se manifesta principalmente nas redes sociais, palco de divulgação de notícias que só confirmam a discriminação aos empreendedores locais. 

 Estimular ações que coloquem academia, governos municipais e sociedade num mesmo e amplo compartimento de amarração dos dispositivos de regionalidade. 

Exemplo: não tem passado de pura falácia a integração regional em nível exclusivamente político-institucional. Quando, então, se avança para estágio superior, com a sensibilização de entidades de classe empresarial, sociais e não-governamentais, o vexame é ainda maior. Câmara Regional, Consórcio de Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e o desfalecido Fórum da Cidadania dançam muito mal e sob ritmos variados e muitas vezes antagônicos. As instituições de ensino são um mundo à parte. Apenas ensaiam participar, com idas e vindas que mais comprometem do que enaltecem o setor. 

Resultado: tudo segue do mesmo jeito. Daí para pior. O Clube dos Prefeitos, que seria o espaço adequado a iniciativas colaborativas em nível regional, segue como reduto exclusivo dos chefes de Executivo que, descuidados como sempre, relegam o regionalismo a quinto plano. 

 Exigir representantes do mercado e da comunidade como agentes de decisão nas instâncias públicas de cunho municipal e regional. 

Exemplo: A Agência de Desenvolvimento Econômico e o Consórcio de Prefeitos são fortalezas praticamente inexpugnáveis à participação da comunidade. A Câmara Regional, ficção que alguns tentam vender como realidade, nem merece ser mencionada. Falta sociedade nos dispositivos institucionais que se criaram na região. Prevalece uma institucionalidade manquitola, em que o peso dos governos municipais é quase que monopolizador e, como tal, sujeito a vieses que não necessariamente interessam ao conjunto da comunidade. 

Resultado: nada se alterou, entre outras razões porque a própria sociedade viveu nessa última década e meia período de retração reivindicatória que não só assusta como desestimula eventuais interessados em reagir à incúria dos poderosos de plantão. Há na região sentimento coletivo de apatia generalizada. Os mandachuvas e mandachuvinhas comandam as ações sem praticamente oposição organizada como representação da sociedade. A reação de contribuintes de Santo André à sanha fiscal do prefeito Paulinho Serra, que pretendeu transformar o IPTU em casa da moeda, é exceção à regra de desencanto e que tem como explicação central o vetor monetário, não propriamente de cidadania no sentido mais amplo do conceito.

 Defender a ocupação dos mananciais por meio de combinação de desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. 

Exemplo: Não existe incompatibilidade entre economia e meio ambiente a ponto de tornar os debates sobre o uso das áreas de mananciais espécie de Fla-Flu insuperável. Enquanto prevalece esse viés arraigadamente conservador e mistificador, porque os mananciais têm sido vitimados há décadas não por ocupação econômico-produtiva, mas por invasões demográficas especulativas, as condições de sustentabilidade se agravam. 

Resultado: planos mirabolantes não faltaram. Assim como ações efetivas. A última anedota lançada com estardalhaço próprio de quem quer virar manchete de jornal a qualquer custo foi anunciada nesta semana. O prefeito dos prefeitos Orlando Morando, titular do Clube dos Prefeitos, anunciou a pretensão de contratar os serviços de um helicóptero para vigiar as ocupações irregulares na Represa Billings. Há quem tenha levado a sério uma proposta que, no fundo, mesmo executada, não passaria de um grão de areia para resolver um problema que se arrasta impunemente há décadas. Sobretudo porque o Poder Público é negligente. 

 Exigir das entidades empresariais ações que ultrapassem interesses exclusivamente corporativos, principalmente no sentido de dar maior competitividade à região. 

Exemplo: é histórico o fracasso das entidades empresariais do Grande ABC no campo institucional. Exceto em algumas ocasiões, quando interesses corporativos se mesclaram com possível despertar comunitário, entidades ligadas ao empresariado jamais se mobilizaram de fato para alterar o rumo dos acontecimentos, num procedimento que, aliás, é lugar-comum no País. Compartimentadas por municípios, as entidades empresariais ignoram conceitos de regionalidade estratégica. 

Resultado: um quadro absolutamente intocável, mas que recomenda emenda explicativa no sentido de atenuar a responsabilidade dos dirigentes: a mídia regional, de maneira geral, não dá a menor bola aos interesses dos empresários, sobretudo de pequeno e médio porte. O noticiário está centralizado no sindicalismo, sobretudo dos metalúrgicos de São Bernardo, e nas montadoras de veículos. As pequenas indústrias estão atiradas no lixo. No campo comercial, das associações de classe, a situação é diferente: faltam mesmo iniciativas e propostas.  

 Exigir das entidades sindicais reflexão permanente sobre as repercussões sociais de reivindicações e conquistas trabalhistas. 

Exemplo: omissos ao longo da história nas questões que fogem ao interesse de sua própria geografia institucional, os sindicatos de trabalhadores precisam exercer novo modelo de capital social. As reivindicações trabalhistas são tão legítimas na concertação dos benefícios à classe como a extroversão rumo ao equilíbrio socioeconômico da região. Ou seja: o Grande ABC continuará ferido de morte no campo trabalhista se não associar aos ganhos reivindicatórios dos sindicatos mais atuantes a contraface de movimentos conjugados que visem a dar maior equilíbrio ao jogo do mercado. 

Resultado: os sindicalistas fecham os ouvidos à sociedade. Só ouvem as próprias vozes. O sindicalismo cidadão anunciado pelo então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Luiz Marinho, mais tarde duplamente ministro do governo Lula da Silva e também prefeito de São Bernardo, não passou de jogo de cena, de bandeira desfralda para enganar os ingênuos. Os sindicalistas seguem rezando pela cartilha do embate contra o capitalismo, embora usufruam de todas as benesses do sistema, sobretudo nas montadoras de veículos e no entorno, de autopeças. 

 Exigir mecanismos institucionais para retirar a economia do Grande ABC da dependência estrutural dos setores automotivo e petroquímico. 

Exemplo: esse é o grande nó górdio do desenvolvimento econômico sustentável do Grande ABC. A dependência de duas atividades globalmente competitivas, casos das petroquímicas e das automotivas, transformou a região em campo minado. Basta recorrer aos números da última década, quando 100 mil empregos industriais com carteira assinada desapareceram das fábricas da região, para decifrar o tamanho da encrenca. A grandiloquência com que se costumam referir os triunfalistas ao parque automotivo da região esconde nosso calcanhar-de-aquiles: nos tornamos vulneráveis demais no jogo bruto da concorrência internacional automotiva. Pior ainda: quanto mais nos aproximamos dos níveis de competitividade, menos emprego e geração de renda exibiremos. 

Resultado: vivemos no setor automotivo o que chamo de Doença Holandesa associada à Síndrome de Estocolmo. Estamos encurralados. No setor petroquímico, Mauá e Santo André acomodaram-se com a mesadona do ICMS da atividade e se esqueceram de criar novos recursos. 

 Exigir de entidades sociais mobilizações além dos interesses corporativos de seus associados. 

Exemplo: o fracasso do Fórum da Cidadania é sintomático da falta de enraizamento e entrelaçamento das entidades sociais do Grande ABC. Há evidente dispersão de forças e mesmo antagonismos, além da atávica viseira de enxergar apenas o próprio umbigo corporativo e os limites territoriais. A consensualidade decisória propagada pelo Fórum da Cidadania se mostrou ineficaz depois do chamamento das entidades. O que sobrou tem mais a ver com omissão do que o indispensável contraditório. 

Resultado: com o desaparecimento do Fórum da Cidadania e novas levas de perdas de riqueza, a região virou uma massa amorfa de entidades sociais, que pensam que representam alguma coisa quando pouco significam diante do isolacionismo generalizado. 

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