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Como ludibriar o público com
informações manipuladas (1)

  DANIEL LIMA - 20/06/2018

O prefeito Paulinho Serra faz parte da imensa legião de administradores públicos aderentes ao canto da sereia de marqueteiros prontos para qualquer tarefa, principalmente se a tarefa for criar peças de propaganda que gerem manchetes de jornais ou massificação em espaços públicos. 

Ao espalhar por Santo André outdoors com enunciado claramente estarrecedor (“10.000 pedidos de abertura de empresas em 5 meses”), o tucano eleito com mais de 75% dos votos válidos em 2016 sinalizou disposição de acreditar na ideia de que uma mentira supostamente bem vendida por autoridade pública se transforme em verdade. 

Trata-se de bobagem que pode dar munição de grosso calibre a adversários políticos, principalmente em período eleitoral. As redes sociais estão aí para isso, para complementar inclusive com idiossincrasias conhecidas o que a mídia em geral esconde ou não dá importância porque poderia estremecer relações diplomáticas com o Poder Público.

Dez mil pedidos de abertura de empresas em cinco meses equivalem a dois mil pedidos a cada 30 dias. É impossível tanto por razões estruturais de atendimento da Prefeitura como, sobretudo, por razões econômicas de Santo André e da região.

Falta um ouvidor de verdade 

Houvesse na Prefeitura de Santo André um ouvidor de verdade, desses que não se preocupa com varejismos e fica atento a tudo que parte do Executivo, tudo seria diferente. Afinal, é função de um ouvidor de verdade verificar até que ponto o chefe do Executivo e auxiliares diretos, os secretários, não estão a brincar de informação com a sociedade. 

O que Paulinho Serra fez no caso dos outdoors lembra muito o desplante com que tentou impingir aos contribuintes uma conta salgadíssima de aumento do IPTU, barrado por mobilização inédita dos contribuintes em redes sociais no começo deste ano. 

É incalculável o dano causado por propaganda enganosa destinada a dourar a pílula e transferir ao prefeito méritos inexistentes. Fico a imaginar o quanto de frustração esse tipo de estratégia triunfalista gera. 

Passeiem e anotem 

O raciocínio é simples: o empobrecimento de Santo André (e da região como um todo) é tão flagrante que basta um passeio no circo de horrores em que se transformaram estabelecimentos comerciais e de serviços em ruas e avenidas mais concorridas. 

Como se sente o empreendedor que fracassou ao dar de cara com aqueles outdoors? O sentimento de culpa é automático. A individualização da incapacidade de administrar um negócio, desconsiderando-se o ambiente coletivo, é um desdobramento imediato. Os marqueteiros destiladores de inverdades perderam a sensibilidade social. Desconsideram atmosfera municipal e regional, além do desalento no País. 

Experimente caminhar pela Avenida Portugal, endereço nobre do setor comercial de Santo André. Façam essa experiência. Leve um caderninho e uma caneta. Anotem com cuidado todos os endereços que fecharam as portas. Estabelecimentos à espera de locadores, principalmente. O prefeito de Santo André não poderia jamais autorizar uma campanha de publicidade que ofende a inteligência.  

Derrocada industrial 

A derrocada de Santo André vem de longe. A precarização do mercado de trabalho reproduzida em gráfico é assustadora. A marca de apenas 14 trabalhadores industriais para cada grupo de 100 carteiras assinadas em todos os setores econômicos diz tudo. Maior geradora de riqueza na região, a indústria de transformação virou pó em Santo André. A corrida ao suposto ouro de comércio e serviços já foi encerrada há muitos anos. Deixou sequelas imensas. Os outdoors de Paulinho Serra ferem fundo o contexto atual e a realidade histórica. Dez mil pessoas interessadas em abrir empresas em Santo André é conto do vigário. Para os leitores menos atentos, são 10 mil novos empreendimentos a ocupar Santo André. 

O que sugere dinamismo econômico não passa de desespero. Para começar (e desafio o prefeito a mostrar as cartas anunciadas), sempre considerando que se trata de bravata publicitária, Santo André engrossou a lista de novas empresas nos últimos anos como tantas outras cidades brasileiras. Trata-se do fenômeno do MEI (Microempreendedor Individual).

As estatísticas oficiais mostram que essa é uma modalidade predominante de trabalhador desempregado, semiempregado ou em desespero de causa que pretende sair da condição de pária da sociedade. Virar microempresário individual é uma maneira de ganhar identidade funcional e social distante do constrangimento de desempregado contumaz. 

Cruzando informações 

Talvez a melhor maneira de medir o tamanho do desespero de quem recorre à condição de microempreendedor individual seja correlacioná-lo ao contingente de trabalhadores com carteira assinada no setor industrial. Fiz essa experiência em 2016 e os resultados foram esclarecedores. Com novos números oficiais do governo federal, relativos a março último, e do Ministério do Trabalho, também de março, passo aos confrontos envolvendo o G-22, o grupo dos 20 maiores municípios paulistas (exceto a capital) somados a Ribeirão Pires e a Rio Grande da Serra, que completam a representação da região. 

Para municípios com tradição industrial, nenhum está em situação mais calamitosa que Santo André. Para cada grupo de 100 trabalhadores industriais com carteira assinada existiam em março último 61,61% de microempreendedores individuais. É uma taxa elevadíssima para um Município em que o comércio e os serviços são modestos no uso de tecnologia. É gente demais na condição de microempreendedor por necessidade ou autoestima. 

Em São Bernardo, que também sofreu duros reveses no setor industrial, com perdas gigantescas de empregos formais, a relação é bastante inferior: há 25,85% microempreendedores para cada 100 trabalhadores industriais. Ou seja: a participação relativa do microempreendedor em Santo André é 58% maior que em São Bernardo. 

Nos demais municípios da região a situação é, em vários casos, ainda pior para Santo André: no confronto com São Caetano, para cada 100 trabalhadores industriais há 17,94% microempreendedores. Em Diadema são 24,85%, em Mauá 36,33%, em Ribeirão Pires 41,62% e em Rio Grande da Serra 57,75%. 

Realidades menos contundentes 

Outras cidades industrializadas que integram o G-22 também oferecem números mais modestos de microempreendedores individuais. Em Taubaté são 13,40 para cada 100 trabalhadores industriais com carteira assinada. Em Sumaré são 42,78%. Em Sorocaba são 37,32%. Em Jundiaí são 20,90%. Somente municípios que enraizaram atividades de comércio e de serviços em maior proporção que do setor industrial ostentam percentuais mais elevados que Santo André. Em Santos, para cada grupo de 100 profissionais industriais somam-se 190,68 microempreendedores individuais. Em Osasco são 121,88. Em Campinas são 67,66. Santo André, portanto, só perde para três municípios no universo do G-22.  Perde é força de expressão, porque são realidades históricas diferentes. 

A situação econômica de Santo André não permite tergiversações. Não é difícil o prefeito Paulinho Serra não se dar por vencido diante do flagrante delito dos outdoors. É provável até que ocupe espaço na mídia e reforce a suposta veracidade dos dados anunciados para defender retomada econômica de Santo André. Tudo balela. 

Como deixou de ser um “viveiro industrial” expresso no hino oficial já fora de moda, Santo André é um endereço municipal onde não viceja empreendedorismo individual no sentido que a literatura econômica sugere. 

A desindustrialização de Santo André, assemelhada em número ao que ocorreu na vizinha São Caetano, é um mal aparentemente sem terapia restauradora. Mais que isso: como não houve recomposição mesmo que parcial das perdas industriais em forma de um comércio dinâmico e um setor de serviços de alta tecnologia, agravou-se o comprometimento de renda da população. Santo André tem proporcionalmente mais microempreendedores individuais porque não tem emprego de qualidade, principalmente. Não é por outra razão que metade da População Economicamente Ativa de Santo André trabalha em outro Município. Um recorde regional. 

Campeão em perdas 

Entre os municípios do G-22 (já provamos isso com números de estudos minuciosos), Santo André é o endereço que mais perdas sofreu ao longo deste século no ranking do PIB (Produto Interno Bruto). O desfiladeiro parece não ter fim. Não custa repetir que apenas 14% das carteiras assinadas se referem ao setor industrial. Menos da metade de São Bernardo, bem abaixo também de São Caetano e muito abaixo dos demais municípios. 

Estava registrado como microempreendedores individuais no G-22 em março último o total de 287.034 profissionais. Desses, 62.265 constavam dos sete municípios da região. Ou 21,69%. Um resultado muito próximo da participação da região no PIB do G-22. Santo André com 16.866 microempreendedores individuais, participava com 27,09% do total regional. Acima dos 23% no PIB regional. São Bernardo, com 38% de participação no PIB da região, contabiliza 31% de microempreendedores individuais. 

Ou seja, enquanto Santo André registra participação de quatro pontos percentuais de microempreendedores individuais acima da fatia que lhe cabe no PIB regional, São Bernardo desenha resultado oposto, de sete pontos percentuais de diferença a favor do PIB. Com os demais municípios da região não é diferente de São Bernardo, com variações de pontos percentuais. 

Moral da história? Quanto maior a participação de microempreendedores individuais no confronto com o PIB, mais a precarização do trabalho se manifesta. Os marqueteiros do prefeito Paulinho Serra precisam parar com a brincadeira de zombar da comunidade. 

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