Sociedade

Ambiente político regional
à flor da pele. E vai piorar

  DANIEL LIMA - 21/06/2018

O ambiente na região está à flor da pele. Devagar, devagar, a certeza de impunidade por atos praticados sobretudo no âmbito de administradores municipais e o entorno tradicionalmente mais oportunista já não prevalece. Longe disso. Os exemplos que saltam aos olhos deixam porta aberta à contundência de reações de forças policiais, ministeriais e judiciais. A ficha ainda não caiu inteiramente sobre os efeitos da Operação Lava Jato. 

Quem acreditou com doses de razão que a região ficaria imune aos efeitos da Lava Jato caiu do cavalo. Falta cair do andaime. Nem os subúrbios como a região escapam às investidas. A ideia muito disseminada de que por estar na penumbra da brilhante Capital mais importante do País a Província do Grande ABC não demandaria investigações nesse período de caça a irregularidades virou pó ante a centralidade domiciliar e mesmo política de figurões dos governos petistas e também dos próximos ao governo do Estado. Paga-se o preço mais que justo de compartilhamentos de engrenagens preparadas para aperfeiçoar um jogo jogado no passado sem risco algum. 

Vou ser mais claro e objetivo: alguém na praça acreditar que a denunciada e provada (no âmbito judicial) algazarra administrativa da Administração Celso Daniel na área de transporte coletivo foi inovação é invenção do PT para sustentar, entre outras missões partidárias, a campanha eleitoral de Lula da Silva rumo à Presidência da República?

Muitas histórias para contar

Os prefeitos antecessores (e quem me conta detalhes de operações análogas são fontes que viveram pessoalmente as incursões extracampo) sempre tiveram o transporte público reservado a empresas privadas uma generosa conta corrente para financiamentos eleitorais e outros babados. 

É tão falsa a argumentação que contabiliza o rompimento de suposta virgindade ética no transporte público ao petista Celso Daniel como acreditar que o então prefeito de Santo André foi abatido porque se revoltou contra supostos desvios. Fosse assim (e nada melhor e mais pedagógico que os dias que se seguiram, com os escândalos do Mensalão e do Petrolão, além de tantos outros que começam a finalmente a aparecer) o serviço funerário nacional teria registrado os maiores faturamentos líquidos nos últimos cinco anos, pelo menos. 

Quem vive bastidores e corredores dos paços municipais da região (não frequento nem uma coisa nem outra, mas tenho fontes múltiplas que farejam tudo o que acontece nesses territórios) está atordoado com as imensas possibilidades de muito mais casos, além dos conhecidos, saltarem às manchetes. 

Finalmente a classe política da região parece ter-se dado conta de que os federais e mesmo os estaduais estão chegando. Para alguns, como se sabe, já chegaram e seguem a chegar. Tem-se notícias não publicadas porque são segredos operacionais que não deixam dúvida sobre novos sobressaltos.  

Projeção arriscada demais 

Outro dia comecei a escrever um artigo sobre as probabilidades atuais de três candidatos a uma determinada prefeitura da região nas eleições de 2020. Decidi suspender as ponderações. Talvez reinicie o texto um dia desses, mas estou convicto de que correrei sérios riscos de parecer um pai chamado ao quarto do filho pequeno para contar uma história infantil. 

Como é possível estabelecer linha de raciocínio mesmo que especulativo sobre uma disputa eleitoral relativamente distante se no meio do caminho apareceriam os federais, principalmente os federais, em forma de lobo mau aos contraventores? 

A mídia regional muito diplomática com determinadas administrações municipais já deve ter percebido a tomada do doce na boca. Quero dizer com isso que se tornou praticamente impossível esconder fatos e declarações num contexto de comunicação em que as redes sociais alimentam o fogaréu de publicações mais poderosas e fora do ambiente regional amestrador de insatisfações.

Desmoronamento consequente

Diria mais: dado o comprovado e incontrolável Complexo de Gata Borralheira que caracteriza essa periferia metropolitana chamada no passado de Grande ABC, mas que há muito não passa de Província, é compulsório o desmoronamento da formação de opinião exclusivamente local sobre determinadas questões que ganham espaço no noticiário televisivo e impresso, quando não digital. 

Políticas editoriais protecionistas começam a ruir. Vou traduzir: uma notícia de uma emissora de rádio, de televisão, de um portal de Internet e de um jornal da Capital sobre determinadas denúncias envolvendo administradores locais ganha potencial extraordinário de complicações. 

Querem um exemplo? O fechamento de unidades de saúde de Santo André pelo prefeito Paulinho Serra não resistiu ao arrombamento provocado pelas reportagens da TV Globo no programa do meio dia, que pega muitas donas de casa na cozinha e na sala. Houve constrangimento geral. Outros casos corroboram a constatação de que não é mais possível sustentar notícias indesejáveis longe da massa de consumidores de informação. 

Têm muita sorte os administradores municipais (os anteriores, então, foram mais sortudos, porque não havia a densidade de participantes em redes sociais como agora e tampouco uma Rede Globo mais metropolitana) porque a região carece de uma instituição independente que poderia centralizar espécie de corregedoria social para alimentar o noticiário da mídia sediada tanto na região quanto na Capital. 

Uma rede de cidadãos de verdade, que espanquem para valer o partidarismo político, poderia realizar o papel que os ouvidores municipais jamais oferecerão porque são servidores dos mandachuvas e mandachuvinhas de plantão. 

Fico a imaginar o quanto de extraordinário esse comitê fiscalizador poderia representar de intervenção direta na pauta dos veículos de comunicação. Com essa ferramenta, a sociedade regional deixaria de ter um papel secundário de receptores de notícias que furam o cerco de interesses escusos e passaria a ser beneficiária de ações de agentes de transformação.  

Falta total de institucionalidade

Essa proposta não passa de imaginação de uma mente inquieta (uma mente de quem já sentiu na pele o que significa o banditismo ser consagrado por quem deveria cumprir a missão de zelar pela Justiça) e, portanto, é pouco provável que deixará esse casulo. A sociedade regional é desorganizada, individualista e omissa, quando não oprimida por grupos de pressão diretamente relacionados aos paços municipais. 

Para completar o circo de horrores, as instituições que supostamente representariam a sociedade em múltiplas vertentes, não passam, em larga maioria, de correias de transmissão dos podres poderes públicos municipais. Temos, portanto, um jogo tão sórdido quanto covarde. Quando não de interesses obscuros à espera de profilaxia policial, ministerial e judicial. 

Portanto, o melhor mesmo é aguardar a chegada cada vez mais insistente de agentes federais e estaduais que, para desavergonhados bandidos do jornalismo, não passariam de Partido da Polícia. 

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