Sociedade

Responda já: você acredita no
futuro econômico da região?

  DANIEL LIMA - 28/06/2018

Vamos fazer o seguinte? Sem rodeios e sem malandragem? Seja sincero. Mas sincero de verdade. Não é preciso que se exponha a terceiros, porque isso, hoje em dia, nessa região de mandachuvas e mandachuvinhas que a Lava Jato há de levar, a exposição de opinião franca e contrária ao ambiente de meliantes é sempre um perigo. Gera perseguições inclusive familiares. Também não é preciso responder para mim. Responda para você mesmo, num exame de consciência. A pergunta é simples: o que você acha sobre o futuro econômico da região? 

Para facilitar a resposta, se não houver resposta na ponta da língua, ou no fundo do bolso, ou na cabeça fervilhando, vou propor três cenários. 

O primeiro é otimista por natureza, o segundo de certo comedimento, e o terceiro bastante cético, ou pessimista segundo os babacas de autoajuda em geral que gostam de vender doces de esperança frouxa onde o que deveria vicejar mesmo seria um movimento sólido de reforma de muita porcaria que vivemos tanto aqui quanto no País. Vamos então às alternativas?

A – Estamos em franca corrida desenvolvimentista. Há um ambiente jamais visto para investimentos produtivos nas mais diversas áreas e que nos recolocarão na trilha do progresso que perdemos apenas por alguns anos de reestruturação macroeconômica.  

B – Ainda temos muito o que construir para reencontrar o caminho do desenvolvimento econômico. Perdemos o rumo com a globalização, sofremos muito com isso, mas não há como duvidar de que já surgiram clareiras a abrir nossos horizontes.

 Quem acha que o Grande ABC está no caminho do desenvolvimento certamente não conhece nossa realidade. Estamos de mal a pior. Nossa matriz automotiva está se descentralizando e enxugando pessoal e ainda não conseguimos encontrar alternativa que nos ofereça o mínimo de segurança para o futuro. Comércio e serviços não nos garantem a riqueza que a indústria sempre criou.  

Tempo para decidir  

Agora pergunto: já se decidiu sobre uma das três alternativas? Você está entre os otimistas da alternativa “a”, entre os moderados da alternativa “b” ou se coloca entre os céticos da alternativa “c”. 

Quer mais um tempinho para se decidir? Está legal. Antes disso vou dar uma enroladinha para dizer que outro dia recebi uma mensagem no aplicativo que me coloca em contato com grupos diversos e ouvi um professor metido a profissional de autoajuda dizer que os pessimistas são todos vagabundos.

O que quero dizer com isso é que existiria uma possível relação entre ceticismo e vagabundagem na opinião do professor em questão, enfadonho em público ao empostar a voz a ponto de tornar a relação com os interlocutores ou espectadores algo fora do contexto de espontaneidade que tanto aprecio. 

A mensagem do professor é um desrespeito grosseiro porque despreza sobretudo uma alternativa à vagabundagem que tanto generaliza, ou seja, o fato de que o conhecimento agregado leva compulsoriamente as pessoas a se tornarem mais seletivas na avaliação da própria vida. O ignorante retratado pelo professor existe de fato e é pessimista em defesa própria, dos próprios descaminhos. Já alguém dotado de certo grau de intelectualidade que não comunga com o “pra-frente-brasil” do professor não pode ser ridicularizado, porque está longe de ser vagabundo. 

O professor aludido é Sergio Cortella, mais interessante em formato de livros, que os tenho e aprecio com ressalvas, do que como showman de conceitos que visam claramente atingir uma audiência burra e iletrada, portanto de fácil manipulação. Chamar de vagabundo quem observa o mundo sob ótica de desconfiança, de ceticismo, é uma generalização liberalmente vagabunda. 

Resultados de 20 anos 

Bom, acho que dei tempo suficiente para o leitor se posicionar sobre uma das alternativas que diz respeito ao futuro econômico da região. Fiz essas mesmas perguntas aos integrantes do Conselho Editorial da revista LivreMercado em março de 2001, portanto há 17 anos. 

A reportagem foi publicada na edição de abril daquele ano. Os resultados foram desagradáveis aos triunfalistas de plantão. Imagino o que aconteceria hoje se ouvisse o que chamava de formadores de opinião. Ou alguém tem dúvidas de que o Grande ABC que virou Província é um território à deriva?

Dezessete anos atrás apenas um dos 30 conselheiros que responderam à enquete (Pedro Rosálio Pereira) optou pelo cenário “a”, de confiança total no futuro econômico da região. 

Um total de 63,3% dos conselheiros preferiu a alternativa “b”, de moderada confiança. Sabem quem foram os responsáveis por esses números? Veja: Valquíria Stafocher, Silvana Pompermayer, Paulo Hoffmann, Milton Bigucci, Maria do Rosário de Lima, Marco Antonio Laso, Leonel Tinoco Netto, José Cardoso da Silva, Ivone Bruno, Humberto Batella, Gisele Belmonte, Dorival Pereira, Cláudio Rubens Pereira, Cláudio Quandt Alves, Ary Silveira, Antonio Carlos Cedenho, Angela Athayde, Alessandro Paes e Fábio Vital. 

A alternativa “c”, dos céticos que estão longe de ser rotulados de pessimistas, porque de valor intelectual agregado, contou com a adesão de 10 conselheiros, ou seja, 33,3% do total. Foram eles: Wilson Afonso Rosa, Roberto Herrera, Luiz Antônio Sampaio, Edson Lopes dos Santos, Dalton Messa, Carlos Cavalheiro, Claudio Musumeci, Antônio Roberto Adabo, Ana Maria Bicalho e João Paschoal. 

Majoritariamente cautelosa 

Retrarei aquele resultado, na edição de abril de 2001 de LivreMercado, como “uma posição majoritariamente cautelosa e bem próxima do ceticismo”. Duvido que, duas décadas e um desfiladeiro de indicadores econômicas e sociais depois, algo assemelhado em termos de consulta não redundasse em resultados dantescos. 

Existe uma sintonia finíssima entre a linha editorial de CapitalSocial e os leitores, assim como existia entre LivreMercado e consumidores de informações. 

O que se agravou a ponto de registrar-se diferença funda é que antes, nos anos 1990, não havia temor de represálias a quem se manifestasse fora do eixo dos poderosos de plantão. 

Hoje, a atitude de coragem pública custaria muito caro. Tudo em prejuízo da sociedade. Os mandachuvas e mandachuvinhas, que vivem no mundo da lua, acreditam que contam com o apoio do público. São uns bobalhões ludibriados por marqueteiros de plantão. 

Tudo isso que dizer o seguinte: quase nada que reluz em favor dos mandachuvas e mandachuvinhas é ouro de credibilidade e de reputação. Muito longe disso: a maioria dos agentes políticos e públicos da região no campo da administração municipal é vista com desconfiança generalizada mais que justa. 

Eles estão inseridos no contexto nacional que pesquisas sérias identificam. Vivemos os piores momentos da redemocratização. A operação Lava Jato, condenada pelos bandidos sociais de várias esferas, é um laxante de cidadania que precisa não só continuar a ser administrado como, também, gerar frutos contínuos nas esferas criminais.

A sociedade regional precisa perder o medo de manifestar-se contra aqueles que a rodeiam. Ocupar redes sociais para desancar autoridades distantes é muito fácil, porque não causa comprometimento algum. Quero ver é o avançar do senso crítico contra agentes locais, algo que, infelizmente, tem-se constituído exceção à regra.

Por falar nisso, você escolheu mesmo uma das alternativas? Está em paz com a consciência? Não preciso dizer que tanto há 20 anos quanto agora perfilava entre os apreciadores da alternativa “c”. 

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