Imprensa

Nove meses de cinco anos que
transformariam o Diário (2)

  DANIEL LIMA - 04/07/2018

Transparência total. Compromisso com a sociedade regional. Independência. Desprendimento. Coloquem mais adjetivos. O que vão conseguir no fim das contas é chegar a uma conclusão à qual pouquíssimos profissionais que comandaram a redação de um importante jornal regional do País alcançariam. É isso que afirmo e reafirmo ao lançar mão das newsletters que produzi no Diário do Grande ABC entre julho de 2004 e abril de 2005.  

Na medida do possível vou contextualizar os textos produzidos há quase uma década e meia. Não será o caso desta primeira edição, de uma série que chega a 61. Apenas lembro que cheguei ao Diário do Grande ABC para ocupar o cargo de Diretor de Redação com um Plano Estratégico Editorial debaixo do braço e muitas ideias na cabeça.  

Todos os colaboradores da empresa, e também acionistas e diretores, receberam uma cópia daquele plano de voo que preparei num final de semana numa rápida viagem ao Interior do Estado. Um Plano Estratégico Editorial que se tornou base sólida das edições da newsletter Capital Digital Online, instrumento que retratava o dia a dia na redação.  

As próximas edições não têm data definida. Ficarão ao sabor do meu humor. Aqueles nove meses no comando do Diário do Grande ABC foram um breve período de mudanças essenciais numa publicação que hoje luta contra duas vicissitudes doloridamente transversais: está numa região economicamente decadente e sem lustro intelectual denso, e desenvolve uma atividade que, mesmo nas praças mais ricas e culturalmente ambiciosas, come o pão que o diabo amassou com a chegada de novas tecnologias e suas metamorfoses no modelo econômico de sustentação dos negócios. Lembramos que a primeira edição da newsletter – que reproduzimos em seguida -- foi distribuída em 26 de julho de 2004.  

Newsletter número 1

Estamos iniciando nesta segunda-feira uma nova etapa de interlocução com os colaboradores, acionistas e diretores do Diário do Grande ABC. A periodicidade deste veículo virtual -- que espero ver transformado em real com a impressão e arquivo deste material -- será errática. Explicamos: dependerá da disponibilidade de tempo deste jornalista e também dos critérios de emergência dos assuntos. 

Procuraremos materializar aqui o muito que efetuaremos em contatos pessoais. Mais que isso: pretendemos que este ferramental seja elástico e profundo, na medida em que assentará as bases dos tijolos que deveremos implantar na empresa, bem como permitir que os profissionais de comunicação tenham espaço para manifestações.

Como disse antes de assumir a diretoria de redação no Diário do Grande ABC -- exatamente na última quarta-feira --, este Capital Digital Online não substitui as funções de ombudsman, que pretendemos ver recuperadas. Será um instrumento da direção da redação para uso e abuso, no bom sentido, de todos que pretenderem manifestar opiniões, sugestões, ideias, reclamações -- o que for. 

Adotaremos, como no modelo do OmbudsmanDiário, tópicos específicos sobre os assuntos tratados. É a maneira que encontramos para tornar a leitura mais didática e dinâmica. 

Estamos conscientes de que temos muito o que fazer no Diário do Grande ABC. Sempre em conjunto, em equipe, porque os problemas também foram criados por um coletivo. Não somos candidatos a salvador da pátria nem achamos que exista na companhia alguém com esse perfil. Precisamos desenvolver a certeza de que não podemos viver de factoides que procuram enganar os incautos. Factoides não sustentam publicações sérias. Não se vive de uma grande matéria hoje e de nada de interessante amanhã. Esse é nosso desafio: fazer um jornal que não seja previsível na indolência, mas que também não seja surpreendente no espalhafato vazio, de muita ressaca no dia seguinte. 

Haveremos, portanto, de produzir, com cautela, com engenho, um produto cada vez mais confiável aos olhos mais exigentes. 

Precisamos atingir a classe média que compra jornal, que tem o Grande ABC como nação, que espera posições ousadas e sustentáveis do corpo de profissionais de redação. Não podemos fazer um jornal maria-vai-com-as-outras só para ser politicamente corretos. Também não podemos permitir que o jornal seja maria-não-vai-com-ninguém. 

A verdade, como dizia o filósofo, está no meio. E haveremos de encontrar o centro desse eixo editorial. Sem pressa, sem grandiloquência, sem arroubos, sem resquício de qualquer coisa que procure encobrir insegurança, arbitrariedade, autoritarismo, coisas assim. 

 Trabalho iniciado

Estamos sinceramente felizes com o começo das atividades no Diário do Grande ABC. Sinto o coração dos colaboradores da redação pulsar de interesse pelo produto. Não serei hipócrita e desprezar o fator-Ximenes como algo especialmente propulsor dessa percepção. Longe de mim pretender esmiuçar a breve gestão daquele profissional, mas creio que o método utilizado virou um haraquiri que custou muito caro à companhia e aos companheiros de trabalho. Como disse na apresentação, temos emergências que precisam ser tratadas com vagar, senão o trem descarrilha. Mas não podemos perder o sentido de urgência, é claro. Até mesmo para abreviar resultados sem comprometer a qualidade. 

 Reuniões com editorias

Manteremos nesta semana e também na próxima o projeto de diagnóstico e avaliação das editorias do jornal, ouvindo integrantes das mais diferentes áreas. Reunimos o pessoal de Política na quinta-feira e de Setecidades na sexta. Entregamos à Amanda Monteiro a condução da agenda. Os encontros têm sido extraordinariamente positivos. Estamos recolhendo série de informações, bem como repassando conceitos básicos para que, ao mesmo tempo em que haja mais produtividade, o banco de horas, esse disparate que inventaram na empresa, seja desativado por inanição. 

 Repassando conceitos

Pretendemos repassar muitos dos conceitos que apontamos aos colaboradores nos encontros já realizados. Estabeleci prioridades para procurar sensibilizar os companheiros de trabalho. Como disse ao pessoal de Setecidades, não vou queimar etapas e discutir alguns pontos que, diante da situação em que se encontra a redação, passam a ser supérfluos. Temos de atingir o âmago dos problemas, atacando principalmente questões relativas à especialidade de cobertura. Com especialistas, derrubam-se as barreiras mais complexas. 

 Novo reforço

Deverá começar a trabalhar hoje na companhia um dos dois reforços que contratamos para humanizar o fechamento diário do jornal. Eduardo Reina é um profissional experiente, inclusive com passagem pelo próprio Diário. Ele fará parte da Secretaria de Redação com funções de editor e repórter. Ou seja: com multiplicidade funcional que tanto defendo. Daremos mais detalhes sobre Eduardo Reina num dia destes. 

 Eleições 2004

Vamos tratar com mais carinho, discrição e ética a próxima rodada de sondagens eleitorais no Grande ABC. Não poderemos mais, de forma alguma, permitir que os números sejam repassados a terceiros antes de efetivamente publicados pelo jornal. Haveremos de construir barreiras para impedir que delitos éticos assombrem forças que atuam em torno de nossa empresa e, com isso, desmoralizem o trabalho da Brasmarket. Pretendo realizar reunião com executivos da redação entre amanhã e depois para detalhar o plano de voo. A credibilidade do jornal está em jogo, tanto quanto o da empresa especializada. 

 Quem é Quem (I)

Helder Lima me entregou sexta-feira cópias de matérias já liberadas para a produção editorial do Quem é Quem. Li todo o material neste domingo em minha residência. Fiz algumas observações de estilo, mas o nível do trabalho está acima do que encontramos em edições anteriores. Pelo menos até agora. Vamos realizar reunião com o responsável pelo projeto editorial para definir o formato do lançamento da publicação. Trata-se de produto editorial e, como tal, precisa ser tratado. Haveremos de preparar algo excepcionalmente positivo que representará ganhos comerciais para a empresa, além de maior prestígio da publicação. 

 Quem é Quem (II)

Solicitaremos hoje a um jornalista da revista LivreMercado que agende entrevista com Helder Lima sobre o lançamento da edição do Quem é Quem. A matéria será publicada na próxima edição da revista do grupo. 

 Quem é Quem (III)

Também vou solicitar ao Helder Lima que prepare um texto forte sobre o lançamento de Quem é Quem. Ele deverá antecipar, sem abrir todo o véu, alguns dos principais pontos da publicação. A matéria será editada no caderno de Economia do Diário. Farei esse pedido porque o jornal não tem sido muito feliz, ao longo dos anos, em mostrar o que os leitores vão encontrar no Quem é Quem. O tratamento editorial do assunto jamais foi profundo o suficiente para criar ambiente de expectativa com o lançamento. Também estou seriamente preocupado com a presença de convidados. Haveremos de juntar forças, recolhendo apoio de profissionais especializados no assunto. 

 Aniversário de São Caetano

Estou redigindo boa parte desta newsletter em minha residência, neste domingo, por isso não garanto que até o início de nossa jornada de trabalho no Diário, às 14h, já terei lido o material encaminhado pela jornalista Adenilde Bringel, que está produzindo o suplemento de aniversário de São Caetano. Pretendo ler todo o material antes da publicação. Tenho a seguinte preocupação: não é por ser um produto relativo aos festejos de São Caetano que devemos forçar a barra em oba-oba ao Município. 

Acredito que o texto da empresa contratada manterá nível de competência que não apresente choque com o dia-a-dia do noticiário do jornal. Normalmente em suplementos desse tipo se dá realce aos pontos positivos dos municípios -- nada mais lógico --, mas o que não podemos é ser excessivamente generosos. Não creio, sinceramente, que seja esse o caso. 

 Revista da companhia

A revista LivreMercado, sob controle administrativo-financeiro do Diário do Grande ABC e gestão comercial e editorial dos sócios minoritários, deverá ter sede o mais próximo possível do prédio da Rua Catequese, conforme resultado de reivindicação minha aos acionistas majoritários. Por mim -- e vou lutar muito nesse sentido -- a revista deveria se instalar num dos andares do prédio da Catequese. A sinergia que pretendemos entre o jornal e a revista, em todas as áreas, seria extremamente positiva para a companhia e também para os colaboradores. Chegaremos ao dia em que profissionais das duas publicações participarão de projeto específico, numa troca de dois veículos de culturas e línguas diferentes, mas que pensam e agem em favor do Grande ABC. 

 Conselho Editorial

Transmitirei daqui a pouco a todos os leitores desta newsletter uma edição voltada para o preparo do texto do Conselho Editorial do Diário do Grande ABC. Espero que todos prestem o máximo de atenção no material. 

 Crise na Folha de S. Paulo

Também transmitirei a todos os colaboradores o texto da coluna do ombudsman da Folha de S. Paulo de ontem, que trata da demissão naquela companhia. Nada mais independente e elucidativo. Só faltou dizer que a Folha, como outros veículos de comunicação, se meteu no falso brilhante da Internet e de investimentos em telecomunicações e acabou, como todos sabem, quebrando a cara. Nem sempre os responsáveis pagam a conta dos desvarios. Basta ver o que temos em matéria de banco de horas na companhia. 

 Pautas anticonvencionais

Após a reunião com a editoria de Política, quinta-feira, entregamos ao editor Wilson Moço um conjunto de seis pautas para aplicação no dia-a-dia da cobertura das eleições no Grande ABC. Há sintonia entre este profissional e os componentes de Política no sentido de que é preciso que o jornal saia da mesmice das pautas de política e, dentro dos conceitos que estamos destilando, passe a dar coordenadas aos políticos, e não o inverso. 

Temos outras pautas em vista para enviar ainda nesta semana. Precisamos acabar com o festival de espaço desperdiçado primeiro com a tola listagem de candidatos a vereador, segundo com os quadrinhos de supostos bens dos candidatos a prefeito. É muito desperdício.

 Cena mais qualificada

Cena Política, sob a retaguarda de Roney Domingos, perdeu uma coluna e ganhou mais qualidade. Esse é o resultado de reunião em que este profissional, o colunista e o editor chegaram à mesma conclusão: havia um exagero de espaço para notinhas diárias, muitas das quais feitas a toque de caixa. O jornalismo diário não permite que se jogue tanto talento, disposição e papel pela janela. 

A redução espacial de Cena Política permite, também, que se ocupe melhor a área livre da página 2 de Política Grande ABC. Há maior flexibilidade gráfica, inclusive para uso mais constante e generoso de fotos e ilustrações. A mudança de Cena Política deverá tornar mais concorrida a disputa pelas notinhas. E querem algo melhor do que isso para que o produto final seja valorizado? Sem contar que Roney Domingos poderá exercitar mais e melhor o talento de jornalista em matérias mais profundas.

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