Política

Apesar dos esforços, campanha
“Vote pelo ABC” é patética

  DANIEL LIMA - 25/07/2018

Louvem-se os esforços da direção da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) e do publicitário Paulo César Ferrari, também dirigente daquela entidade, mas a campanha “Quem é do ABC vota pelo ABC”, lançada ontem à noite, chega a ser patética. 

Não vou descer a detalhes sobre essa conclusão neste artigo (dedicarei outras edições para tratar do assunto, porque há longa história por trás dos resíduos presentes desse movimento), mas anteciparei alguns pontos que, pelas circunstâncias atuais, exigiriam muito mais planejamento. 

Entretanto, seria demais exigir da Acisa, ou de qualquer organização coletiva, algo diferente do que foi apresentado. Estamos destruídos como comunidade a ponto de virar aberração o tratamento dado pelo Diário do Grande ABC de hoje em Editorial. A tal “sociedade civil organizada”, mencionada pelo jornal, é pura ficção. 

Há quatro pontos básicos a considerar com brevidade para explicar a suposta dureza do título deste artigo: 

 Ambiente Macropolítico

 Ambiente Micropolítico

 Ambiente Institucional

 Agenda de Compromissos

A questão do Ambiente Macropolítico dispensa maiores considerações. A Operação Lava Jato, sempre bem-vinda, apesar dos detratores com interesses múltiplos ou simples, colocou no devido lugar de transparência a metodologia- padrão do sistema de financiamento eleitoral (e de administração pública em geral) que unia em concubinato usurpador da ética o dinheiro que jorrava da iniciativa privada para os partidos políticos porque o dinheiro da iniciativa privada vinha dos impostos da sociedade que os partidos políticos diziam administrar quando no poder.  

Pesquisas não mentem 

Qualquer pesquisa responsável aponta que a classe política está no chão em matéria de prestígio. Por isso, sair em defesa do voto regional transpira burrice tremenda. Sobretudo porque foi apresentada de forma simplória, sem conceitos preventivos, por assim dizer.  

A medida se consolida como burrice tremenda na campanha lançada ontem à noite porque o que chamaria de microambiente político não é nada diferente do macroambiente político. 

Temos classe de administradores e legisladores públicos (e do entorno que usufrui de relações incestuosas) para lá de lamentável, com exceções que confirmam a regra. Tudo porque (e isso vale para o macroambiente político) relacionamentos entre o público e o privado, com a omissão, o desconhecimento, a apatia, o apoio e tudo o mais misturado, da sociedade, de maneira geral, sempre prevaleceu ao longo dos anos. 

Portanto, o microambiente político regional não oferece elementos de sensibilização do eleitorado, exceto aquela parte ínfima que de alguma maneira vive à sombra do Poder Público Municipal. 

Calamidade regional 

Não bastasse a derrocada da representação político-partidária no País como um todo, o quadro institucional local é uma calamidade. Quem vivia em 1994, quando foi lançada a primeira versão do que se resumiria em Voto no ABC, sabe que a mobilização que gerou o Fórum da Cidadania envolveu massa crítica respeitável. Mas sobre isso escreveremos outro dia. 

O que temos hoje, na quase totalidade dos casos, são instituições empresariais, sociais e sindicais atreladíssimas aos destroços da classe política. As relações são tão intestinamente improdutivas e conflitantes que o Voto pelo ABC é o retrato falado da situação. Pouquíssimos representantes dessas organizações e raros políticos, segundo o noticiário, participaram do evento. 

Prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Orlando Morando, por exemplo, saiu de São Bernardo e foi direto a São Caetano, na festa de lançamento da campanha do ex-vereador e do sofrível administrador (administrador?) do Clube dos Prefeitos, Fabio Palacio, agora concorrente ao Legislativo Federal. Palacio simboliza o quanto perdemos em qualidade individual na busca por um espaço na política nacional. 

Vácuo regional 

Não bastassem todos esses vetores fora do controle dos responsáveis pela iniciativa do Voto pelo ABC, eis que temos, agora como falha clamorosa dessas mesmas lideranças, um vácuo mobilizador do que restaria de potencialidade de juntar forças. 

Do que se trata? De uma agenda pré-definida contendo compromissos sobretudo econômicos (que abrange várias áreas) os quais seriam assinados numa noite de gala por dezenas de candidatos, sob pena de, os ausentes, figurarem numa lista de candidatos da região que não mereceriam a atenção dos eleitores. 

Sair a campo com referencial de medidas que precisam ser buscadas a todo custo seria o mínimo para preencher as expectativas. As demandas se alteraram nas duas últimas décadas, desde a primeira versão do Voto pelo ABC. A adaptação chegaria nesse momento à prerrogativa de definir 10 pontos cardeais que dariam um norte ao desenvolvimento econômico da região. Um conjunto de medidas que dariam sustentação a outros projetos que se agregariam aos principais em etapas subsequentes. 

Obrigações funcionais 

Vote pelo ABC sem se criar um ambiente motivacional numa quadra nacional e regional de desencanto político e econômico é ação de marketing furada, sem perspectiva de sucesso no campo prático. Quando digo sucesso no campo prático não me refiro a quantos deputados estaduais e deputados federais seremos capazes de eleger, porque isso, no fundo, não quer dizer tudo isso que alguns apregoam porque não têm experiência regional. 

Mais importante que o estoque ativo de deputados estaduais e federais é contar com as regras do jogo da atuação comum de todos eles – e as regras do jogo passam pela busca de resoluções que influenciem decididamente a estrutura econômica da região, entregue às baratas automotivas que nos levam do céu ao inferno em ciclos cada vez mais inquietantes e empobrecedores. 

“Quem é do ABC vota pelo ABC”, o mote oficial da campanha, só acertou na mosca quando retirou a expressão “Grande ABC”. Talvez não tenha sido pelas razões óbvias (somos cada vez menos merecedores de grandiloquências), mas, quem sabe, por alguma porção idiossincrática de dirigentes da Acisa em relação ao Diário do Grande ABC, organização que criou o “Voto pelo Grande ABC” em meados dos anos 1990. A centralidade de força persuasiva daquela publicação já não se reproduz nestes tempos de abundância midiática e escassez de cidadania.  

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