Imprensa

Nove meses de cinco anos que
transformariam o Diário (6)

  DANIEL LIMA - 30/07/2018

A frequência semanal da newsletter que criei para permanente contato com os integrantes da corporação do Diário do Grande ABC era distribuída eletronicamente naquela segunda-feira, 9 de agosto de 2004. Ainda não completávamos um mês de atividades como diretor de Redação do jornal. A proposta estava delineada em quase 100 mil caracteres do Planejamento Estratégico Editorial que preparei num final de semana no Interior do Estado, para onde me desloquei sozinho em busca de tranquilidade para encaixar o foco indispensável. 

O propósito era claro: potencializar um jornal que se desgovernava havia muito tempo ao sabor de transtornos circunstanciais, estruturais e históricos. Leiam o que preparei para aquela edição do boletim eletrônico interno que, sei, ganhava outros destinatários além-fronteiras do jornal na medida em que os endereçamentos originais se multiplicavam sem controle. Não havia nada a esconder, então por que não deixar o barco navegar? 

Newsletter número 5

Estamos iniciando mais uma semana de trabalho. Acredito que o saldo da equipe seja positivo, embora saltem evidentes alguns problemas que só serão eliminados com vagar. Entretanto, reações imediatas não podem ser proteladas. O desmembramento da pesquisa do Instituto Brasmarket e o tratamento editorial que a equipe deu ao material garantem um novo perfil jornalístico que precisa ser colocado como marco de uma nova etapa da publicação. Essa iniciativa não é exclusiva minha. Contei com suporte de vários profissionais da Redação na fase de introdução da medida, rompendo paradigmas. É sempre muito complicado quebrar conceitos que aparentemente se apresentam monolíticos. 

 Nós pautamos

Aos poucos a redação vai entendendo que quem pauta e quem ancora os acontecimentos no Grande ABC somos nós, jornalistas pagos para conduzir o jornal, não os aproveitadores de sempre. Isso não significa, é claro, que estamos blindados contra o bom senso que também surge da comunidade. Pelo contrário. Acontece que, na medida em que apuramos nossas baterias de discernimento, mais passaremos a compreender o que é importante e o que é puramente oportunismo. Vamos estar atentos a tudo que parecer manipulável. Vivemos período eleitoral e todo cuidado é pouco. Ninguém vai nos transformar em marionetes. 

 República Republiqueta

Solicitei a entrega ainda hoje a todos os componentes da redação de exemplares do livro República Republiqueta, que lancei em 1º de outubro do ano passado. Trato de questões sociais, econômicas e culturais do Grande ABC. Quem ler com atenção passará a compreender melhor a profundidade de mudanças que pretendemos aplicar no jornal. 

 Informediário novo

Vamos estabelecer nova filosofia editorial para o Informediário, cuja titular, se não me engano, volta de uma longa jornada de descanso proporcionada pelo banco de horas. Uma calamidade. Teremos uma reunião específica sobre o assunto. Inclusive com participação do fotógrafo que acompanha os acontecimentos. Ele tem muito de conhecimento para transmitir a quem precisa entender esse mundo sempre tratado à parte no jornalismo. 

 Novo reforço

Contamos a partir de hoje com um profissional que conheço mais de trabalho do que de relações pessoais -- Marcelo Moreira, que deixou a Gazeta Mercantil a meu pedido. Sou admirador de Marcelo Moreira e tenho absoluta certeza de que todos ganharemos com sua presença na redação. Ele vai reforçar a secretaria e as editorias que estarão sob sua jurisdição, conforme o planejamento tático que adotaremos a partir de hoje. Para tanto, teremos uma reunião com profissionais da secretaria e de editorias para destrinchar as mudanças. Juntamente com Eduardo Reina, espero de Marcelo Moreira reformas conceituais na área operacional, cuja burocratização me desagrada intensamente. Eles têm experiência prática de jornalismo diário e saberão aplicar os fundamentos teóricos que me levaram a assegurar que a mesmice de atravancamento editorial faz parte do cenário das redações de muitos periódicos brasileiros. O conceito de multifuncionalidade é meu dogma. 

 Economia devagar

Das editorias do jornal a única sobre a qual lamento dizer que não consegui ainda resultados minimamente palpáveis é a de Economia. Sinto alguma coisa estranha na engrenagem da editoria. Não podemos abrir mão, de forma alguma, de uma editoria que seja ponta-de-lança da reviravolta de nossa publicação. Trata-se, sem dúvida, de uma área complexa, mas é possível sim melhorar continuamente. Há inconformidades de todas as espécies e creio que com a chegada de Marcelo Moreira, a quem atribuirei entre outras funções a jurisdição filosófica da Economia, a situação tenderá a melhorar. Escrevo com a experiência de quem está há mais de 20 anos trafegando pela estrada econômica. Precisamos detectar as razões que nos colocam, nessa área, muito abaixo do mínimo necessário para o reerguimento da publicação. 

 Esporte encaixado

A Editoria de Esportes está encaixando golpes cirúrgicos. O editor e seus comandados pegaram rapidinho a filosofia de transformar personagens em objetos centrais das matérias. Começa-se também a investigar detalhes estatísticos que viram atração jornalística. Sem segredo. Quando se capta o conceito, o resto fica fácil. A página de pescaria está na minha mira. Acho um exagero. 

 Política empenhada

Não posso deixar de registrar também o avanço qualitativo e quantitativo da Editoria de Política. Entre outros aspectos, deixamos de correr atrás de pautas alheias e tratamos de enquadrar os personagens da vida partidária de acordo com nossos interesses jornalísticos. Isso também é conceito ramificado e bem aproveitado. 

 Setecidades fértil

Em termos de qualidade editorial, Setecidades também vem mostrando avanços significativos. A setorização vai dar grandes resultados no curto prazo porque nada resiste à especialização dos profissionais. 

 Cultural espertíssima

A matéria da edição de ontem da Editoria de Cultura & Lazer sobre o estado calamitoso da Orquestra Sinfônica de Santo André mostra que Ditchun e seus companheiros de trabalho estão atentíssimos a uma das ramificações editoriais, que trata de desvendar os problemas da infraestrutura material e humana do acervo de cultura e lazer do Grande ABC. Tenho algumas ideias sobre novos incrementos na editoria, mas, dadas as circunstâncias de hierarquizar prioridades, prefiro deixar para depois. Cultura & Lazer me agrada porque, entre outros pontos, conseguiu resistir a muitos problemas que atingiram a redação ao longo dos anos. 

 Pesquisas eleitorais (I)

Escrevi alguns textos ontem em meu escritório domiciliar e que serão utilizados na edição de amanhã do nosso jornal. São dados complementares da pesquisa da Brasmarket que interessam ser dissecados. Por exemplo: a influência de Lula e Alckmin nos votos para prefeitos é maior em São Bernardo. 

 Pesquisas eleitorais (II)

O empenho de James Capelli e de Danilo Angrimani no reforço da cobertura das pesquisas eleitorais mostra que temos profissionais dispostos a colaborar intensamente com o produto final. Não poderia esquecer também do Roney Domingos. Ele adiou férias (ou banco de horas?) para não prejudicar a divulgação do material da Brasmarket.

 Desinteresse, não!

Não detectei, até agora, um só exemplar de desinteresse na redação. Se houver qualquer possibilidade de identificar algo parecido, tenham certeza de uma coisa: não darei trégua. Entre outras razões porque o negligente sobrecarrega o companheiro de trabalho. Não posso admitir que quem esteja bem de saúde, seja jovem e tenha compromissos coletivos se distancie do processo de recuperação do produto. 

 Pautas múltiplas

Lembramos um dos princípios básicos de dar uma reviravolta na produtividade: trabalhem com três ou mais pautas simultaneamente, porque assim sempre será possível contar com disponibilidade de matérias. Quem trabalha com uma pauta de cada vez certamente será improdutivo. 

 Entrevistas 

Precisamos uniformizar o padrão gráfico das entrevistas publicadas nas mais diferentes editorias. A Rita Camacho parece ter encontrado o ponto nevrálgico ao editar a entrevista que fiz com Jaime Guedes e publicada na edição de ontem. Não podemos permitir que cada editoria faça o que bem entender com o conceito de editar entrevistas. A leveza gráfica torna a leitura mais atrativa. 

 Diretor de Redação

Qualquer matéria que assine no jornal não poderá acrescentar ao meu nome a função editorial que exerço. Agradeço a complementaridade apresentada na entrevista com Jaime Guedes, mas os leitores precisam compreender que o Daniel Lima jornalista é uma coisa e o Daniel Lima diretor de Redação não necessariamente é a mesma coisa. Traduzindo: posso assumir posição individual em meus comentários que, necessariamente, não sincronizem com a linha editorial do jornal. Como jornalista sou responsável individual; como diretor de Redação sou resultado de um coletivo que envolve meus companheiros de trabalho, diretores e acionistas. 

 Banco de reservas

Tão importante quanto trabalhar com pautas múltiplas é, no caso para os editores, não se precipitar no aproveitamento do material. Aliás, a multiplicidade de pauta permite que se utilizem matérias de acordo com circunstâncias espaciais de fechamento. Saber trabalhar com banco de matérias é algo semelhante a mexer num time que está precisando virar o resultado e conta com reservas gabaritados. Discernimento é fundamental. 

 Presidente na redação

Recebo hoje o presidente do Sindicato dos Jornalistas. Vamos conversar sobre banco de horas e outras questões. Não pretendo me meter na parte negocial do banco de horas, exceto se a mim for concedido o direito de apresentar alternativas para resolver esse problemaço. Pretendo apresentar ao dirigente minhas impressões sobre o assunto. Todos aqui sabem o quanto abomino essa criação demoníaca que consegue ser, vejam só, ao mesmo tempo sofrível para a empresa, estúpida para a classe jornalística e intensamente prejudicial aos leitores. O inventor dessa sandice não entende patavina de jornalismo nem de administração de empresa. Mereceria o paredão. 

 Venda de jornais

Me perguntaram outro dia em reunião de editores quais eram os reflexos da venda de jornais depois da divisão cronológica da divulgação das pesquisas eleitorais. Respondi que não temos controle nem estratégico nem estatístico sobre o setor de Circulação. Chega-me agora a informação de que se registrou muito mais demanda do que exemplares do jornal numa região de Santo André cuja morte de três assaltantes foi manchete na edição de sábado. A falta de sinergia entre as diversas áreas da empresa nos impede de responder com precisão a indagações que procurem aferir o grau de eficiência de políticas editoriais. Por isso, não resiste a qualquer avaliação mais segura a interpretação de que o jornal melhorou ou piorou como produto de banca se não houver um feixe de informações e ações consistentes. Precisamos adotar medidas que desloquem o produto para pontos-de-venda de acordo com as especificidades da edição. 

 Diário Online

Teremos série de reuniões esta semana, entre as quais com profissionais do DOL. O Diário virtual está sob nossa responsabilidade entre outras razões porque é insumo jornalístico. Já ouvi histórias estranhas sobre competição interna envolvendo o jornal de papel e o jornal eletrônico. O que posso adiantar é que o jornal de papel não pode ser canibalizado por qualquer outro produto da empresa. Tanto que deslocamos os horários de aproveitamento das pesquisas eleitorais, retirando o jornal virtual da faixa de antecipação dos dados preparados pela redação do jornal de papel. A divulgação antecipada ou mesmo em paralelo com o jornal de papel seria inadmissível porque em primeiro lugar quebraria todo o esquema de sigilo que procuramos adotar e, em segundo, porque retiraria os leitores das bancas e os levaria para diante do computador. 

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