Sociedade

Um perfil nada satisfatório dos
guerrilheiros de mídias sociais

  DANIEL LIMA - 06/08/2018

Não sou frequentador doentio das redes sociais. Participo ativamente quase nada. Prefiro a condição de voyeur. Observo e analiso os participantes. Há grupos para todos os gostos. E há também participantes diversos. Selecionei 10 tipos que parecem os mais efetivos em atuação. Os grupos que reúnem antagonistas políticos são reveladores da alma humana. As plataformas digitais não passam de extensão da própria individualidade. 

O que existe em comum entre os participantes de redes sociais é o baixo grau de regionalidade. Os grupos observados são de moradores e profissionais locais. A regionalidade no sentido mais amplo da expressão perde de goleada para a agenda política estadual e nacional. Já escrevi sobre isso, mas não custa repetir: até prova em contrário, que deverá vir com o tempo, quando o tempo mostraria que se perde tempo demais com os outros enquanto estamos afundando, até prova em contrário, portanto, perdemos substância regional com os dispositivos colocados ao alcance dos manifestantes. 

Trata-se de uma contradição, portanto. Projetava-se o amadurecimento das relações internas com os novos instrumentos de comunicação. Ou, quem sabe, estamos acompanhando ao vivo a exposição nua e crua do que sempre fomos de fato.  

Fugindo da regionalidade

Vale muito mais um caso qualquer da política nacional ou estadual, na maioria sem qualquer influência local, do que pautar e esmiuçar determinadas situações nos municípios e na região. As redes sociais pecam pela baixa aderência ao específico municipal ou regional, em contraste com o mais abrangente, em nível externo. Pena que não se encontram disponíveis no mercado pesquisadores confiáveis a revelar  o quanto a regionalidade perde para a estadualização e a federalização da pauta.    

No fundo, no fundo, a sociedade regional age como barata tonta. Não tem foco, não reflete, não aprofunda posicionamentos. As redes sociais fazem muito barulho para quase nada. O caso do IPTU em Santo André é exceção que confirma a regra. A barbeiragem do prefeito Paulinho Serra foi gigantesca e impactou diretamente o bolso dos contribuintes. Quando se trata de usar a cabeça, de vislumbrar soluções mais que demoradas, prevalece o silêncio, quando não o despreparo.  

Há situações que poderiam ser mais duramente vasculhadas. Querem um exemplo? A turma toda que transformou a Secretaria de Meio Ambiente de São Bernardo em território de roubalheiras segue foragida da Justiça e não se fala mais nisso. E a Fundação do ABC, então, palco de irregularidades colossais? E a morte matada de fato do Clube dos Prefeitos. Os delitos do mercado imobiliário? Cadê as redes sociais? A explicação é simples: a maioria age de acordo com conveniências. Como a mídia, em geral. Mexe-se apenas com quem não ofereceria nenhum risco de contragolpe. 

É nesse contexto que selecionamos tipologias encontradas com facilidades nos grupos digitais. No fundo, no fundo, as redes sociais que frequento como observador estão mais para a espetacularização do individualismo do que para o comprometimento coletivo em defesa de mudanças de que a região tanto precisa.  Vejam as especialidades de alguns tipos de guerrilheiros sociais bons de briga apenas ou principalmente nos aplicativos. 

 Sabetudismo de nada 

Meter a colher de suposta sabedoria transversal em mensagens de voz ou escritas é uma das características de participantes de redes sociais que merece atenção redobrada. O risco é comprar gato de tagarelice por lebre de conhecimento. Geralmente o que temos diante dos olhos são espertezas de quem se diz bamba em matéria de informação. A marca registrada é a superficialidade vazia, embora pareça prato cheio de substâncias. São declarações mais enfáticas que sábias, mais voluntaristas que estruturais. Como há temas que fogem do controle de embate imediato, o sabetudismo de nada ganha foro de verdade ampla e irrestrita, a lustrar o ego de quem o exerce. A esperteza, entretanto, não se limita em auto intitular conhecedor de assuntos diversos. Quando eventuais questionamentos colocam em xeque o sabetudismo de nada, procura-se o desvio de abordagem de novo assunto. O sabetudo de nada tem horror a contrapontos que coloquem em xeque suposta qualificação retirada do escurinho do cinema de quem pode contar com o auxílio do Google para recalibrar baterias em situações desconfortáveis. Imaginar o que seria o comportamento caso não se escondesse por trás de smartphone seria espetáculo deprimente. O sabetudo de nada pensa que o Google é um eterno salvador de reputações quando, para valer mesmo, é uma ferramenta que não agrega valor sistêmico como definidor de conceitos mais complexos.  Esses mensageiros lembram acrobatas de destreza e coragem subordinadas à rede de proteção alguns metros abaixo. 

 Ódio partidário 

Salta dos aplicativos uma das maiores enfermidades da sociedade – o ódio partidário. Como se identifica o portador desse mal social gerador de divisões e idiossincrasias aparentemente inconciliáveis? Simples: tudo que faz referência partidária é observado tendo em conta dois valores indissociáveis: quem é a favor magnifica supostas virtudes e bloqueia, quando não exorciza, tudo que seja depreciativo. O mesmo pecado capital de um determinado representante da agremiação que goza da paixão de um lado, é visto como abominável no time adversário. O critério ético das intervenções é, portanto, bastante flexível, quando não biodegradável. Nada que possa colaborar para elucidar eventuais problemas ou situações. Distante disso, aliás, porque tumultua. O uso deliberado da desclassificação do adversário que cometeu erros semelhantes aos dos protegidos não é uma peça de teatro a exigir do espectador atenção redobrada para entender o que se passa no palco. Na telinha de um computador de mão basta acompanhar os diálogos digitais por algum tempo para desmascarar quem comete a barbaridade de tratar questões iguais ou semelhantes de forma completamente distinta. Não se deve esperar nada no campo da cidadania de gente que faz da estratégia diversionista espécie de disputa visceral para tentar, mais que convencer o adversário, prestar conta consigo mesmo, reafirmando-se para o próprio ego num jogo de autoengano. 

 Rancor ideológico

O rancor ideológico é espécie de ódio partidário potencializado e radicalizado, porque estruturalmente sólido, consolidado e, portanto, praticamente inquebrável. O rancor ideológico leva ao extremo as contradições da política e da vida em comunidade. Por mais que exemplos internacionais sejam elucidativos sobre o que parece mais correto do que incorreto nas relações humanas, o rancor ideológico há sempre de negar o estágio de campo minado em que pisa. Não existe possibilidade de o rancor ideológico dobrar-se às evidências em contrário. As circunstâncias depreciativas de um caso cuja origem remonta o modelo político, econômico e cultural, são desprezadas por quem entende que, entre outras variáveis, os fins diversionistas justificam os meios ilusionistas. Atacar o modelo antípoda é uma das fórmulas adotadas pela estupidez do rancor ideológico. Não existe entre os praticantes a mínima possibilidade de conciliação. Matizes são desprezadas. Vale o conceito de pão, pão, queijo, queijo.  

 Sujeições insolventes

Não é por razões simples que a maledicência, a tergiversação, a dissimulação e tudo que se opera como lixo humano em suas imperfeições.  No mundo digital reproduz-se o comportamento do dia a dia como extensão natural, até porque é assim mesmo que se tornaram os aplicativos. Quem maneja declarações, opiniões e propostas de acordo com conveniências nem sempre éticas reproduzirá o modelo de comportamento nos grupos digitais. Há quem tenha espirito retaliador aliado a estratégia defensiva. A medida consiste em prometer devassar a vida de um adversário digital, de insinuar empregos públicos de modelagem irregular, na condição de fantasmas, entre outros desvios comportamentais. Quem age com essa ferocidade coercitiva nas redes sociais não esconde imposições subjetivas ao diálogo, porque insinua que os adversários no embate virtual são todos farinhas do mesmo saco. Pouco interessa ao autor de sujeições insolventes se as insinuações aos oponentes tenham algum fundo de verdade. O objetivo número um é levar o contendor ao córner da legitimidade ética. Quem o faz com constância é um perdedor antecipado, porque inquieta-se com o peso da derrota iminente. 

 Tergiversações covardes

O que separa os autores de sujeições insolventes dos praticantes de tergiversações covardes é o caráter repetitivo de ilações sempre que a vaca da argumentação ameaça ir para o brejo de avaliações incontestáveis. Se o foco é um determinado político pego em flagrante delito, sempre se encontra uma maneira de atenuar os erros com a introdução de contra modelo. A máxima, nesse caso, é confundir para não esclarecer. Os cultivadores de tergiversações covardes têm forte relação com o ódio partidário e o rancor ideológico. O combustível deles é atear fogo em qualquer tentativa de iluminar o caminho dos esclarecimentos. A objetividade de quem procura argumentos explicativos é bombardeada pelo sofisma. 

 Agressividade inócua

Essa é uma tática muito comum entre quem se vê em desvantagem num embate digital. Um ar de indignação, de vitimização, de sofrimento, toma o espaço da argumentação esfarelante. O portador da agressividade inócua já não engana a todos ao mesmo tempo e nem poucos durante todo o tempo. Determinados grupos virtuais não demoram a mostrar a cara individual. Os vieses brotam com clareza às primeiras intervenções. A agressividade inócua desmoraliza os autores. Eles caem em desgraça de credibilidade junto aos demais participantes. Quanto mais se eleva o tom, mais emerge a sensação de que do outro lado da maquininha de mensagens existe alguém que quer impor mentiras como verdade, meias verdades como verdades absolutas. 

 Indignação seletiva

Também fruto do partidarismo e do ideologismo, a indignação seletiva precisa ser considerada uma anomalia comportamental. Por mais evidentes que sejam os acontecimentos que pautam o dia a dia dos grupos digitais, a movimentação em tratar com naturalidade, ou mesmo de forma desclassificatório, tudo que envolve consolidadas manifestações é uma questão de ordem. Afinal, o que está em jogo nessa disputa interpretativa é o apanhado histórico de cada um dos debatedores digitais. Raramente se admite que a verdade dos fatos, apurada com esmero, está resguardada por provas. A gritaria é geral entre aqueles que parecem sinceros em defender delitos políticos, principalmente. Mas tudo não passa de algo muito pior – ou seja, o fanatismo em torno de determinada causa.  

 Manipulação informativa

Não menosprezem mensageiros de grupos digitais que pareçam sensíveis ao uso de dados para sustentar declarações. Há sempre um endereço eletrônico aos quais recorrem para juntar peças que contradizem enunciados de terceiros. Há truques diversos para sufocar os fatos. Há gente especializada em pinçar informações que, em seguida, se traduzem em contestação aos fatos descritos. Retiram-se do contexto situações só aparentemente assemelhadas e vende-se a ilusão de que o fato não teria sido exatamente daquele jeito.  O reverso da moeda também é verdadeiro: apresentam-se opositores a mensagens infundadas, fundamentados em dados consistentes. O jogo de gato e rato para saber quem não está espancando a verdade é bastante intrincado. Nem tudo que parece o é de fato. Há profissionais em manipulações nas redes sociais. Gente que se dedica tanto a criar fantasias quanto a botar fogo nas lantejoulas. São carnavalescos da pior espécie. O mundo digital nem sempre sabe distinguir artistas de charlatões.

 Culto à autoimunidade

O mundo dos debates virtuais também comporta figuras que apelam à auto canonização. Geralmente são os participantes mais incisivos na prática de descredenciar terceiros que lhes impõem surras informativas a adotar a tática de se postarem no mais elevado patamar de correção ética e moral. As credenciais de quem cultiva a autoimunidade começam e terminam na ênfase com que se projetam como agentes sociais. Pretendem-se vender como suprassumo, embora não tenham o menor pudor em atacar terceiros, principalmente terceiros que os contrariem no jogo democrático do contraditório. O culto à auto canonização é messiânico, próprio dos fundamentalistas.

 Vitimismo de gênero

Há mulheres de todos os tipos nas redes sociais. Inclusive mulheres que se dizem atualizadas, modernas, contemporâneas, cosmopolitas, mas mantêm postura contraditória de se proteger ante qualquer intervenção de terceiros. Utilizam-se, essas mulheres, insistentemente, do fato de serem mulheres. Com isso, buscam refúgio e salvação nos embates de ideias. Se fracassam no confronto de opiniões, excedem-se e rasgam a fantasias. Tiram do coldre do politicamente correto a lembrança de que são mulheres e, portanto, não podem sofrer qualquer tipo de contraponto ecumênico no sentido de que o gênero não está em jogo. A impressão das poucas mulheres que adoram lembrar que são mulheres para usufruírem de supostas vantagens de tratamento nos embates remete aos travestis. De maneira geral, eles precisam se afirmar como mulheres na plenitude da performance e, para tanto, não falta quem se exceda no desempenho e revelam-se mulheres sob suspeita. Ou seja: o empenho com que algumas mulheres se referem ao gênero feminino torna-se ridículo, risível, quando no ambiente de confronto digital o tema em discussão não guarda qualquer relação com o sexo dos debatedores, mas com a inteligência e predicados cognitivos.

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