Imprensa

Jornal Nacional não será mais
o mesmo depois de Bolsonaro

  DANIEL LIMA - 29/08/2018

Não sou eleitor de Jair Bolsonaro. Não faço parte dos eleitores que o santificam por conta de pretensas soluções para a violência sistêmica no País, embora apoie várias das proposições. Não frequento o mesmo ambiente dos avessos a Bolsonaro, que o demonizam por razões razoáveis e outras enviesadas. Não acho que Bolsonaro tenha todas ou mesmo parte das respostas econômicas que o País exige, à parte o brilho intelectual de Paulo Guedes, seu guru no setor. Enfim, mantenho certo distanciamento do candidato identificado como de extrema-direita à presidência da República. 

Mas não vou cometer o suicídio profissional de omitir uma verdade cristalina: ele bateu forte, consistentemente e arrasadoramente ontem à noite nos dois apresentadores do Jornal Nacional.

Mais que isso: Jair Bolsonaro lavou a alma de muita gente que nutre ojeriza à Globo. Não faço parte desse time de execradores, muitos dos quais insanos.  Distante disso. O jornalismo da Globo é de alta qualidade. William Bonner e Renata Vasconcelos são da linha de frente do jornalismo televisivo nacional. Mas apanharam, apanharam e apanharam. 

Imaginava antes do prélio de ontem à noite que Jair Bolsonaro sairia derrotadíssimo das escaramuças que a Globo lhe prepararia com toda a razão do mundo, porque jornalismo de bom mocismo é parente muito próximo de jornalismo de banditismo camuflado.  

Derrota iminente

Não via Jair Bolsonaro senão na condição de pobre sparring. Levaria bordoadas o tempo todo. Sairia daqueles 27 minutos defenestrado. 

Bolsonaro passa imagem pública, como candidato, de lidar com o improviso, com o circunstancial, com a procrastinação do urgente, com a simplificação do necessário. Caímos do cavalo. Ele foi magistral quando se considera, sobretudo, a performance cênica, o conteúdo tático, a embocadura estratégica. Jair Bolsonaro estava sereno, firme, cortante. 

São conhecidos os detalhes mais sórdidos, por assim dizer, da entrevista de ontem à noite. Estão nas redes sociais. Os jornais impressos, pelo adiantado da hora, não trouxeram nada significativo. Coberturas pífias. Tomara que melhorem amanhã. Certamente vão procurar atenuar, negar ou subverter os estragos de Jair Bolsonaro no jornalismo da Globo e possivelmente até nas expectativas dos adversários nas próximas pesquisas eleitorais. 

Destemido, Jair Bolsonaro enfrentou a TV Globo com altivez, sem parecer arrogante. Deu espetadas espetaculares sobretudo no infantilismo generalizado de um País em que a hipocrisia, o puxadinho de engajamento enganoso de responsabilidade social, de modernidade nos costumes, virou praga indestrutível. Vale para todo tipo de bandido social. 

Pois Jair Bolsonaro mostrou a todos, sobremodo aos não-engajados eleitoralmente ainda, ou seja, aos indecisos e aos céticos, que o buraco é mais embaixo. Indecisos e céticos conscientes do quadro nacional, não toupeiras em cidadania, têm muito mais sensibilidade para distinguir o certo do errado do que os engajados e fanáticos que reduzem a pó todo tipo de argumento contrário para sustentarem crenças políticas. 

Renata patética 

Foi patético ver Renata Vasconcelos tentar negar que recebe valores inferiores ao do companheiro de bancada, embora longe dos holofotes ocupem outras funções editoriais. Se William Bonner não receber no combo salarial pejotizado (e denunciado por Bolsonaro) mais que Renata Vasconcellos como apresentador, especificamente como apresentador, teremos um caso reverso de discriminação salarial de gênero, tema, aliás, daquele micro embate. 

Não é questão de gênero, como generalizam os falsos de plantão em redes sociais. É questão de meritocracia. Palavra de quem comandou uma redação de revista durante duas décadas e jamais estabeleceu valores a calcinhas ou a cuecas como quesito profissional. E que também jamais pediu atestado ideológico, praga de hipocrisia que prevalece na mídia em geral. A militância no jornalismo é uma estupidez que ajuda a explicar porque a atividade está tão desacreditada. 

Lições a aprender 

Mais poderia escrever sobre o embate de ontem à noite, concluído como um massacre de um ex-capitão de Exército a dois jornalistas de primeira linha. O que sobrou a Jair Bolsonaro faltou a William Bonner e a Renata Vasconcellos: competência para enxergar o outro como oponente que jamais poderia ser menosprezado na batalha que viria. Ou alguém tem dúvida de que aquele evento televisivo carregava octanagem política e eleitoral além dos limites, como o fora também na noite anterior, quando um Ciro Gomes habilidosíssimo, mas menos ousado, colocou os apresentadores num gueto de desconforto? 

A sociedade brasileira deveria agradecer a Jair Bolsonaro pela noite de ontem na TV Globo. A própria Globo deveria penitenciar-se por tentar levar um debate mais que relevante ao futuro do País à estreiteza intelectual de uma contenda em que os costumes foram alçados como espécie de boia salvadora diante da primeira etapa em que Bolsonaro nadou de braçadas em temas econômicos e sociais. Deu no que deu. Nocaute técnico. 

Paradoxalmente, o jornalismo foi o grande vencedor da noite de ontem. O modelo de entrevistas da Globo não pode seguir a trilha de sordidez tática das redes sociais e tampouco nutrir-se de ojeriza ideológica. Entrevista indesejada, como a de ontem, é o mais saudável exercício da liberdade de expressão. Entretanto, quando se torna um bumerangue, sinaliza-se claramente que o insumo adotado foi autofágico. Como foi. 

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