Regionalidade

O outro lado do paraíso da USCS
não é nada animador para a região

  DANIEL LIMA - 04/09/2018

O documento de paradisíacas propostas que a Universidade de São Caetano (USCS) preparou aos 12 candidatos ao governo do Estado Paulista significa, entre outros aspectos, o quanto está fragmentada e dinamitada a regionalidade desta Província. 

Em condições normais de pressão de cidadania e temperatura de responsabilidade social, a missão de levar sugestões ou cobranças aos candidatos seria do Clube dos Prefeitos, instância maior do organograma de regionalidade. Mas o que esperar do Clube dos Prefeitos se o prefeito dos prefeitos, o tucano Orlando Morando, rachou partidariamente a região e, mais que isso, esquartejou inclusive o próprio PSDB, em uma guerra surda, quando não unilateral, com o prefeito de São Caetano, José Auricchio Junior. 

É verdade cristalina que Orlando Morando usa a força financeira e política à frente da Capital Econômica da região. Tanto que não poupa esforços em medir prestígio no território do prefeito de São Caetano, cujo filho Thiago também é concorrente à Assembleia Legislativa. 

Invasão de domicílio

O protegido de Orlando Morando, Fabio Palacio, com passagem meteórica e frustrante à frente da secretaria-executiva do Clube dos Prefeitos, também desafeto de Auricchio, tem a base eleitoral em São Caetano e ali faz dobrada com Carla Morando, mulher do prefeito de São Bernardo. Palacio quer o Congresso Nacional e Carla Morando a Assembleia Legislativa.

Não se trata de uma dobrada qualquer. É uma dobrada da pesada, com investimentos elevadíssimos na campanha eleitoral. Mais que isso: em campanha que visa, no fundo, no fundo, a Prefeitura de São Caetano em 2020. 

Explicando o que parece complexo e é complexo mesmo: Orlando Morando e José Auricchio são do mesmo partido, posam juntos para fotógrafos em eventos dos tucanos, mas estão em campos opostos. Orlando Morando tem o mesmo viés imperialista de Luiz Marinho, que o antecedeu no cargo e que comandou a regionalização partidária avançando territórios adentro.  A diferença que os separa é que Marinho, a bem da verdade, reconheceu as áreas nas quais companheiros de partido já estavam instalados. O PT é sistêmico em tudo que faz, daí a explicação para o Petrolão. O PSDB é formado de agrupamentos. 

Orlando Morando é invasivo. Quer que a mulher tenha votação recorde na região e por isso não deixa pedra sobre pedra nas coalizões para levar adubo ao próprio cultivo. 

Frustração à regionalidade

Caiu do cavalo quem como este jornalista algum dia imaginou que Orlando Morando pudesse dar continuidade aos anseios de regionalismo. A decepção não tem tamanho. Entretanto, como no caso de Luiz Marinho, o tiro pode sair pela culatra. Nada melhor que eleições para resolver o problema de animosidades à base de revanchismo, quando não de pedantismo, senão de arrogância.

Da mesma forma que o PT se tornou rebelde e opressor na região no período em que seus representantes locais nadavam de braçadas nas águas do controle da máquina federal, os tucanos do viés de Orlando Morando podem dar com a porta das circunstâncias na cara do oportunismo desenfreado. 

Tanto a disputa ao governo do Estado como ao Palácio do Planalto estão duríssimas. Orlando Morando precisa rezar para contar com a retaguarda do Palácio dos Bandeirantes, algo que só será possível com a vitória de João Doria, candidato em sufoco num eventual segundo turno porque poderá enfrentará um Paulo Skaf com viés de alta – mesmo com o peso do emedebismo de Michel Temer. Ao governo federal, a candidatura de Geraldo Alckmin é considerada nestas alturas do campeonato, mesmo com mais tempo de TV, uma grande zebra. Nota-se pela agressividade no horário obrigatório de TV e nos spots que colhem o ouvinte e telespectador de supetão. 

Dificuldades à frente? 

Supostamente órfão das duas instâncias de governo, e quem sabe com um PT de São Bernardo no cangote, porque tudo indica que Luiz Marinho poderá ter grande votação ao governo do Estado onde já foi prefeito por oito anos, Orlando Morando encontraria barreiras para viabilizar o plano de reeleição.

Como não tenho preferência por qualquer um dos concorrentes à Prefeitura de São Bernardo em 2020 (o outro seria Alex Manente, um braço de apoio a Luiz Marinho), fico apenas na expectativa de ver o circo pegar fogo. O que isso significa? Significa que a vida nos ensina que quando os limites não são respeitados nem mesmo junto aos mais próximos, na sede de vitória a qualquer custo, o desenlace é desastroso. E mesmo que não seja de imediato, poderá ser mais adiante. 

Não admito a possibilidade de ter o mínimo de admiração por Orlando Morando como homem público. Ele destruiu completamente o que existia de resistência à prática de regionalismo. Tanto que – e nesse ponto volto ao título e à abertura deste texto – foi preciso que alguns acadêmicos de uma universidade pública viessem a campo para lembrar aos candidatos ao governo do Estado que há série de demandas a ser analisadas. Se dependesse do inerte Clube dos Prefeitos, passaríamos em branco. 

Por mais que tenham sido essas demandas expressas de forma açodada e enviesada, sem arte de sintetizar o prioritário para alcançar mais potencialidade de negociação, é inegável que o movimento tem valor e como tal deve ser respeitado. 

Mas não foi apenas o Clube dos Prefeitos a ser atingido pelos estilhaços da bomba da Universidade de São Caetano. Os danos colaterais impactaram outras instituições do gênero, entidades de classe empresarial, sindicatos e tudo o mais que permanecem na retaguarda quase covarde de apenas observar a deterioração regional.

Insensibilidade ou burrice? 

Somente os idiotas de plantão e os energúmenos juramentados seriam capazes de negar, quase duas décadas após o assassinato, quanto fazem falta Celso Daniel e seu legado de regionalidade. São raros nesta Província os representantes públicos, sociais, econômicos e sindicais que prezam a memória do maior prefeito regional que já tivemos. 

Fossem previdentes e vislumbrassem a região como prioridade das prioridades, porque sem o conjunto da obrados sete municípios continuarem a nadar e a morrer na praia, esses batalhões de omissos fariam de cada ação proposta por Celso Daniel uma obra a ser realizada. 

E uma das principais dessas empreitadas – que conta com o testemunho deste jornalista nas páginas da revista LivreMercado, em entrevista que realizamos dias depois de ser eleito pela segunda vez prefeito de Santo André, em 1996 – é a abertura do Clube dos Prefeitos a representantes da sociedade que tenham lastro para contribuir com críticas e ideias, não paus mandados como é comum entre quem não suporta correções de rumo. 

Os acadêmicos da USCS foram além dos limites e ponderações ao se apresentarem como representantes da região. Mas isso, repito, à omissão de dezenas de organizações coletivas que dormem no berço esplêndido da vagabundagem institucional, quando não porque estão mamando nas tetas dos governos municipais em negociatas privadas. 

Aliás, sobre isso, a própria ação dos professores da Universidade de São Caetano deve ser cuidadosamente observada. Preparar e encaminhar propostas ao futuro governador do Estado é apenas uma parte da tarefa a que estariam socialmente obrigados. A outra é contribuir para sacudir as viciadas estruturas institucionais da região, intocáveis e permanentemente em desacordo com os interesses da sociedade. Seria demais imaginar algo em consonância com as exigências da sociedade desorganizada?

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