Política

Ibope confirma: atentado leva
Bolsonaro para o mata-mata

  DANIEL LIMA - 12/09/2018

Caiu do cavalo da ignorância e do burro do histrionismo ideológico quem colocou em dúvida ou subestimou uma cantada de caçapa mais que compulsória após o atentado a Jair Bolsonaro em seis de setembro: o capitão reformado consolidou a liderança na disputa à presidência da República no primeiro turno e, se a campanha não cometer nenhum erro crasso, vai ver de camarote, ou do hospital onde se recupera, uma guerra fratricida entre os quatro concorrentes que lutam pela segunda vaga do mata-mata. Se o trem das probabilidades não descarrilar, o petista Fernando Haddad será o oponente do PSL na etapa final. 

Nada melhor do que ir aos números e, principalmente, ao novo contexto numérico, para entender que a facada quase lhe custou a vida, mas retirou Jair Bolsonaro de uma possível zona cinzenta de empate técnico com vários dos demais competidores que buscam o segundo turno. 

Bolsonaro conquista um lucro e tanto. Ele corre atrás de votos numa reta de chegada em que praticamente foi alijado de visibilidade, porque as regras eleitorais da propaganda em rádio e televisão são ditadas pelos mandachuvas do Congresso Nacional. Muitos dos quais, aliás, metidos em encrencas lavajatenses. 

As redes sociais, principal arsenal do candidato, ganharam força mas não sustentariam isoladamente a liderança menos consolidada até então. Juiz de Fora é o fator decisivo. Provavelmente tanto quanto Lula da Silva no repasse do espólio eleitoral ao escolhido Fernando Haddad. 

Efeito temporal

Diferentemente do Datafolha, que não fez pesquisa eleitoral pouco antes do atentado a Jair Bolsonaro, o Ibope Inteligência foi a campo poucos dias depois do início do horário eleitoral e também do ataque na cidade mineira. Em cinco de setembro o Ibope anunciou que Bolsonaro liderava a corrida presidencial com 22% dos votos, seguido de Ciro Gomes e de Marina Silva com 12%, Geraldo Alckmin com 9% e Fernando Haddad com 6%. 

Os números do Datafolha da última segunda-feira não eram fortemente distintos da pesquisa de 20 de agosto (portanto antes das eleições em rádio e tevê). Bolsonaro avançou dois pontos percentuais no período (dentro da margem de erro), Ciro Gomes cresceu três pontos percentuais, Alckmin dois e Haddad dois. Marina mantinha os 12%. 

Agora acompanhem os números de ontem pós- atentado, tendo como base de comparação os resultados da pesquisa do Ibope Inteligência divulgados exatamente na quinta-feira anterior: Bolsonaro passou de 22% para 26%, Ciro Gomes (11%) caiu um ponto percentual, Marina Silva (9%) caiu três pontos percentuais, Geraldo Alckmin (9%) manteve percentual e Fernando Haddad (8%) avançou dois pontos percentuais. 

Em termos relativos, quando se confrontam os resultados de ontem do Ibope de Jair Bolsonaro com ele mesmo, entre a pesquisa imediatamente anterior e a pesquisa imediatamente após o atentado, o crescimento de quatro pontos percentuais significa avanço de 18,18%. A maioria dos intérpretes eleitorais confunde “percentagem” com “pontos percentuais”. Quatro pontos percentuais parecem pouco, porque induz a raciocínio de percentagem convencional. Já 18,18% é outra história. 

Haddad também ganha 

Exceto o desempenho do petista Fernando Haddad, naturalmente embalado pela propaganda eleitoral em que ocupou subliminarmente a candidatura presidencial precariamente reservada a Lula da Silva, os demais competidores da linha de frente tiveram perdas numéricas, embora dentro da margem de erro. 

O crescimento de Haddad num período menos explicitamente de concorrente deverá se acentuar a partir de agora, oficialmente herdeiro de Lula da Silva. Tanto que o Ibope já capturou estragos no eleitorado de Ciro Gomes e de Marina Silva no Nordeste, onde Lula da Silva chegou a contar com 60% dos votos em pesquisas anteriores, quando insistia em levar ao público a ideia de que passaria por cima dos efeitos da Operação Lava Jato. 

Ainda não se esgotou o filão de vantagens obtidas por Jair Bolsonaro nos dias posteriores ao golpe de faca. Na pesquisa Ibope anunciada em cinco de setembro ele detinha vantagem de 10 pontos percentuais (ou de 45,45%) sobre os vice-líderes Marina Silva e Ciro Gomes: 22% contra 12%. Já agora, nos novos números do Ibope, Bolsonaro aumentou a diferença para 15 pontos percentuais sobre Ciro Gomes (ou 57,69%), que se isolou numericamente na segunda colocação: 26% contra 11%. 

Reações televisivas 

O que mais se viu ontem à noite na televisão, especificamente na GloboNews, foram jornalistas em busca de explicações para os novos números. As tentativas de minimizar os resultados foram infrutíferas. Procurou-se catalogar a subida de Jair Bolsonaro como algo circunstancial, ditado pelo período de imediatismo emocional da pesquisa do Ibope Inteligência, em contraposição a situação supostamente menos contagiante dos números do Datafolha, divulgados um dia antes. 

Entretanto, logo tiveram, todos eles, de recuar e admitir que os dados não se limitam à estupefação das primeiras horas do incidente. O Ibope fez a sondagem durante três dias que se seguiram ao atentado, sábado, domingo e segunda-feira, enquanto o Datafolha foi a campo no domingo.

Prevaleceu durante algum tempo a interpretação de que o Datafolha fora mais realista, porque a pesquisa teria sido realizada já sem o calor mais intenso dos acontecimentos. Foi preciso esperar o tempo passar para os esclarecimentos dinamitarem o fator temporal como explicação às diferenças entre as duas pesquisas. 

Os entrevistadores do Ibope diluíram a cota de entrevistas entre sábado, domingo e segunda. Eliminava-se, portanto, qualquer resquício emocional acima dos efeitos semelhantes nos números do Datafolha. 

Mais diferenças 

Os dois institutos também divergiram nos índices de rejeição aos candidatos, especialmente a Jair Bolsonaro. Enquanto a mais recente pesquisa do Datafolha apontou crescimento de seis pontos percentuais, de 43% para 49%, o Ibope registrou redução de três pontos percentuais, de 44% para 41%. 

Sempre convém lembrar que os dados do Datafolha divulgados segunda-feira têm como referencial de comparação a pesquisa divulgada em 22 de agosto, enquanto o Ibope Inteligência foi a campo logo no começo do horário eleitoral, nos primeiros dias de setembro. 

Como se tudo isso não bastasse, o atentado também mudou a ordem de favoritismo do Datafolha que colocaria Jair Bolsonaro em desvantagem ante os demais concorrentes mais cotados, exceção a Fernando Haddad, com quem teria empate técnico, levando-se em conta a margem de erro. Agora, na pesquisa do Ibope, Jairo Bolsonaro tem as mesmas possibilidades em eventual disputa com Geraldo Alckmin, Ciro Gomes ou Marina Silva. E carrega vantagem ante Fernando Haddad. Mas, tudo isso, não passa de especulação, com explicou a direção técnica do Ibope. Mata-mata é outra história, com recomposições partidárias e novos alinhamentos dos eleitores. 

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