Sociedade

Consenso inútil e intolerância
sectária imobilizam a região

  DANIEL LIMA - 24/09/2018

Tenho urticária quando ouço falar em consenso. Também aos primeiros sinais de intolerância, rezo a todos os santos para me livrar da tentação de entrar na disputa. Prefiro o dissenso construtivo, porque essa é a filosofia deste espaço. Dissenso construtivo seria uma expressão supostamente redundante ou convém tomar os devidos cuidados ao adotá-la porque o uso de palavras conjugadas é mais esclarecedor? 

Todo dissenso que honre as calças éticas é colaborativo e pressupostamente participativo, mas não confundam uma coisa e outra coisa. Consenso colaborativo e pressupostamente participativo não significa adesismo. Até porque, se visto assim, não teria porque chamar-se dissenso. Qualquer coisa fora da bitola de dissenso crítico ingressa na armadilha do politicamente correto do consenso ou na emboscada da intolerância perniciosa. 

A Província do Grande ABC é uma extensão do ambiente político nacional de intolerância quando vista no conjunto da sociedade neste período eleitoral de valores polarizados. Mas também somos consensuais no que chamaria de anomia, de desinteresse agudo pelo próximo, pelo conjunto, por tudo que exclua a própria individualidade. 

Falta capital social 

O suprassumo da cidadania, atributo individual que se espalha sinergicamente, é o capital social, que vem a ser a soma de virtudes propositivas de uma sociedade. Neste espaço se manifesta o dissenso construtivo (vou insistir na especificidade para que não dê espaço aos intolerantes sectários e muito menos aos consensuais improdutivos). 

Capital Social, expressão que reboquei a esta revista digital, vem a ser o equilíbrio entre Governo, Sociedade e Mercado. Nesta Província temos o Governo, em forma de prefeituras, mandando ver com amplo apoio de uma minoria que lhe dá sustentação por motivos geralmente mesquinhos. A Sociedade está morta e esturricada. E o Mercado é majoritariamente de pequenas empresas entregues à própria sorte e minoritariamente de grandes empresas que só estão na região (ainda) por outras razões, sem vínculo de comprometimento social.

Esse é um triângulo das bermudas. Aqui prevalece a Lei ide Murici. Cada um cuidando de si. Sempre foi assim, a bem da verdade, mas houve um momento na história regional que algo parecia conduzir a destino diferente. 

Estou me referindo especialmente ao Fórum da Cidadania do Grande ABC, o maior movimento coletivo que a região já fez emergir, a partir de meados dos anos 1990. O Fórum é uma exceção à regra do que entendo como inutilidade da opção pelo consenso. 

Caminhão de mudanças 

A união de diferentes setores em torno de objetivos tratados como unânimes em preocupação deu ao Fórum da Cidadania a mobilização inicial de que precisava para fazer acordar uma sociedade já à deriva. Quando precisou trocar de vestes, e adotar o conceito mesmo que mitigado de dissenso, o Fórum da Cidadania já era. Perdera o momento da mudança, entre outros motivos porque sua representatividade, descobriu-se então, não passava das cúpulas das instituições que o representavam. O Fórum da Cidadania perdeu o caminhão da mudança quando insistiu no consenso acomodatício, após vigoroso lançamento de mensagem contra a classe política.  

As fragilidades desta região estão muito mais vinculadas nestes tempos às improdutividades dos consensos do que as beligerâncias de posicionamentos antagônicos vorazes, como nos idos de um sindicalismo expressamente indomável e refratário ao capital sem o qual não sobrevive. 

Trocamos os estragos institucionais na região provocados pelos movimentos sindicais mais agressivos (caso específico da manjedoura da dinastia de Lula da Silva) por um anestesiamento completo que levou à conversão dos contrários sob a égide de acertos em geral --- o tal de consenso construído para favorecer exclusivamente os grupos de pressão.

Os poucos influenciadores de opinião que se manifestam com a roupagem do dissenso são muito mal vistos pelos mandachuvas e mandachuvinhas da região, tanto no Executivo quanto no Legislativo. Para não dizer do Judiciário e do Ministério Público.

Omissão completa estrago 

Os opositores a tudo que está aí (inclusive ao consenso patrocinado por vantagens mútuas e a intolerância de quem não tem o que contribuir e perdeu a boquinha das tetas proporcionadas pela política partidária), não têm motivação alguma para ingressarem nas fileiras do dissenso. Eles integram os grupos de omissos, entre os quais não faltam representantes com as malas sempre prontas para desembarcar à direita da manutenção de privilégios ou à esquerda da rebeldia ressentida. 

Poderia citar dezenas de exemplos, fosse ramificado e organizado, o dissenso poderia mudar os rumos da região. Prefiro, por economia de espaço e tempo, citar apenas um. A Universidade Federal do Grande ABC, que custa os tubos em nome da região nas planilhas do governo em Brasília, é de um desperdício atroz. Como bem definiu o especialista em educação Valmor Bolan, a UFABC utiliza-se da barriga de aluguel da região para sustentar-se em benefício de terceiros sem qualquer interesse com o futuro de três milhões de habitantes. 

Os últimos parágrafos poderiam ser definidos como prólogo de um dissenso crítico à atuação da Universidade Federal do Grande ABC. O arrazoado que daria sustentação está fartamente documentado neste site. Não é preciso vasculhar o acervo para sintetizar a inutilidade regional da UFABC: desse mato regional jamais sairá coelho algum de interação com o ecossistema econômico, sobretudo industrial, entre outras razões porque os criadores da instituição a transformaram num modelo que destila teorias mal e porcamente nas passarelas internacionais, enquanto a emergência regional desde muito tempo é um campo aberto a um centroavante de projetos transformadores que gerem tecnologia, emprego e renda. 

Puxando a origem 

Esse exemplo, repito, está na bitola ampla e insofismável de dissenso, que se antepõe ao politicamente correto de consensos que se satisfazem provincianamente de contar com uma universidade pública na região e também com a intolerância daqueles que abominam os gastos públicos para sustentar uma organização cuja maioria dos alunos não tem endereço regional.

Adotei o consenso, o dissenso e a intolerância como vértices comportamentais da sociedade regional (sociedade desorganizada, sempre desorganizada) após ler um artigo de Fareed Zakaria, colunista de The Washington Post, traduzido na edição de sábado do jornal O Estado de São Paulo. Ele se ocupou do consenso e do dissenso para relatar um caso mais que interessante no ambiente universitário norte-americano. Convoquei um terceiro ponto, da intolerância, para puxar a sardinha crítica à realidade regional. 

Um ponto em particular me chamou a atenção no artigo do colunista de um dos principais jornais norte-americanos. Ele relata que, em 1974, William Shackley, cientista vencedor do Prêmio Nobel que, sob muitos aspectos, pai da revolução da computação, foi convidado pelos alunos da Universidade Yale para defender sua tese abominável de que os negros eram uma raça geneticamente inferior que deveriam, voluntariamente, ser esterilizados. Segue o colunista: “Do debate participariam também o líder negro Roy Innis, do Congresso de Igualdade Racial. Houve um tumulto no campus e o evento foi cancelado. Um debate posterior com outro oponente, foi interrompido” – conta o colunista.

Na sequência, relata: “A diferença é que, na época, Yale reconheceu ter cometido um erro ao não garantir que Shockley fizesse sua palestra. E encomendou um estudo sobre liberdade de expressão que ainda é uma declaração transcendental de encorajarem o debate e a dissensão” – afirmou o colunista.

Ambiente construtivo

Agora, completo com parágrafos que me entusiasmaram, e que remeteram à obrigatoriedade de escrever este artigo: “O estudo afirma peremptoriamente que uma universidade não pode considerar como valor primário, e predominante, a fomentação da amizade, da solidariedade, harmonia, civilidade ou respeito mútuo. Jamais deve permitir que esses valores dominem o seu objetivo fundamental. Valorizamos a liberdade de expressão precisamente porque ela oferece um fórum para o novo, o provocativo, o perturbador e o não ortodoxo” – escreveu. 

O ambiente universitário brasileiro predominantemente esquerdista e hostil ao capitalismo transpõe os limites da civilidade e se desloca à intolerância. Na região, esse extremismo ainda não contaminou a sociedade de forma inquietante. Até porque a sociedade está entregue à própria sorte. Coisa de subúrbio intelectual. Mas não se deve desconsiderar os rescaldos do “nós contra eles” instaurados pelos sindicalistas de São Bernardo ao longo dos tempos de disputas trabalhistas. Esse legado permanece camuflado entre nós, como que a ameaçar estender-se muito além do radicalismo sazonal do período eleitoral.

À falta de massa vigorosa de profissionais do dissenso como ferramenta de transformações, a região vive, portanto, entre dois extremos igualmente destrutivos: o consenso dos covardes e aproveitadores e a intolerância contida e sob controle dos corporativistas viscerais e excludentes. 

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