Caso Celso Daniel

Dois anos sem a segunda
maior vítima do assassinato

  DANIEL LIMA - 27/09/2018

Tenho muito a escrever sobre intersecções políticas, administrativas e criminais do caso Celso Daniel, conforme anunciei aos leitores desta revista digital que constam da lista de um aplicativo de celular. Mantenho contato diário direto com esses leitores de pensamentos ideológicos e partidários diversos. É extraordinariamente salutar capturar a sociedade ou representantes da sociedade sem recortes. 

Detesto o redemoinho de versão única, porque geralmente é improdutivo, quando não desastroso. Antecipo aos leitores do aplicativo o que vou editar em seguida nesta publicação, sucessora da revista LivreMercado. De vez em quando me limito a informações que não ultrapassam a virtualidade do aplicativo, sem, portanto, ressonância neste espaço.

Tenho revelações sobre o caso Celso Daniel que vão causar agudo estresse, mas não as farei nesta edição. E tampouco proximamente. Meu compromisso com terceiros é de só expor fatos inéditos quando houver concordância mútua. Em meados do ano que vem, provavelmente, acrescentaria a estas páginas o que já é comprovadamente o mais sólido acervo sobre o caso Celso Daniel. 

Quebrando o lacre 

E, mais que isso: um acervo forjado no trabalho intenso, dedicado e apartidário. Tudo o que os fundamentalistas detestam por duas razões correlacionadas e autofágicas: eles não aceitam nada que fuja da bitola estreita do veredito unilateral de crime político, mas sofrem diante dos argumentos e provas de um jornalista que os enfrenta democraticamente, com liberdade intelectual que o congelamento ideológico e o materialismo oportunista não sabotam.  

O que prometi nos últimos dias no Whatsapp foi uma notícia bomba. E querem melhor notícia-bomba do que um jornalista ter tomado a decisão de quebrar pela primeira vez na vida um segredo da fonte, cláusula pétrea dessa atividade profissional? Pois é isso que farei. 

Só lamento não ter tomado essa iniciativa logo após a morte de Sérgio Gomes. O mesmo Sérgio Gomes a quem o PT deve muito além do que lhe ofereceu em vida, porque o que lhe ofereceu em vida foi um arremedo de resgate da identidade perdida, da vida que se esvaiu aos poucos na medida em que a sanha de inverdades revestidas de investigações irrigou o terreno fértil da especulação sempre implacável da mídia preguiçosa. 

Vou tratar de inúmeros encontros que mantive com Sérgio Gomes da Silva, a quem a força-tarefa do Ministério Público Estadual em Santo André apôs o codinome de “Sombra”. Tudo de forma deliberadamente intencional para estigmatizá-lo junto à opinião pública para plantar, fortalecer e consolidar uma investigação isolada, transformada em versão oficial do crime que abateu o prefeito de Santo André. 

Que versão é essa? Que fora ele, o motorista Sérgio Gomes, primeiro-amigo de Celso Daniel, no banco de passageiro da Pajero abalroada por bandidos pés de chinelos naquela fatídica noite de 18 de janeiro de 2002, o autor intelectual do crime. Nada mais patético, como cansei de escrever ao longo dos tempos. 

Crime anunciado 

Completa-se hoje o segundo ano da morte de Sérgio Gomes. Ele sucumbiu num leito de hospital, atacado por uma doença devastadora. Biologicamente se fora oficialmente. Mas a morte de Sérgio Gomes começou quando à falta de explicações para a negligente política de Segurança Pública (tanto que tudo mudou a partir de então, numa reviravolta que o governador Geraldo Alckmin não cansa de exaltar nas campanhas eleitorais, embora omite a origem), os tucanos partiram para retaliar petistas que, inconsoláveis e agressivos, viram no assassinato do então coordenador do programa de governo do presidenciável Lula da Silva uma consequência lógica do estado de calamidade na Região Metropolitana de São Paulo. As eleições naquele 2002 já estavam pautando os políticos. Sequestros eram corriqueiros, como provam os jornais daquele período. O publicitário Washington Olivetto fora trancafiado durante 53 dias.  

Volto ao ponto principal, o da bomba de romper o lacre do sigilo da fonte a que me imponho sempre, custe o que custar, seja quem for a fonte, amiga hoje, adversária ou inimiga amanhã. Os princípios de fidelidade às informações que recebo já me custaram muito caro, inclusive a criminalização de textos por um bandido social desmascarado em seguida, mas ainda a nadar de braçadas num País de engravatados impunes. 

Enquanto políticos usam e abusam do direito de esculhambar adversários e, também, muitos jornalistas não têm o menor pudor em testar ao extremo os limites da liberdade de expressão, tornei-me alvo preferencial de arremetidas totalitárias no campo jurídico. 

Relativizando a ética 

Por que cheguei à conclusão que, ao decidir revelar os diálogos que mantive com Sérgio Gomes da Silva, estaria prestando uma homenagem, ou melhor, uma intransigente defesa da honra do convívio que ele teve com o prefeito Celso Daniel e com o Partido dos Trabalhadores? 

Simplesmente porque a história precisa ser contada por inteiro. Fragmentos mantêm a couraça que protege versões conflitantes, sustenta certezas costuradas com fios de mentiras e meias verdades e estimula idiossincrasias abomináveis. 

A medida seguramente mais responsável que este jornalista poderia tomar – e já a tomei inclusive ao gravar depoimento a salvo de terceiros eventualmente mal-intencionados – sustenta-se na imperiosidade de se colocarem ao público aspectos jamais revelados. Entendia, até então, que estariam protegidos pela ética.

Mas a relativização e a contextualização da ética em favor do emissor original de informações, no caso Sérgio Gomes da Silva, tornaram-se obrigatórias. Como poderia manter em segredo informações que pesaram consideravelmente na convicção e nos textos em que argumentei que Sérgio Gomes da Silva fora vítima de uma armação política? 

Pobres empresários 

Dois anos sem Sérgio Gomes da Silva se completam hoje. O tempo passa a tal velocidade que num primeiro comunicado aos leitores que recebem informações nos smartphones imaginei que seria o primeiro aniversário. Embora deteste velório a ponto de não me imaginar presente nem mesmo ao de meu próprio corpo, fui uma das poucas pessoas que acompanharam à cremação de Sérgio Gomes no Jardim da Colina. 

Restaram-lhe poucos amigos.  Bem diferente dos tempos em que era o homem de confiança de Celso Daniel. Sérgio Gomes virou caricatura nas investigações do Ministério Público Estadual. Ele era um homem bem diferente da imagem compulsoriamente induzida do “Sombra”, portador de arma de fogo para achacar os pobres e ingênuos empresários do setor de transporte coletivo em Santo André. Gente comprometidíssima com os usuários e com o orçamento público. Gente que sempre colocou a filantropia em primeiro lugar. 

Quanta mentira, quanto hipocrisia, quanta desumanidade contra um petista que morreu sem também ter tido o amparo moral do próprio partido a que serviu. 

Deixaram-no às feras insaciáveis. Dois anos sem Sérgio Gomes talvez representem um marco de satisfação aos algozes e de alívio aos aliados. Faltou combinar com os russos. No caso, este jornalista. 

Aguardem que o futuro próximo será extraordinariamente reconfortante para quem estava perdendo de nove a um e agora vê a possibilidade de um empate no placar final. Um tremendo lucro. O domínio público fomentado pelo Ministério Público Estadual de que Sérgio Gomes fora um cruel traidor de Celso Daniel é uma fortaleza que não resistirá à verdade. 

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