Política

Bolsonaro faz mais um gol
no mata-mata presidencial

  DANIEL LIMA - 16/10/2018

Recorro mais uma vez à metáfora futebolística (na verdade, este texto é sequencial ao de oito de outubro e de tantos outros desta temporada eleitoral) para informar ao distinto público que o jogo único do mata-mata presidencial entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad está quatro a zero para o capitão reformado e agora só resta o segundo tempo de disputa. Bolsonaro joga em casa com o apoio da torcida porque fez melhor campanha na competição, na fase classificatória do primeiro turno. 

São 45 minutos que deverão confirmar o que suspeitava muito antes do primeiro turno classificatório ser apurado nas urnas eletrônicas: o resultado final será uma goleada. Sobretudo porque na condição de mandante do jogo decisivo e com a vantagem acumulada na competição, Bolsonaro faz jogo taticamente correto. Comete poucos erros. 

Já o adversário, em desespero, até trocou de uniforme antes do embate final, além de mandar o treinador para os vestiários, longe dos olhos do público. A troca do uniforme confundiu as bolas e a própria torcida já não sabe se o time que voltou para o segundo tempo não é um genérico ou um bando que se apossou da matriz. Quanto ao treinador tirado do banco de reservas, fala-se que dispõe de instrumentos eletrônicos para monitorar e orientar a equipe, ou mesmo se manifesta por mensageiros em carne e osso.  

Placar mais extravagante 

As novas pesquisas sobre o andar da carruagem do segundo turno (e vou me ater às da Datafolha e do Ibope, queridinhas da grande mídia na propagação de resultados e de análises) não deixam margem a dúvidas: o que o ambiente eleitoral do primeiro turno indicava em flagrante colisão com os números divulgados sistematicamente para conter o avanço de Jair Bolsonaro, recheados de falsidades em termos de rejeição, está se consumando solidamente. 

Os atuais 59% a 41% no placar de votos válidos anunciados pelo Ibope (e anteriormente pelo Datafolha praticamente iguais) possivelmente serão ainda mais extravagantes nas próximas sondagens ou, em último caso, na apuração das urnas. Ainda me recuso a apontar o resultado final do embate (deixaria para quinta-feira da semana que vem). Precariamente, diria que o resultado seria de 63% a 37%. Vamos aguardar. 

Bolsonaro caminha para uma vitória consagradora. Deve-se entender vitória consagradora como síntese de um processo reativo de um País que, finalmente, oferece a esperança de que nos livrarmos de um modelo de gestão pública incrementador de desigualdades econômicas que se traduzem em desigualdades sociais.  

A sociedade em larga margem cansou da democracia em frangalhos que os políticos deixaram como herança maldita depois de 30 anos. Todos querem uma democracia muito além do direito sagrado de votar. Se Bolsonaro é a resposta, é outra história. Por enquanto basta que seja um grito de revolta. 

A centro-direita fortaleceu-se tremendamente nestas eleições. Tanto que no campo político-partidário, com repercussão na gestão pública e nos conceitos de liberalismo econômico, teremos potencialmente um jogo mais equilibrado. Chega de estatismo como sinônimo mais que frustrante de progresso econômico e social.    

Reduzindo diferença 

Acompanhei atentamente as observações de cronistas políticos nas últimas horas após a divulgação dos resultados do Ibope. Fiquei atentíssimo aos detalhes. Daí concluir que Bolsonaro aumentou para quatro a zero o placar do mata-mata único, aproximando-se da consagração. 

O crescimento no Nordeste, única área do País em que está em desvantagem, sinaliza que a estratégia bolsonarista está a caminho do equilíbrio regional que faltou no primeiro turno. Quanto menor a diferença de Bolsonaro em relação a Haddad naqueles nove Estados da Federação, maior a vantagem geral do capitão reformado apoiado maciçamente no Sudeste, no Sul, no Centro-Oeste e relativamente no Norte. 

O programa político em rádio e televisão instalou a campanha de Bolsonaro onde o domínio absoluto exercido nas redes sociais, principalmente do aplicativo Whatsapp, não alcançou: os interiores do Nordeste, principalmente, começam a contar com o contraditório. O PT não está mais jogando sozinho naquela área. Se cinco capitais do Nordeste deram vitória a Bolsonaro no primeiro turno, não é de se duvidar que o espraiamento do voto urbano em direção ao Interior leve pânico final ao petista Fernando Haddad.  

Jogando no contragolpe 

O time de Jair Bolsonaro começou o mata-mata na retranca e da retranca não deverá sair porque não lhe convém. Jogar na retranca não significa que o espaço da comunicação não esteja sendo ocupado de forma agressiva, em contragolpes. É possível ocupar o campo de ataque sem se descuidar do sistema defensivo. É o que a campanha de Bolsonaro vem desempenhando. Como tem o controle tático do jogo, algo que chamo de “domínio da narrativa”, do qual não abre mão, pode e está dando o ritmo ao jogo conforme lhe interessa. 

O PT precisa atacar porque está em desvantagem arrasadora, mas encontra poucos flancos para aplicar golpes. A saída são os debates, mas o time de Bolsonaro já compreendeu que não pode cometer infrações próximas da grande área e tampouco proporcionar escanteios. As bolas paradas podem ser mortais. Os debates são bolas paradas que favorecem o time que mais ataca e que, ante a barreira defensiva do adversário, procura a saída em jogadas previamente combinadas, treinadas e geralmente mortais.  

Tudo indica que o time de Jair Bolsonaro não dará oportunidade alguma de ser surpreendido nas bolas paradas dos debates. O sistema defensivo monolítico funciona muito bem com a bola em jogo, porque as jogadas ofensivas do adversário já foram esquadrinhadas pelos analistas de dados. Campanhas eleitorais são uma constante repetição de argumentos, provas, agressões e tudo o mais. É a bola em jogo, numa tradução simples. 

Cuidando a vantagem 

Contra esse arsenal há sempre antídotos que geralmente neutralizam os efeitos deletérios. Para quem chegou a um mata-mata com o domínio no placar de forma tão cristalizada, não há porque aceitar as regras de um jogo de conveniência do adversário. A campanha de Bolsonaro parece atentíssima às possibilidades de estragos. E não abre mão do contragolpe em forma de debilitação de forças do adversário. Martela sem vacilar a corrupção sistêmica patrocinada pelo partido (deixa de lado os aliados) e evoca a segurança pública como peça-chave à sedução dos eleitores. Minimiza o quanto pode questões de costumes pautadas pelo adversário. 

Rejeição inflacionada 

O índice de rejeição ao candidato petista é muito superior ao de Jair Bolsonaro: 47% a 35%. Desde o primeiro turno seria possível afirmar que não havia base sólida que os colocassem no mesmo patamar ou, pior ainda, Bolsonaro acima do petista. 

O Ibope cansou de repetir que não havia fundamentação técnica à própria projeção, mas ninguém levou a explicação a sério. Pelo contrário: massificou-se a ideia de que Jair Bolsonaro era o diabo a ser combatido. Tudo tinha um endereço certo: tirá-lo do segundo turno porque ele representaria um perigo não necessariamente à democracia mequetrefe que temos, mas aos poderosos de sempre que tucanos, emedebistas e petistas cultivaram desde a redemocratização.

Os mandachuvas e mandachuvinhas do País só não combinaram com os russos da facada que alterou o roteiro previamente discriminatória ao candidato de origem militar. Subestimou-se os efeitos eleitorais do ataque em Juiz de Fora. Principalmente os acadêmicos sem cérebro, porque congelados ideologicamente.  

Quem acha que pesquisas eleitorais, especificamente do Datafolha e do Ibope, são absolutamente intocáveis como fontes de informações confiáveis, deveria ler alguns parágrafos da notícia de hoje do Valor Econômico sobre os números anunciados ontem. Vejam: “Bolsonaro e Haddad foram eleitos para o segundo turno, no dia 7, com 46% e 29% dos votos válidos, respectivamente. As pesquisas do Ibope realizadas antes do primeiro turno apontavam uma disputa na segunda fase mais equilibrada, com empate técnico entre os dois candidatos. Agora, Bolsonaro segue em posição bem mais confortável, segundo a amostragem de ontem”.  

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