Sociedade

Municipalismo forte pode
abrir portas do regionalismo

  DANIEL LIMA - 01/11/2018

Como o mundo gira e a Lusitana roda, estou menos descrente da possibilidade de a região passar por processo de fortalecimento institucional que as limitações e os comprometimentos dos grupos políticos municipalistas e as mídias convencionais restringiram excessivamente.  

Não tenho dúvida alguma de que nos próximos tempos, por força da tecnologia de comunicação que cabe na palma de uma mão, a região ganhará mais tônus de empoderamento municipalista, saindo de um histórico de agrupamentos privilegiados de controle da sociedade com evidente prejuízo à regionalidade. 

Teremos de passar pela água salgada do purgatório do mar para chegar à água doce da redenção do rio. 

A campanha eleitoral que transformou um desconhecido deputado federal chamado Jair Bolsonaro em presidente da República contra tudo e contra todos, estimula otimismo que não pode ser classificado como ingenuidade: depois do municipalismo mequetrefe ao longo dos tempos, mas que será diferente mais adiante, virá um regionalismo valente, decidido, fazedor de resultados eleitorais pela simples razão de que os leitores também consumidores e eleitores descobrirão que vivem num espaço territorial especial que não permite soluções sem integração. 

Dono da informação 

Como leio de tudo e faz muito tempo (alguém muito próximo zombou de minhas investigações como espião de grupos bolsonarista e petistas e caiu do cavalo porque antecipei a força das redes sociais e de aplicativos como Whatsapp nos resultados finais), outro dia captei uma declaração que, se não me falha a memória, tem como autor o pastor Silas Malafaia, apoiador de Bolsonaro. 

Malafaia quis dizer mais ou menos o seguinte: as mídias tradicionais caíram do cavalo ao darem tratamento hostil ao candidato pesselista porque subestimaram a opinião pública manifestada em milhões de aparelhos celulares habilitados a frequentar o mundo mais interativo da informação. 

Cada brasileiro conta hoje com uma emissora de rádio e de televisão à mão, disse mais ou menos assim o pregador. Nenhum sociólogo ou antropólogo, muito menos os marqueteiros de plantão e os cientistas políticos, tampouco os próprios políticos, definiram tão bem a democratização da opinião pública. 

Tenho nos arquivos declarações que subestimaram o tempo todo o fenômeno Bolsonaro. O mundo da intelectualidade, sobretudo da academia, não é o mundo em que vivo. Eles, os intelectuais, preferem espelhos. Descartam o contraditório. 

Lembro apenas aos políticos e futuros políticos que a democratização dos meios de informação em detrimento do monopólio plutocrata das grandes corporações de rádio e de televisão e também dos jornais não tem força alguma, ou tem força rarefeita, se não for acompanhada de projeto que atenda à demanda pragmática da sociedade. Quem planta ilusões não sabe o quanto está indexando o próprio futuro à solidão da derrota. 

Ensinamento de Bolsonaro

Quem entender que basta invadir celulares de eleitores para assegurar voto vai cair do cavalo. A sociedade jamais tão participativa não aceitará falsidades programáticas. A vigilância múltipla entre os eleitores nessa grande rede de comunicação desqualificará os afoitos ou espertalhões. Mensagens sem conteúdo contextual não atingirão objetivos pretendidos. As fake news também já são mais facilmente identificadas. O brasileiro em geral está mais qualificado como eleitor. O aprendizado é diário, mesmo com distorções e polarizações. 

Tudo isso quer dizer que quem correr atrás ou se submeter aos desígnios de marqueteiros sem conhecimento agregado sobre o território em que se pretende plantar os votos de amanhã ou assegurar os votos de anteontem vai dar com a cara na porta. 

É claro que contar com gente que sabe traduzir em mensagens de impacto o que os especialistas destrincham em estudos e observações é sempre importante, porque a síntese impacta diretamente o cérebro dos eleitores em forma de alimento da fidelização ao concorrente eleitoral. 

“Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” foi uma senhora tacada, que sintetizou literalmente o espírito da campanha de Jair Bolsonaro. Havia e continua a existir uma correnteza de esperança de dias melhores. Mas não se vive apenas de mote. 

Identificação maior 

A vitória de Jair Bolsonaro não se deve a um ou outro fator específico, mas a um conjunto de acertos que, inclusive, restringiram os danos colaterais dos erros também torrenciais. Erros que, praticados no ambiente municipal, dificilmente escapariam à degola do candidato. O microcosmo local é mais impiedoso porque há mais identificação entre os ocupantes do mundo digital. 

Embora ainda entenda que a pregação municipalista seduziria mais os eleitores que se entregarão às mídias sociais de forma mais intensa (não existe outra possibilidade no horizonte de observação senão a massificação desse instrumento de sedução eleitoral) não está descartada a possibilidade de crescimento, mais breve do que se imagina, da camada de regionalistas práticos pressionar o conjunto dos governos municipais.  

Vejam o caso de Santo André, cujos estudos indicam penúria de descarte temporal de capital humano. Como assim? Ora, se mais de 50% da População Economicamente Ativa de Santo André trabalha em outros municípios da região e também na Capital, o que temos é uma fuga de cérebros agregadores de cidadania municipal com interações no cotidiano. 

Entretanto, como esses desertores involuntários vivem de alguma maneira modalidades de regionalidade, na área de transporte, por exemplo, e, principalmente, nas vicissitudes econômicas, eles sentem na pele e no esfacelamento do próprio convívio familiar que seus problemas e preocupações vão muito além do local de domicílio. 

Evasão do municipalismo 

Santo André não está isolada na desconfiguração do vínculo entre emprego e moradia. Os demais municípios da região também sofrem com situação semelhante, embora menos ostensivamente grave. Somos literalmente um bicho de sete cabeças à procura de um rumo em comum. Somente uma institucionalidade municipalista forte e coesa, tendo como amalgama pressupostos tangíveis de regionalidade, daria respostas esperadas. 

 O prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Orlando Morando, tratou de dinamitar essa cidadela já duramente impactada pelo municipalismo rastaquera que um dia será demolido pela participação popular. Quem sabe o engajamento municipalista premido mesmo por um ensaio de lideranças regionais não altere as peças desgastadas desse jogo? 

Já escrevi muito sobre o assunto (enquanto a mídia simplesmente ignora a importância de destilar conceitos de integração regional para sensibilizar os gestores públicos e a sociedade como um todo) mas não custa repetir: na medida em que houver aproximações municipais sobre temas que implicam de maneira decisiva na qualidade de vida, estaremos construindo uma plataforma de embarque mais ampla tanto no território local quanto regional. 

Trataremos dessa temática mais intensamente nos próximos tempos. E a bem da verdade, os sinais de que tudo se alteraria na medida em que a opinião pública seria ampliada e seria exercida longe das mídias tradicionais, ficaram patentes durante a escorregadela do prefeito Paulinho Serra em tentar empurrar goela abaixo dos contribuintes um assalto em forma de aumento do IPTU. 

Na próxima semana vou provar como que aquele desatino administrativo colocou a gestão tucana em Santo André aquartelada, até que se rendesse às evidências econômicas e à pressão popular.

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