Economia

São Caetano precisa descobrir
por que perdeu tanta riqueza

  DANIEL LIMA - 14/11/2018

Por essa nem eu mesmo esperava. E quando digo nem eu mesmo esperava quero dizer que, por mais que investigue a economia da região (sempre de olho no Brasil e no mundo, porque não sou provinciano) me preparo para alguma surpresa. A surpresa da vez é que nenhum Município da região (e estou perscrutando os demais endereços que integram o G-22) sofreu abalo sísmico tão intenso no emprego industrial nos 36 meses mais terríveis da economia do País (entre janeiro de 2015 e dezembro de 2017) como aquele que é considerado a principal concentração de classe média da Região Metropolitana de São Paulo.

São Caetano sofreu gigantesca quebra de riqueza porque é a indústria que move para valer a economia da região – ainda e por algum tempo, até que perca mais e mais participação relativa, como vem perdendo ao longo das últimas três décadas. 

Uma perda do tamanho que vou explicar na sequência não foi descoberta por ninguém. Sou o descobridor não diria tardio, mas exageradamente depois do que aceito como período para levantar dados inéditos. Diante do que será exposto, só existe uma saída a meu ver: o prefeito José Auricchio Júnior tem de convocar os sabichões da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), sobretudo do departamento que recentemente lançou série de estudos. 

Reação exige urgência 

A chamada deve ser urgente: eles, os acadêmicos, precisam ir a campo com uma pesquisa emergencial. E que respostas buscarão? O guarda-chuva é inexorável: por que São Caetano perdeu tanto emprego industrial formal em 36 meses? 

Seria essa uma tendência? Sei que sei que nos primeiros nove meses deste ano houve recuperação, com saldo positivo de contratações no setor de transformação industrial. Seria isso suficiente? Seria uma nova tendência ou apenas um voo de galinha?

Duvido que o prefeito de São Caetano, ao tomar conhecimento destes novos números, não reaja para valer. Se José Auricchio Júnior deixar de chamar assessores para vasculhar tudo que for possível para buscar as raízes da hecatombe do período em que o Brasil foi comandado por Dilma Rousseff e também por Michel Temer, qualquer possível novo dilúvio econômico não encontrará obstáculo nenhum. 

Sabem os leitores quantos empregos industriais com carteira assinada São Caetano viu desaparecerem durante o período mais tenebroso do País em todos os tempos? Os números absolutos não dizem nada. O que vale mesmo são os números relativos. 

Estratosféricos números relativos: de cada 10 empregos industriais que São Caetano detinha em dezembro de 2014, sobraram apenas seis em dezembro de 2017. Dados oficiais do Ministério do Trabalho. Ou seja: 40% desapareceram. Somente municípios especialmente impactados pela crise do setor petrolífero no Estado do Rio de Janeiro contam com resultados semelhantes. 

Situação exclusiva

Não há nada parecido na geografia regional. A média de destruição do emprego industrial na região no período foi de 23,69%. São Bernardo sofreu baixa de 20,55%, Santo André de 26,85%, Diadema de 24,87%, Mauá de 14,48%, Ribeirão Pires de 16,21% e Rio Grande da Serra de 5,49%. 

Em dezembro 2014 a região contava com 238,722 empregos industriais de um total geral de 818.831, com participação relativa de 29,15%.  Em dezembro do ano passado os empregos industriais não passavam de 182.169 de um total geral de 728.957. A participação relativa caiu para 24,99%. Uma queda e tanto. São Caetano potencializou esse desastre com queda de 40%. 

É bom repetir esse número à exaustão, porque algumas decisões precisam ser tomadas pelo Poder Público. Não que os demais municípios da região dispensem cuidados. Distante disso: todos, ou quase todos, colecionam derrotas comprometedoras que instalaram a crise regional relativamente muito acima da crise nacional. Ou alguém esqueceu que dependemos demais da indústria automotiva, cada vez mais investidora em tecnologia e cada dia mais pressionada pela concorrência extra região? 

Perto de Santo André 

Os 40% de quebra do emprego industrial colocou São Caetano próximo de Santo André em participação relativa do setor. Em dezembro de 2014 São Caetano contava com 23,40% dos trabalhadores registrados no setor industrial, contra 15,50% de Santo André. Eram 26.410 carteiras assinadas contra 33.439 de Santo André. Números absolutos não querem dizer muita coisa. Os 33.439 empregos industriais de Santo André em dezembro de 2014 se contrapunham ao total de 198.298 carteiras assinadas em todas as atividades. E as 26.410 carteiras assinadas no setor industrial de São Caetano se contrapunham a 112.826 empregos em geral. 

A proximidade de números relativos do emprego industrial entre Santo André e São Caetano surgiu em dezembro de 2017: enquanto Santo André perdeu quase três pontos percentuais (de 15,50% para 12,35% no período de três anos), São Caetano mergulhou quase oito pontos percentuais, de 23,40% para 15,29%. 

Nenhum Município da região sofreu tanta perda relativa como São Caetano no mesmo período: o emprego industrial de São Bernardo caiu de 32,12% para 29,40%), o de Diadema de 49,29% para 44,85%, o de Mauá de 35,98% para 32,22%, o de Ribeirão Pires de 32,16% para 31,03% e o de Rio Grande da Serra até subiu, de 40,63%para 41,34%.

Enigma a decifrar 

Esses números remetem a uma cobrança repetitiva: as autoridades públicas e os estudiosos de São Caetano têm o dever de entender esse jogo de transformações e buscar respostas para produzir soluções. 

O que poderia ter ocorrido nesses 36 tenebrosos meses entre janeiro de 2015 e dezembro de 2017? Desconfia-se de eventual enxugamento das linhas de produção da General Motors do Brasil, fábrica da qual São Caetano depende grandemente na arrecadação de impostos. E o entorno cada vez mais fragilizado de pequenas e médias empresas industriais, quão teria sucumbido às intempéries econômicas? 

Instituições públicas que contam com portas abertas para colher dados precisam ir a campo. O empobrecimento industrial de São Caetano fugiu da linha convencional que atinge a região como um todo. Trata-se de deslocamento inquietante. Um total de 10.566 empregos industriais desapareceu em três anos.  

O agravamento latente do emprego industrial em São Caetano comporta mais pitadas de terrorismo, no bom sentido de terrorismo. Mesmo sem considerar a inflação entre janeiro de 2015 e dezembro de 2017 (IPCA de 19,62%), o montante médio do assalariamento dos trabalhadores no setor sofreu igualmente com a quebra de valores. Em dezembro de 2014 o salário médio industrial em São Caetano era de R$ 3.922,66. Já em dezembro do ano passado caiu para R$ 2.869,89. Uma diferença para baixo (sem considerar a inflação) de 26,84%. Os números são oficiais, do Ministério do Trabalho. 

Quando se aplica a inflação do medidor do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o salário médio industrial de São Caetano teria de ter chegado a R$ 4.692,28 em dezembro de 2017. Como alcançou R$ 2.869,89, a diferença passa a 38,83%. Ou seja: São Caetano sofreu duplamente com perda de postos de trabalho e de ganho efetivo no assalariamento. Uma combinação perversa. 

Milhões de perdas 

Se desgraça pouca é bobagem, vejam agora o tamanho do estrago. Quando se multiplica o salário médio industrial de dezembro de 2014 pelo total de trabalhadores do setor (26.410), chega-se ao montante de R$ 103.597.450,60 milhões. Três anos depois, salário médio de R$ 2.869,89 multiplicado por 15.844 trabalhadores industriais, o montante alcança R$ 45.470.537,16 milhões. A diferença monetária é de 58.126.913,44 milhões. Isso mesmo, e para apenas 30 dias de atividades econômicas. Experimente multiplicar por 12 meses. Experiente atualizar os números pela inflação daquele período. É estarrecedor mesmo. 

Confesso que estou encafifado com o salário médio industrial de São Caetano. Me parecem bastante estranhos. Mas os números estão nas planilhas do Ministério do Trabalho. Tanto quanto dos demais municípios da região. O salário médio de São Caetano em dezembro de 2017 é menor que os R$ 2.992.87 de Ribeirão Pires, os R$ 3.638,23 de Diadema, os R$ 4.007,27 de Mauá, os R$ 5.839,72 de São Bernardo, os R$ 4.154,23 de Santo André e um pouco acima dos R$ 2.775,69 de Rio Grande da Serra. 

Ainda não arredei pé da ideia de que talvez o Ministério do Trabalho tenha cometido algum erro na transposição dos números. A queda de 26,84% sem considerar a inflação é demais. A Prefeitura de São Caetano e a USCS têm obrigação de oferecer respostas. Se não derem bola a esse questionamento, possivelmente teriam perdido o rumo. 

Aliás, houvesse na Prefeitura de São Caetano (e nos demais municípios da região, para não falar do Clube dos Prefeitos), um cuidado maior com o andar da carruagem da economia regional, não seria preciso que um jornalista saísse à cata de dados. Só não posso analisar profundamente sem contar com informações microeconômicas. Passou um vendaval por São Caetano, isso está posto com clareza. Resta identificar a fera em detalhes, porque o macroproblema continua a se chamar desindustrialização. Só que esse tipo de desindustrialização, abrupta, profunda, contundente, é de lascar. 

Leia mais matérias desta seção: