Sociedade

Democracia de araque é a
herança da Nova República

  DANIEL LIMA - 20/11/2018

Peço aos leitores que, antes de me julgarem pelo título acima, porque estou pronto a julgamentos, esperem um pouco. Não é a primeira vez que uso a expressão “democracia de araque” ao me referir às instituições deste País. Ou o leitor caiu no crime da mala de acreditar que basta comparecer às urnas a cada dois anos para se consumar essa modalidade de suposta consagração da cidadania?

Nem levem em conta as frustrações profissionais (que, paradoxalmente, são a consagração de uma carreira sem rabo preso com quem quer que seja), como a de ser condenado por um magistrado que não entende nada de liberdade de expressão com fundamentação, mantendo impune um notório bandido social.

Não avoco a individualidade pessoal para reafirmar que vivemos numa democracia de araque, mal-administrada por vagabundos e oportunistas que assumiram a chamada Nova República e deixaram de herança tudo o que está aí.

Baboseira tupiniquim

Nova República é uma baboseira tupiniquim cuja autenticidade foi nos esfregada na cara na última eleição presidencial. Ganhou um candidato sem lastro, exceto de idoneidade (e quanto isso faz diferença no ambiente putrefato da política!!!), porque o povo cansou de todos os tipos de roubalheiras e incompetências de gente que até outro dia, e ainda hoje, é venerada por parte substancial da imprensa sempre servil.

A mesma imprensa que, mesmo ao publicar no passado recente a lista de doadores de campanhas eleitorais, não enxergava a maracutaia que a Operação Lava Jato destrinchou. Para desgosto, inclusive, de coleguinhas da mídia malcheirosa. Não é mesmo Reinaldo Azevedo?

Mas vamos ao que interessa para justificar e explicar a retomada de uma expressão que choca de verdade. E há de chocar mesmo, por que o que seria do mundo se não houvesse quem, sustentado por fatos e percepções, não se acovarda na tarefa de impactar quem o acompanha?

Saiu discretamente num e noutro jornal (e quantos jornais são responsáveis por tudo o que está aí porque se deixaram levar pelos bandidos sociais da Nova República?) um resultado contundente sobre o nível de confiança interpessoal no Brasil.

Uma calamidade de resultado anunciado pela chilena Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, que realiza anualmente pesquisa sobre o desemprenho da democracia em 18 países da América Latina.

Desconfiança generalizada

Para Marta Lagos, os brasileiros apresentam o menor índice de confiança interpessoal, com apenas 4%. Explica a dirigente que somos uma sociedade em que basicamente um não confia no outro, em que a confiança está se voltando apenas a pequenos grupos, como os familiares. É muito perigoso esse processo porque destrói a possibilidade de se construir cidadania, explicou Marta Lagos. E acrescenta: “Fica-se com a sensação generalizada de que todos devem defender-se contra todos. E se a confiança no outro vai mal, muito pior vai a confiança em instituições e no Estado” -- disse.

Quem me acompanha atentamente (os ocasionais metidos a besta não entram nessa contabilidade, porque são rasos e agressivos na ignorância agregada) sabe que nem pisquei os olhos ante essa constatação empírica.

Se existe um espaço territorial no País que cabe à perfeição no resultado apresentado, de completa ausência de confiança interpessoal e nas instituições, não tenham dúvida que é a Província do Grande ABC.

Covardia enraizada

Diria sem margem de erro que aqui se pratica, generalizadamente, a mais torpe das covardias sociais, que é a covardia graduada em que mandachuvas e mandachuvinhas impõem as regras que as instituições avalizam.

O caso profissional que me envolve com aquele bandido social é emblemático. Outros, menos conhecidos, são a regra geral.

Mas, avanço com a pesquisa do Latinobarómetro. Uma sociedade sem cidadania, ou de cidadania rarefeita (deixada pelos protagonistas e asseclas da Nova República que somente os bandidos sociais seriam capazes de defender) não teria outro retrato mais apropriado que a insatisfação generalizada com as condições de vida.

A dirigente daquela instituição fez um diagnóstico contundente sobre isso: “A queda de satisfação dos brasileiros com suas condições de vida caiu quase 20 pontos desde 2010, isso é algo muito acentuado. Creio que isso explica a eleição de Bolsonaro mais do que o desgaste do PT ou os escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato. (...) Os que se encontram mais insatisfeitos são aqueles que ficaram estancados no meio do túnel, ou seja, os que começaram a ter uma melhora de vida no começo dos anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas que não chegaram a sair do túnel, ficaram presos na escuridão e são os mais prejudicados” – declarou à Folha de S. Paulo.

Só faltou explicar (talvez a dirigente não saiba em detalhes) o que significou na prática a metáfora “não chegaram a sair do túnel”. Trata-se de coisa simples: a chamada nova classe média que os esquerdistas de sempre inventaram para divinizar o governo Lula da Silva não passou de um cartão de crédito de despesas além da conta que não levou em conta a data de vencimento e o inferno astral determinados pelo fim da bonança das milionárias transações de commodities, principalmente com o mercado asiático.

Democracia em crise

A democracia em baixa não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, embora aqui seja mais acentuado o sentimento de frustração. Segundo explicou a dirigente do laboratório, houve na América Latina um dos mais acentuados retrocessos da confiança na democracia desde que o levantamento começou a ser feito, em 1995.

Somente 5% dos entrevistados na região dizem acreditar que seu país vive uma democracia plena, enquanto 45% afirmam que as democracias em que vivem possuem grandes deficiências. Somente 20% dos latino-americanos acham que seu país está progredindo. E aumentou o número de cidadãos que afirmam não acharem que vivem em sociedades democráticas. “Isso se deve, entre outros motivos, à radicalização de regimes como o venezuelano e o nicaraguense”, afirmou Marta Lagos.

Ainda segundo as pesquisas do observatório, o Brasil aparece com apenas 10% de satisfação com a democracia. Na Argentina, o apoio à democracia é de 59%; no Uruguai, sempre um dos campeões nesses levantamentos, são 61%.

O viés de leitura transversal (é impossível ler o que quer que seja sem me colocar sociologicamente na região como espécie de referencial a reflexões) me obriga a imaginar o que diferenciaria a percepção dos moradores locais em relação aos resultados do País e da América Latina pesquisada.

Sem ser pessimista, diria que o uso de metodologia semelhante nos provocaria a todos um golpe possivelmente derradeiro na arrogância com que se pretende vender a imagem regional pelos vagabundos de sempre.

Essa gente – ou seja, esses vagabundos sem compromisso algum com a sociedade desorganizada que alguns têm a petulância ou a ignorância de dizer que se trata de sociedade organizada – vive numa bolha de proteção e conveniência mútuas, cujo objetivo é extrair o que resta de possibilidade de mudanças significativas no ambiente regional.

Retardatário nacional

Estamos à deriva desde muito tempo mas vivemos nestes últimos anos, sobretudo com o fim da farra das burras temporalmente cheias dos cofres públicos a reboque da algazarra das commodities, uma situação de calamidade pública em todos os sentidos.

A Sodoma e Gomorra ética e de competência da região precisa ter fim, mas não tenho dúvida de que, se o Brasil iniciar uma nova etapa de recuperação econômica, sob o guarda-chuva de um liberalismo social, nós seremos os últimos a entender o novo jogo. Seremos retardatários de um novo fluxo comportamental.

Afinal, como nos livrar de um sindicalismo antiquado, de gestores públicos incapazes de soletrar algo que seja reconhecido como inovação, e de uma sociedade inteiramente amorfa, acovardada e ignorante?

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