Política

Lava Jato Paulista pode mudar
rumo das eleições municipais

  DANIEL LIMA - 04/12/2018

Diante de tudo que se projeta pós-chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto e, sobretudo, pós-desembarque do juiz Sérgio Moro no Ministério de Justiça acompanhado de uma elite de colaboradores egressos da Operação Lava Jato, não é desperdício olhar para o horizonte das eleições municipais em 2020 com um plano alternativo, fora do esquadro de probabilidades atuais.

Que seria um plano alternativo? Ora, seria um quadro de complicações criminais envolvendo grande número de agentes políticos locais. Gente que já está enroscada com os federais e gente que está na marca de pênalti dos federais. Gente, portanto, que se assombra com a possibilidade de ser chamada às seis de la matina.

Talvez o que poderia salvar as lavouras contaminadas de agrotóxicos de caixa dois e assemelhados de postulantes às sete prefeituras da região seja a pouco importância da Província do Grande ABC no cenário político nacional. Não me venham com a conversa fiada de que somos importantes tanto na política quanto na economia que isso já não cola.

Na economia somos menos de 2% do PIB Nacional. Dois por cento é quase nada. Basta dar uma espiada nos países que contam com mais ou menos isso no PIB Mundial e vejam como são irrelevantes no noticiário internacional.

Na política, nem com a quase uma década e meia de Lula da Silva no comando direto e depois indireto de Brasília e muitos territórios a região saltou para o estrelato, exceto no campo criminal.

Subalternidade construída 

A subalternidade territorial e cultural da região são empecilhos a um salto de qualidade e de visibilidade no cenário nacional. Somos uma sombra pálida da Capital. Outrora, nos tempos de industrialização esfuziante, até que fazíamos marola. Tínhamos até sucursal da Agência Estado e do jornal Estadão em Santo André, onde trabalhei por muito tempo. Quando as indústrias se foram, a sucursal foi desativada. Nossa importância para a mídia nacional está diretamente relacionada às desgraças cotidianas.

Uma Favela Naval aqui, um Celso Daniel ali, uma enchente renitente como a da última semana, só isso interessa à grande mídia.

Nem as montadoras de veículos e os metalúrgicos revoltosos são estrelas como antigamente. A concorrência é grande e a maioria das fábricas do setor está em outros territórios estaduais. Os metalúrgicos dos tempos de Lula da Silva hoje não são nada no noticiário.

Os metalúrgicos mudaram de tática e fazem guerras de guerrilhas silenciosamente no chão das fábricas, nos chamados comitês de fábricas. Ali eles controlam tudo. Inclusive o lucro “dos patrões”. Ou você ainda não entendeu por que as empresas que podem se sacodem indo embora da região?

Abafando escândalos 

Em suma, a região não desperta interesse sistemático nem das autoridades policiais federais e também do Ministério Público. Os escândalos que aqui pipocam logo desaparecem do noticiário regional porque há muitos grupos de interesses mobilizados para abafar repercussões mais contundentes, enquanto a mídia da Capital trata de coisas mais impactantes, movida pela proximidade física e os desdobramentos mais próximos de poderes maiores.

Os políticos e entornos obscuros que flutuam na região só precisam se acautelar quanto à possibilidade de entrarem na mira dos federais da Operação Lava Jato que se deslocou para valer para o território paulista por conta de situação incontornável: se estiverem envolvidos no mundo da corrupção de casos de alta visibilidade, há possibilidades de se enroscarem na rede.

Nesse caso, serão colhidos provavelmente como figurantes, porque figurantes o seriam de fato. Já temos exemplos dessa situação na região.

Federais desembarcariam? 

Isso quer dizer que escândalos genuinamente locais, desses que têm território e delinquentes que atuam apenas neste espaço urbano, esses escândalos possivelmente ficarão fora do radar dos investigadores. Pelo menos não terão a prioridade dos casos estaduais e nacionais de monta.

É com essa premissa que contam os malversadores em geral. Eles rezam dia e noite para não ouvirem a campainha tocar às seis horas da manhã.

Talvez uma mudança de postura radical, que constaria do planejamento do ministro Sérgio Moro, possa alterar as regras do jogo de impunidade ou de punibilidade pouco provável. E é nesse ponto, um ponto de inflexão com o qual têm pesadelos os delinquentes da praça, que tudo pode influir decididamente nas eleições de daqui dois anos.

O que hoje parece tão solidamente construído para que as urnas não sofram abalos, poderá ser totalmente alterado diante de estocadas federais.

Possivelmente teremos ao fim dos dois primeiros meses de atuação da nova equipe ligada ao Ministério da Justiça o quanto fatores extraordinários poderão influenciar as eleições municipais de 2020.

Mais abrangência 

Há informações que dão conta de que não seria nada inteligente imaginar que os federais vão seguir a cartilha de priorizar os escândalos de maior visibilidade, maneira pela qual disseminariam cultura de castigo iminente aos demais agentes que tratam a administração pública como seara de privilégios e abusos. O plano de Sergio Moro seria mais abrangente.

Há quem defenda com plena razão que muitas modalidades de delitos capturadas em Brasília e em grandes capitais do País são testadas e aprovadas pelos bandidos sociais em municípios de baixa visibilidade midiática, municípios nos quais o controle da mídia é praticamente garantido. Ainda mais nestes tempos em que a mídia tradicional está comendo o pão que o diabo amassou por causa da invasão das redes sociais.

São tantas as artimanhas de agentes públicos e empresários inescrupulosos para nadarem em dinheiro em localidades de menor interesse midiático e de complexas amarras sociais que somente quem vive nesse universo seria capaz de identificar.

Uma conversa aqui com um servidor público, outra ali com uma secretária de empresário bandido, mais uma acolá com um amigo do amigo do mandachuva da Prefeitura, e a cadeia de impropriedades estará detectada e comprovada.

Jogo de cumplicidades 

Pratica-se em regiões como esta Província um jogo manjado de cumplicidades múltiplas, muitas das quais estruturadas em bases que têm todas as características de chantagem: quem amealha mais informações que comprometam figurões da política, principalmente da política, mais se garante como mandachuvinha. Todos sabem o que é mandachuvinha. Geralmente são o entorno dos poderosos de plantão que ontem diziam barbaridades do prefeito de plantão e hoje marcham em sintonia.

Para a maioria dos consumidores de informações, esse mundinho de arranjos e rearranjos não passaria de alarme falso, de especulação. Eles não enxergam nada além da prática do jeitinho brasileiro de não levar a sério amanhã a denúncia proclamada hoje, deslocando o destempero do fígado rebelde para o cérebro oportunista nessa recomposição de postura. Colocam tudo na conta da antropologia nacional, de que brasileiro é um povo bonzinho.

Uma Operação Lava Jato para valer por estas bandas mostraria sem retoque o quanto Brasília e outras capitais praticam como disciplinados discípulos de mestres de municípios e regiões na penumbra.

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