Sociedade

Clube dos Prefeitos fracassou;
e o Clube dos Empresários?

  DANIEL LIMA - 06/12/2018

Quando formadores de opinião e tomadores de decisão desconhecem ou colocam na conta de parceiros irremovíveis as respectivas lideranças econômicas da região a conclusão a que se chega é que não existem lideranças. 

Trocando em miúdos, como se fosse necessário: que tipo de autoridade representam as supostas lideranças de classe empresarial da região (sobretudo de comércio e serviços) se apenas os mais chegados às respectivas instituições as reconhecem não necessariamente como lideranças no sentido mais nobre do termo, mas como dirigentes em atividade.

Escrevo estas linhas num final de noite levado pela emergência do dia seguinte que possivelmente não me concederia tempo para a produção editorial no período matutino, que mais me agrada. Que diferença isso faz, perguntaria o leitor. Faz a diferença de que após as 10 horas da noite o cansaço já está a obnubilar a mente e o raciocínio parece embotar. Daí ao piloto automático de questões óbvias da região, tão óbvias que poucos se lembram, vai um passo. Mas nem sempre a obviedade é inútil ou desprezível, como se verá adiante. 

Burocracia e desperdício 

A institucionalidade de organizações empresariais na região (não vou esticar a conversa em direção a outras institucionalidades) é de lascar. Seus poderes não passam do territorialismo municipal e mesmo assim longe de algo mais substantivo. Para ser mais preciso, seus poderes praticamente se esgotam nas próprias sedes físicas que as identificam. Quanto mais distância houver em relação à sociedade, mais rarefeita será a representatividade que, como todo mundo deveria saber, é bem diferente de representação. 

Há evidente desperdício de possíveis talentos que aparecem e desaparecerem nessas organizações. Quando os novatos tomam pé da realidade de emboloramento da agenda das organizações, só existem duas saídas, ambas insatisfatórias: ou se juntam aos que já chegaram, ou debandam. Em comum, apenas a frustração. 

Não é de hoje que bato nessa tecla, mas me parece que faz longo tempo que não questiono a baixíssima importância econômica dessas organizações, sem, entretanto, retirar a importância burocrática, por assim dizer, de atender a seus associados em vários ramos de serviços que o Estado pantagruélico exige. 

Vou dar um exemplo reto e direto do que as classes dirigentes empresariais poderiam fazer se fossem o que deveriam ser, ou seja, as lideranças naturais de um processo de regionalidade que todas sabem indispensável: o caro leitor acha que o desmantelamento do Clube dos Prefeitos seria possível ou, mais que isso, que o histórico de apatia do Clube dos Prefeitos teria se perpetuado ao longo de quase 30 anos de criação se houvesse sincronia fina e agenda objetiva e em comum sob a pressão de quem produz e distribui riquezas em forma de indústria, comércio e serviços? Claro que não, claro que não.  

Mas quem disse que as cidadelas municipalistas dessas organizações estão preocupadas com o quintal alheio se não cuidam nem mesmo dos próprios quintais? 

Nem municipal, nem regional

Se não existe praticamente nenhuma reação dessas instituições, sobretudo da área comercial, cuja autonomia estatutária permitiria manobras radicais em termos do Município em que estão instaladas, como acreditar que haveria alguma pretensão nobre de incomodar os detentores de poderes quando o regionalismo estaria em jogo?

Fossem organizadas e mutuamente solidárias e competentes numa agenda que atacaria para valer as fissuras do tecido econômico da região, essas lideranças atuariam em conjunto e fariam com que mandachuvas municipais incrustados no Executivo entendessem a importância da economia como prioridade das prioridades. 

Na maioria dos casos essas entidades não passam de correia de transmissão dos interesses políticos majoritários. Há estreita relação com os paços municipais. As disputas para ocupação de espaços nas entidades contam com intensa participação de quem está no poder municipal. Eventuais antagonismos são sempre uma possibilidade a mais de aproximações combinadas e muito mais apropriadas aos intentos nem sempre claros. 

Clube dos Empresários 

Quando escrevo que o jornalismo da região, de maneira geral, não difere do que se apresentava há um século, não há exagero. Cada vez mais damos de cara com a repetição da história. O servilismo campeia. E não é nada diferente o que acontece nos organismos criados no século passado para representarem forças econômicas. 

A ordem geral e irrestrita é evitar constrangimentos aos poderosos de plantão. Quando não, darem o bote para estreitar os laços pessoais e grupais. Isso significa que tudo deve ser feito para que se construam pontes que levem empresários e políticos ao mesmo patamar de interesses. Individualidades e grupos predominam em detrimento das respectivas classes. 

Esse modus operandi entre as partes não pode, claro, ser afetado por eventuais discordâncias. As entidades de classe fingem que são autônomas e os prefeitos propagam que têm vida à parte, respeitando-se os limites estatutários. Tudo não passa de encenação. Todos estão no mesmo barco de conjuminâncias.

Imaginar que as organizações em questão pudessem juntar forças e formar espécie de Clube dos Empresários para se contraporem ao Clube dos Prefeitos não exatamente no sentido de enfrentamento, mas de colaboração e introdução de insumos capitalistas nas administrações públicas, sempre se converteu em perda de tempo.  

O imperativo do individualismo e do grupo fechado em nome das instituições prevaleceu e continuará a prevalecer. 

Sociedade sabe

A representação do setor industrial na região é algo mais complexo porque, diferentemente das associações comerciais, não contam com liberdade plena, vinculada que está ao prédio piramidal da Fiesp e do Ciesp na Avenida Paulista. Há limites que precisam ser respeitados. Uma demarcação que retira, quando não elimina, a flama da indignação com a letargia e o descaso das autoridades públicas. 

É nestas horas quase mortas, por volta de meia noite, que me pego no contrapé do entusiasmo que ainda move meus dígitos e fico a imaginar até quando será possível praticar uma atividade que, vista com um mínimo de ceticismo, não passa de prova diária de estupidez. 

Afinal, o que as supostas lideranças empresariais mais querem mesmo é que eu vá meter o bedelho em outra freguesia porque eles vivem num outro universo, o universo real, não o paralelo em que me especializei.

Somente a certeza de que marcho alinhado com a maioria da sociedade, sigo meu caminho. Sim, a maioria da sociedade sabe exatamente o quanto essas instituições pesam no conjunto de inquietações dos empreendedores. Uma pesquisa séria que colocasse de forma tecnicamente cientifica a avaliação da massa de empreendedores sobre essas organizações revelaria as vísceras do desencanto. 

Todas, indistintamente, atuam sob a mesma perspectiva, uma repetição da retrospectiva histórica: embora sejam estatutariamente comprometidas com o dinamismo econômico, preferem correr na mesma raia de parceria com as autoridades municipais. Nenhum projeto em comum foi gerado ao longo da história regional para identificar mesmo que falsamente aquelas denominações com as demandas dos empreendedores. 

Nosso Clube dos Prefeitos tornou-se frustrante ao longo dos tempos, mas nem por isso descartável como está sendo, enquanto o Clube dos Empresários não emergiu sequer para dar uma roupagem manipuladora de que seus potenciais integrantes estariam alinhados à regionalidade desejada. Ou seja: as classes empresariais não foram competentes sequer para forjar meias verdades ou mentiras inteiras no campo da regionalidade; exatamente a especialidade do Clube dos Prefeitos.

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