Economia

Região perde cada vez mais
competitividade na metrópole

  DANIEL LIMA - 08/01/2019

Fizemos durante as férias uma operação pente fino no PIB Geral (Produto Interno Bruto) da Região Metropolitana de São Paulo. Repetimos uma operação investigatória realizada tempos atrás. O resultado é desastroso para a região. Aliás, novamente desastroso.

O encontro das águas numéricas envolveu o período de janeiro de 2003 a dezembro de 2016. Ou seja: enquanto o PT governava o País (Dilma Rousseff foi apeada do poder em meados de 2016, mas os efeitos danosos de sua política econômica perduraram).

O resultado, que começaremos a dissecar nesta edição, revelam ou reafirmam que os prefeitos da região nesse período não passam de descuidados. Uma repetição mais grave do período da última década do século passado, quando políticas econômicas do governo Fernando Henrique Cardoso completaram os estragos do sindicalismo a partir do final dos anos 1970.

A visão romântica e muitas vezes misturada de fantasias de que os sindicalistas contribuíram para derrubar o Regime Militar transformou a classe em constelação de deuses de cidadania. Pura bobagem. Eles eram e continuam a ser integralmente corporativistas. E a maioria, oportunista.

Mascaramento tecnológico

Resumo da ópera que os leitores poderão acompanhar nos próximos dias: somos a região que, no interior da maior metrópole da América Latina, menos cresce em geração de riqueza. Somos cada vez mais carta fora do baralho de investimentos. E seguimos com  desindustrialização monumental. Uma desindustrialização que vai muito além do que se imagina. Pequenas e médias empresas desaparecem e parte da destruição é compensada com o avanço tecnológico e produtivo das grandes corporações que geram cada vez menos empregos qualificados.

Nossa desindustrialização é mascarada, portanto. Situação mais preocupante do que nos tempos em que era escancarada. Afinal, se antes, explícita, não faltaram vagabundos a contestar o empobrecimento regional, imaginem agora com a dificuldade de detectar o derretimento dos pequenos negócios produtivos.

Enquanto isso, os prefeitos da região nada fazem no setor. E o prefeito dos prefeitos, Orlando Morando, que conduziu o Clube dos Prefeitos nas duas últimas temporadas, destruiu o que restava da instituição. Quer mais?

Pegamos as duas pontas temporais do PIB para extrair resultados que confirmam a linha histórica desta revista digital, assim como da antecessora LivreMercado, publicação impressa que circulou na região durante duas décadas.

Comparamos os resultados dos 39 municípios da Grande ABC entre 2003 e 2016. Mais precisamente entre janeiro de 2003 e dezembro de 2016. Os dados de 2017 e de 2018, do chamado PIB dos Municípios Brasileiros, só serão conhecidos este ano (2017) e no ano que vem (2018). E não vão mostrar nada diferente dos últimos 14 anos que acabamos de medir cuidadosamente.

Prefeitos negligentes

A crítica à inapetência dos atuais prefeitos em atacarem para valer o esvaziamento de riqueza na região está respaldada pelo passado. Quando assumiram em janeiro de 2017 todos eles sabiam ou tinham o dever de saber que o declínio do PIB da região já estava consolidado e que, portanto, independentemente dos dados que seriam conhecidos apenas em dezembro último, relativos a 2016, eles deveriam agir com rapidez e solidez.

O que aconteceu nos dois últimos anos sob o governo dos atuais prefeitos? Não fizeram praticamente nada de relevante no âmbito municipal e muito menos em termos regionais.

As secretarias de Desenvolvimento Econômico dos municípios da região são penduricalhos de organogramas que privilegiam pastas diretamente envolvidas com recursos orçamentários mais facilmente materializados. Na realidade, secretarias que deveriam cuidar com ciência e empenho do futuro econômico da região são apenas um estorvo. Sem relevo de qualquer espécie. Faltam profissionais da área. Os prefeitos partidarizam o cargo. Repetem antecessores igualmente negligentes. Acham que podem continuar a enganar com quinquilharias que não alteram o ritmo do jogo de decadência municipal e regional.

Desastre completo

Sob qualquer aspecto que se observe os resultados do PIB dos 39 municípios da Grande São Paulo, o Grande ABC como um todo ou individualmente é uma sucessão de decepções e inquietações. Mesmo onde individualmente registra algum destaque relativo, a repercussão não é nada satisfatória. Querem um exemplo?

Nesse campeonato de competitividade (este é o resumo do sentido de se mostrar o PIB), o primeiro município a aparecer na tábua de classificação é Ribeirão Pires, que ocupa a 14ª posição, com crescimento nominal (sem considerar a inflação do período, de 128,98% segundo o IPCA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 322,47%. Como Ribeirão Pires não representa nem 3% do PIB do Grande ABC, o resultado não chega nem mesmo a ser um sopro de esperança.

Depois de Ribeirão Pires, Mauá se apresenta no ranking geral da Região Metropolitana de São Paulo como o Município mais bem colocado do Grande ABC, em 26º lugar, com crescimento nominal do PIB Geral de 259,29%. Mauá não chega a representar 10% do PIB do Grande ABC.

Diadema e Santo André estão praticamente empatados no ranking de crescimento nominal nos últimos 14 anos: Diadema ocupa a 30ª colocação com avanço de 204,29%, enquanto Santo André, em 31º, avançou 203,45%. Resultados desprezíveis. Quando não comprometedores. Antes dos três municípios, em 21º lugar, está a pequenina Rio Grande da Serra com crescimento nominal de 298,92%. Rio Grande não significa sequer 0,5% do PIB regional. É uma espécie de Bolsa Família do orçamento federal.

Duplo desastre

São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC e berço do sindicalismo lulista, catapultado ao governo federal nas eleições de 2002, não passou de avanço nominal de 175,18% no PIB Geral. Um resultado tão ruim que colocou o Município em 34º lugar na classificação final. Ou seja: acima de apenas cinco endereços. São Caetano foi ainda pior: perdeu até para a inflação do período, com crescimento nominal de 109,81%. Terminou 2016 em 36º lugar na classificação metropolitana. Pelo critério da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol, estaria na zona de rebaixamento.

Em dezembro de 2002, mesmo com o desastre de oito anos de Fernando Henrique Cardoso, quando o Grande ABC perdeu 33% do PIB Industrial, ocupávamos o segundo lugar no ranking do PIB Geral da Grande São Paulo. A participação regional era de 13,29% de tudo que era gerado nesse espaço territorial de mais de oito mil quilômetros quadrados. São Paulo liderava com 63,92% do PIB Metropolitano.

As regiões Leste e Oeste, ainda sem os benefícios mais evidentes dos trechos Oeste e Sul do Rodoanel, participavam em 2002 com 9,35% e 9,62% do PIB Geral Metropolitano. Quase cinco pontos percentuais abaixo do PIB do Grande ABC. A região Sudoeste contava com 2,50% do PIB Geral Metropolitano, enquanto a Região Norte não passava de 1,31%.

O que aconteceu com esses números regionais ao final da temporada de 2016, conforme os dados revelados em dezembro último pelo IBGE?

A Capital do Estado se manteve praticamente intocável, com 62,01% de participação na metrópole. A Região Leste perdeu participação mínima no ranking, de 9,35% para 9,02%.

A Região Oeste, da Grande Osasco, beneficiadíssima pelos trechos Oeste e Sul do Rodoanel, avançou para 13,63%. Crescimento de 41,68% quando comparada com a participação relativa com 2002. A Região Norte passou de 1,31% para 1,91%. Quem perdeu mesmo para valer foi o Grande ABC, que registrou 10,11% de participação relativa. Bem abaixo dos 13,29% de 2002. Uma queda de 23,93%.

Dois grandes problemas

O Grande ABC ficou para trás no ranking de crescimento nominal do PIB Geral Metropolitano por conta de um elenco de complicações que desfiamos neste espaço ao longo dos anos. Mas, no exato período agora pesquisado, a influência do traçado Oeste e Leste do Rodoanel e a descentralização do setor automotivo, que segue em frente, pesam de forma intensa.

O Rodoanel, como cansamos de alertar, foi um presente de grego à região. Afinal, não tem intersecção logística sequer razoável. Conta com apenas três pontos tangenciais de intimidade com São Bernardo, Diadema, Santo André, Mauá e Ribeirão Pires. A Grande Osasco conta com 13 pontos de integração às áreas urbanas.  Não é à toa que é a segunda área metropolitana que mais avançou no período.

Já a permanente quebra de empreendimentos industriais no Grande ABC, sobretudo ligados à indústria automotiva, é uma guerra aparentemente sem fim. O ecossistema capitalista da região está permeado pela ação sindical deletéria, sobretudo em São Bernardo e em Diadema, sob a influência da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Veja o crescimento nominal das cinco regiões em que está dividida a Grande São Paulo, e também os números da Capital do Estado. Os números se referem aos 14 anos de governo federal petista, de 2003 a 2016: 

 Grande ABC (Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) –  crescimento nominal de 185,50%.

 São Paulo -- 264,08%

 Região Norte (Caieiras, Cajamar, Francisco Morato, Franco da Rocha e Mairiporã) – crescimento nominal de448,27%.

 Região Sudoeste (Cotia, Embu das Artes, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra, Juquitiba, São Lourenço da Serra, Taboão da Serra e Vargem Grande Paulista) – crescimento nominal de 396,08%.

 Região Leste (Arujá, Piritiba-Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesópolis, Santa Izabel e Suzano) – crescimento nominal de 262,03%.

 Região Oeste (Barueri, Carapicuíba, Itapevi, Jandira, Osasco, Pirapora de Bom Jesus e Santana de Parnaíba) – crescimento nominal de 431,75%.

Ranking completo

Agora vamos apresentar os resultados individuais desses municípios, sempre levando em conta o crescimento nominal (que não considera a inflação do período) ponta a ponta, ou seja, entre 2003 e 2016. O longo período de 14 anos dá sustentação à tese de esvaziamento econômico da região em relação à vizinhança metropolitana.

Os dados regionais da área não deixam dúvida sobre isso. Estamos comendo poeira e não demonstramos poder de reação. Caminhamos em direção ao desfiladeiro. Estamos repetindo as advertências expostas ao final do século passado. Pregamos num deserto de incompetentes. Veja o ranking de crescimento nominal no período. Avançamos celeremente rumo às últimas colocações:

1. Itapevi, 1.042,95%

2. Arujá, 735,05%

3. Embu das Artes, 666,95%

4. Cajamar, 623,77%

5. Osasco, 499,11%

6. Itaquaquecetuba, 481,48%

7. Ferraz de Vasconcelos, 433,46%

8. Vargem Grande Paulista, 417,00%

9. Cotia, 397,38%

10. Santana de Parnaíba, 385,27%

11. Itapecerica da Serra, 384,14%

12. Barueri, 326,72%

13. Jandira, 324,13%

14. Ribeirão Pires, 322,47%

15. Carapicuíba, 321,45%

16. Francisco Morato, 320,37%

17. Biritiba-Mirim, 313,86%

18. Mogi das Cruzes, 312,16%

19. Caieiras, 305,25%

20. Mairiporã, 301,11%

21. Rio Grande da Serra, 298,92%

22. Taboão da Serra, 292,69%

23. Embu-Guaçu,  272,13%

24. Franco da Rocha, 270,23%

25. São Paulo, 264,08%

26. Mauá, 259,29%

27. Guararema, 250,91%

28. Santa Isabel, 249,90%

29. Guarulhos, 246,64%

30. Diadema, 204,65%

31. Santo André, 203,45%

32. Pirapora de Bom Jesus, 188,00%

33. Suzano, 182,47%

34. São Bernardo, 175,18%

35. Jiquitiba, 114,58%

36. São Caetano, 109,81%

37. Poá, 96,94%

38. São Lourenço da Serra, 62,22%

39. Salesópolis, 30,76%

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