Economia

Entenda as razões básicas da
fuga industrial do Grande ABC

  DANIEL LIMA - 21/02/2019

Vamos combinar o seguinte com os leitores: a) vou meter a cara nos desdobramentos político-sindicais do anúncio da retirada da fábrica da Ford de São Bernardo provavelmente amanhã, porque estou monitorando os protagonistas que aparecem na mídia sem contextualização e ponderação jornalística, exceto de alguns militantes de sempre que confundem a bola em nome das causas; b) agora, como ontem, fico com fatos históricos que explicam porque chegamos ao ponto que chegamos, ou seja, a uma fase ainda mais aguda de desindustrialização que, acreditem, se tornará crônica, se ainda não o é. 

Isso mesmo, fase mais aguda de desindustrialização, porque desindustrialização colecionamos desde os primeiros acordes do maracatu do movimento sindical em São Bernardo, no final dos anos 1970. 

Sei o quanto apanhei dos maledicentes e vagabundos de plantão no passado e de vez em quando até no presente por ter revelado ao longo dos tempos o que de fato se passava em nossa economia. Achavam que era um traidor da pátria provinciana que somos. Uma arbitrariedade típica de quem adora mascarar a verdade. 

Reuni nesta edição uma coleção de 23 aberturas de análises (no jargão jornalístico seriam “lides”, que significam a síntese do que os leitores encontrariam em detalhes no conjunto de cada matéria) que contam sumariamente, de forma minimamente compreensível, a história recente da indústria da região. 

Sugestão à degustação

Entenda-se como história recente algo como três décadas. A primeira matéria entre as 23 que exponho em seguida foi publicada em 1997 na revista LivreMercado. Aliás, as matérias que os leitores vão encontrar aqui foram impressas na revista LivreMercado e, a partir de janeiro de 2009, nestas páginas digitais de CapitalSocial. 

Sugiro aos leitores o seguinte trato para degustar o que se segue: quem está atarefadíssimo, quem não se organiza para alimentar a mente com informações preciosas, dando espaço a quinquilharias de redes sociais e também de jornais impressos cada vez piores, quem vive essa situação, então pare, pense, deixe esta leitura de lado e, quando entender que está na hora de mergulhar num curso prático, rápido, independente, de densas informações, sobre as razões de o Grande ABC estar na situação em que está, aí sim, meta-se a entender o trabalho que se segue. 

Convém lembrar que os primeiros trechos dos 23 textos que selecionei quase que aleatoriamente para oferecer o diagnóstico de uma crise mais que anunciada são uma parcela ínfima de tudo que publicamos em mais de três décadas. 

A história da indústria da região pode ter começado para valer com a chegada das montadoras, a partir dos anos 1950, mas as grandes transformações só ocorreram com a descoberta do então sindicalista Lula da Silva e combativos companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo: o chão de fábrica tinha muito mais poder e força do que simplesmente produzir carroças, também conhecidas por veículos de passeio. Daí em diante tudo mudou. Para o bem e para o mal. Inapelavelmente. Pagamos hoje um preço elevadíssimo dos privilégios de um passado que ainda prevalecem nas montadoras de veículos. Vamos, então, dar um passeio pelos 22 últimos anos de textos imperdíveis?  

Montadoras não podem continuar

sendo referencial de reivindicações

 DANIEL LIMA - 05/01/1997 

 As montadoras de veículos trouxeram progressos inegáveis ao Grande ABC e continuam a ser indispensáveis ao equilíbrio socioeconômico regional. Essa é uma verdade tão asfixiantemente incontestável que raramente sofre o impacto de algum contraponto. Mas que existe contraponto existe. Tanto que não se podem contemplar as montadoras com pretensa santificação regional. A recíproca também é verdadeira: não se pode satanizá-las como matrizes das fundas disparidades sociais que se acentuam no Grande ABC à medida que a globalização corta postos de trabalho. Maiores geradoras diretas e indiretas de empregos e de tributos, as automobilísticas da região consagraram o sindicalismo de Lula e seus parceiros num período de obscuridade política no País e de absoluto despreparo administrativo do empresariado. A elite sindical do Grande ABC fez das montadoras palanque obrigatório e, com o suporte dos trabalhadores, pressionou os patrões numa frenética corrida de indexação salarial e de contínua incorporação de benefícios sociais extra-constitucionais. Referência maior das relações entre capital e trabalho na economia nacional, as montadoras de veículos e os metalúrgicos botaram lenha na fogueira inflacionária ao longo dos anos. Os pequenos e médios empresários da região, de autopeças num primeiro estágio e dos demais setores em seguida, pagaram o pato porque tiveram de acompanhar as conquistas trabalhistas.

Quem vai colocar o guizo?

 DANIEL LIMA - 05/03/1998 

 Quem vai colocar o guizo no pescoço do gato do Custo ABC? A indagação feita por LivreMercado já começa a produzir efeitos, mas convém conter o entusiasmo. O anúncio, em meados do mês passado, de que as montadoras de veículos estariam negociando o rebaixamento de custos na região, dentro da Câmara Regional, é ainda breve ensaio de amplo entendimento que pode tanto dar certo quanto não. A questão é simples: com as novas montadoras despejando veículos no mercado interno, a partir de fábricas localizadas em outros polos automotivos que começarão a operar no ano que vem, o Custo ABC vai complicar a competitividade da Volkswagen, da General Motors e da Ford, principalmente, que respondem por perto de 50% do abastecimento de carros de passeio no País. 

Uma bomba que 

ninguém desativa

 DANIEL LIMA - 05/10/1998 

As diferenças que envolvem o setor automotivo do Grande ABC, sobretudo nas questões trabalhistas, não foram sequer amenizadas até setembro, como programou a Câmara Regional, que pretendia anunciar série de acordos. O Custo ABC do setor metalúrgico, que atinge não só as montadoras de veículos, mas as autopeças, como foi detalhadamente mostrado por LivreMercado na Reportagem de Capa da edição de agosto (Quem vai desativar a bomba sindical?), dificilmente será debatido nos próximos meses de forma mais intestina pelos representantes do capital e do trabalho. A explicação é que interlocutores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que envolve os territórios de São Bernardo e Diadema, encontram sérias dificuldades de composições que superem alguns pontos sagrados da CUT (Central Única dos Trabalhadores), entidade à qual está vinculado.

Só temos uma saída: 

muita produtividade

 MALU MARCOCCIA - 05/05/1999 

Um robô infiltrado aqui, uma eletrônica embarcada ali, células de produção abreviando a maneira de produzir, cargas de treinamento para carimbar qualificação de Primeiro Mundo, volumosas demissões que projetam o caos social. A versão enxuta do Grande ABC automotivo não assusta José Carlos Pinheiro Neto, presidente da Anfavea, associação que reúne os fabricantes de veículos no País. Nem mesmo as reduzidas e moderníssimas fábricas automobilísticas que passaram a cintilar em vários cantos do Brasil assombram esse executivo que frequenta há 30 anos a região, como profissional da General Motors de São Caetano. Por isso mesmo, para o cenário aparentemente tenebroso promovido pela concorrência da globalização e pela descentralização dos investimentos automotivos, Pinheiro Neto sugere um antídoto ao Grande ABC: produtividade, produtividade, mais produtividade.

Como se preparar para não

repetir erros do Grande ABC?

 DANIEL LIMA - 05/07/2000 

O que empreendedores privados, administradores públicos e a comunidade do Interior do Estado podem aprender com o histórico de desenvolvimento econômico do Grande ABC, conjunto de sete municípios na Região Metropolitana de São Paulo que se consagrou como a área geográfica industrial mais influente do País? Talvez a melhor resposta seja tão cruel quanto providencial: não caiam no ufanismo doméstico de quem precisa de permanente autoelogio para inflar o ego. Nem se deixem enganar pelo lambe-lambe dos chamados forasteiros, especialistas em propagar o lado róseo das regiões que pretendem seduzir exatamente porque precisam parecer simpáticos para seus projetos pessoais ou profissionais.

Montadoras são

heroínas e vilãs

 DANIEL LIMA - 15/02/2001 

Afinal de contas, os salários e a rede de benefícios sociais que os metalúrgicos das montadoras de veículos da região recebem são interessantes para o Grande ABC? Vale a pena contar com uma casta de trabalhadores altamente bem pagos, comparativamente ao universo da indústria do País? É bom negócio ter trabalhadores renhidamente tão corporativos que ao longo dos anos usufruíram do exercício da democracia e arrancaram série de conquistas trabalhistas? O fato de os custos trabalhistas dos metalúrgicos da região ultrapassarem em dobro a planilha de montadoras localizadas principalmente em Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul não desestimula a instalação industrial, inclusive em outros setores comprovadamente contaminados pelo efeito referencial? Ou esta não é uma das melhores explicações para a indústria moveleira de São Bernardo ter entrado em parafuso a partir da chegada do setor automobilístico, que lhe tirou boa parte da mão-de-obra e provocou convulsão na antiga lei de oferta e procura?

Escombros de FHC 

esperam por Lula

 DANIEL LIMA E ANDRE MARCEL DE LIMA - 02/12/2002 

O ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva vai herdar de Fernando Henrique Cardoso um Grande ABC automotivo cruelmente atropelado pela abertura econômica. Nenhuma outra região brasileira passou pela experiência sadomasoquista de trocar o céu pelo inferno num passe de mágica econômico. A decisão de substituir o autarquismo pelo escancaramento do mercado nacional não tem adeptos em nenhum país de Primeiro Mundo. O paraíso econômico construído a partir de Juscelino Kubitschek e que colocou o Grande ABC a salvo de grandes impactos econômicos virou pesadelo especialmente nos anos Fernando Henrique Cardoso.  (...). De JK a FHC, o que a região viveu e que Lula da Silva vai herdar é uma experiência insidiosa, na qual o Estado-Todo-Poderoso pintou e bordou imprevidências. Na chegada das grandes montadoras de veículos e das indústrias satélites, o Estado não teve competência para articular políticas públicas que disciplinassem correntes migratórias e medidas estratégicas de concorrência cooperativa entre as autopeças, espírito de complementaridade próprio dos clusters, como no caso da Toyota no Japão.

Crise retira grande parte 

das conquistas trabalhistas

 DANIEL LIMA - 13/06/2003 

Os efeitos da abertura econômica destrambelhada do governo Fernando Henrique Cardoso, que este CapitalSocial e a revista LivreMercado dimensionaram de forma pioneira, traduzida em perda de 34% do Valor Adicionado, atingiu mais fundo o Grande ABC do que imaginam os céticos e do que gostariam os triunfalistas. Praticamente todo o acervo de conquistas trabalhistas dos tempos do sindicalismo revolucionário liderado por Lula da Silva, e sequencialmente comandado por seus discípulos, foi literalmente para o ralo. Menos, evidentemente, nas montadoras de veículos e num conjunto reduzido de autopeças diretamente relacionadas às produtoras de veículos. 

Somos peso pesado

no setor automotivo

 ANDRE MARCEL DE LIMA - 15/08/2004 

O futuro denunciado pelas evidências nacionais e internacionais guarda uma constatação positiva e outra nem tanto para o Grande ABC extremamente dependente da atividade automotiva: a região tornou-se contraproducente para investimentos em veículos mais simples e de rentabilidade apertada. Os custos regionais reconhecidamente mais elevados comprimem as estreitas margens de lucro e inviabilizam a competitividade em um setor que não mede esforços para sair do prejuízo. Em compensação – e essa é a face positiva – as unidades instaladas na região serão cada vez mais especializadas em veículos relativamente sofisticados e de maior valor agregado. É a forma de contrabalançar o déficit de competitividade verificado na planilha de custos.

Perigo vem do outro lado

 ANDRE MARCEL DE LIMA - 20/04/2005

O clima festivo não combina com abordagem pé-no-chão, mas é recomendável manter os olhos bem abertos porque nuvens carregadas já foram detectadas no horizonte: o Grande ABC não deve se iludir com a performance alentadora da indústria automobilística em 2004. Neste início de ano já há sinais preocupantes de que a biruta pode mudar radicalmente.  

Em vez de se restringir a comemorar o relativo incremento das linhas de montagem com atitude típica de quem vive o presente sem se preocupar com provisões para o futuro, a região deve insistir na tecla do desenvolvimento de matrizes alternativas que equilibrem o peso automotivo na balança econômica regional. Afinal, nenhum administrador público em sã consciência deve colocar parcela esmagadora dos ovos tributários e ocupacionais no cesto frágil do segmento mundializado e em franco processo de canibalização além-fronteiras. Principalmente ao se levar em conta que custos adicionais colocam o berço da indústria automotiva responsável por 25% dos veículos produzidos no Brasil como alvo preferencial de predadores internacionais.

Lulacá! (Decididamente?)

 DANIEL LIMA - 21/11/2006

A reeleição do petista Luiz Inácio Lula da Silva pode até não ser a melhor notícia para a economia do Grande ABC neste final de temporada, mas, levando em conta o contexto que o confirma no poder central, deve ser recebida com satisfação. Os quatro primeiros anos de Lulacá foram mais prospectivos que os dois mandatos seguidos de Fernando Henrique Cardoso. A comparação chega a ser desproposital e ofensiva porque FHC despejou mísseis que atingiram em cheio o coração industrial da região. Lula também supera largamente os 12 anos do governo estadual de Mário Covas e de Geraldo Alckmin, oito dos quais coincidentes com os mandatos de FHC. Covas e Alckmin privilegiaram o torniquete fiscal e o implacável controle orçamentário, mas especializaram-se também no pouco-caso com o Desenvolvimento Econômico de um Estado fortemente atingido pela guerra fiscal. A constatação de que o Grande ABC se deu melhor com o governo petista do que com governo dos tucanos não significa que o ex-metalúrgico de São Bernardo e sua equipe de ministros e assessores tenham assimilado a dimensão de necessidades e carências de uma região metralhada pela abertura econômica dos anos 1990, sobretudo no período de FHC.

Uma moeda furada, eis 

o retrato do nosso PIB

 DANIEL LIMA - 09/08/2007 

Sem exagero, a fotografia mais fiel do Grande ABC nos últimos 12 anos de Plano Real, entre janeiro de 1995 e dezembro de 2006, é uma moeda de R$ 1,00 furada, surrada, batida, estropiada. Se outra moeda de R$ 1,00 pudesse ser estampada como símbolo da Região Metropolitana de Campinas, onde 19 municípios deram show de competitividade econômica, não faltaria brilho ofuscante. Já em relação a uma terceira moeda de R$ 1,00, que caracterizaria a Região Metropolitana de São Paulo, ainda onde se mantém a maior produção do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado de São Paulo e do País, o resultado não seria decepcionante. Para isso, entretanto, teria de estar descontaminada dos números negativos dos sete municípios do Grande ABC que oficialmente a integram. (...). O PIB médio do G-7, como o Grande ABC poderia ser chamado, tomando-se por base a produção de riqueza em 1994 e os resultados na outra ponta, em 2006, caiu 1,23% ao ano. Isso mesmo: o Grande ABC viu a riqueza desabar em mais de 1% ao ano no período. Um resultado para lá de sofrível e que só não é pior porque nos últimos anos a indústria automobilística aumentou a produção. Exatamente o setor que é o coração, as pernas e a alma da região, responsável por 18% da produção de veículos de passeio e comerciais leves e por mais de 60% de ônibus e caminhões do País.

O que esperar do Grande ABC

nestes tempos de contração?

 DANIEL LIMA - 15/12/2008 

Já que o ventilador da crise econômica não só está em alta velocidade como também espalha mau cheiro mundo afora, a pergunta mais importante neste final de ano para quem tem alguma relação com o Grande ABC de 2,6 milhões de habitantes deve ser franca e direta: como resistir? Para quem prefere palavras e gestos de consolo, o melhor é dizer que o que vem por aí provavelmente nem de longe vai se assemelhar aos anos 1990, quando o Grande ABC virou território em liquidação. Entretanto, quem sonhava com a recuperação regional por mais tempo, a ponto de compensar as perdas anteriores, deve colocar as barbas de molho: o que está chegando é mais que uma temporada de inverno econômico em pleno verão que se aproxima. O tranco será forte e duradouro o suficiente para incomodar e provocar novos constrangimentos sociais numa região que está no fim da fila de qualidade de vida nos índices de criminalidade.

Doença holandesa

 DANIEL LIMA - 27/11/2009 

O Grande ABC acentua sintomas do que chamo de doença holandesa da economia, com fundas repercussões sociais. Os novos investimentos anunciados pelas montadoras de veículos com unidades na região — General Motors, Ford e Volkswagen — são um prato cheio para a torcida organizada de editoriais que não enxergam além da próxima esquina de interesses marquetológicos. Paradoxalmente, quanto mais se consolidar a indústria automotiva do Grande ABC, mais a doença holandesa se manifestará. Há meio século a atividade se tornou vaca premiada de arrecadação de impostos. É claro que é muito melhor ter as unidades automotivas do Grande ABC renovadas em produtos, em tecnologia e em qualificação da mão-de-obra, mas isso é muito pouco. Os executivos das montadoras não têm nada a ver com isso. A responsabilidade maior é das autoridades públicas e lideranças econômicas locais.

Apenas São Caetano aumenta

Índice de Participação no Estado

 DANIEL LIMA - 04/02/2010 

O repasse do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) pelo governo do Estado caiu 19,19% no Grande ABC no período de 1997 a 2008, último dado disponível na Secretaria da Fazenda. A base de comparação é 1996. Ou seja: são 12 anos de intervalo entre o período de fertilidade do Plano Real, que estava bombando, e os fogos de artifício que saudaram o segundo ano da reeleição do presidente Lula da Silva. O PIB cresceu 1,1% em 1996 e 5,1% em 2008. A queda do ICMS é recorrente no Grande ABC e vem desde muito, muito mesmo. Por isso, alguns dados seletivamente organizados para tentar pinçar individualidades e desprezar o conjunto da obra não devem ser levados a sério até que se apresentem sustentáveis. Falando sem rodeios: quando algum representante da Prefeitura de Santo André destila números que, espertamente, abrangem a administração petista, da qual não tenho nem quero procuração de defesa, o melhor é desconfiar. A queda de Santo André não é única na região. Dependendo do período, é menor que a de outros municípios nestes últimos 12 anos.

Afinal, quantas lojas de shopping 

ainda comporta esta Província?

 DANIEL LIMA - 25/11/2011 

Ando me perguntando sobre os limites da Província do Grande ABC quando se referenciam o potencial de consumo e a oferta de lojas em shopping. A perspectiva é de overdose de empreendimentos ou o que se anuncia vai preencher espaços ociosos no bolso do consumidor? Além da chegada do ParkShopping, em São Caetano, anunciam-se novos shoppings e a ampliação dos mais antigos. Há uma década um especialista no assunto, Henrique Falzoni, garantia que o tempo de jogo de consumo nos centros de compras da região já estava esgotado. Mas isso faz tempo, muito tempo, e tudo muda, não é verdade? Às vezes, muitas vezes, para pior. Confesso que estou com pelo menos um pé atrás. Ainda estamos pagando o pato da globalização combinada com a descentralização industrial que ceifou a trajetória de centenas de empreendimentos de porte na região. Não bastasse isso, vem por aí uma segunda leva de complicações macroeconômicas. E desta vez há projeções de que será bem mais enroscada que a primeira, que negativou o PIB brasileiro em 2009.

Velha indústria regional segue a 

comer poeira de investimentos

 DANIEL LIMA - 15/02/2012 

Somente os ignorantes de pai e mãe acreditam que o futuro da Província do Grande ABC ainda passa pelo setor de transformação industrial tradicional, força-motriz da classe média que se forjou aqui. O que temos no setor industrial é o quase tudo que restou das grandes mudanças ocorridas nos anos 1990, principalmente, e o que teremos no futuro é o que possivelmente não encontrará vantagens ao debandar dessa encalacradíssima geografia metropolitana dominada pelo mercado imobiliário ganancioso, manipulador e inconsequente. Estamos fadados a ficar não necessariamente com o que nos interessa para o desenvolvimento econômico sustentado, mas com o que é possível no cada vez mais brutal campeonato nacional de investimentos. Fomos rebaixados à Segunda Divisão de novos empreendimentos. Ou quem sabe à Terceira Divisão. Só nos mantemos na Primeira Divisão Industrial por conta dos investimentos do passado, mas, como se sabe, passado também vira museu. 

Luiz Marinho perde fábrica da 

Mercedes para Iracemápolis

 DANIEL LIMA - 22/10/2013 

O prefeito Luiz Marinho fez de tudo para trazer a fábrica de automóveis da Mercedes-Benz para São Bernardo, na planta de caminhões e de ônibus da multinacional alemã com espaços físicos ociosos demais por conta de históricas reengenharias de produção. As negociações se prolongaram durante meses, mas o ex-dirigente sindical acabou derrotado pela pequenina Iracemápolis, na região de Piracicaba. Pesaram vários vetores. Parte deve ser debitada a um sindicalismo regional dos metalúrgicos da CUT (Central Única dos Trabalhadores) que, na linha de frente, não é tão dócil quanto as lideranças que aparecem na mídia querem fazer crer. Em parte porque a Província do Grande ABC perde competitividade ano após ano, na exata medida em que as chamadas deseconomias de escala ajudam a fazer a diferença entre rentabilidade satisfatória e rentabilidade a fórceps. 

Sindicalismo faz parte do problema 

mas foge de soluções na Província

 DANIEL LIMA - 25/07/2014 

Uma entrevista do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (que abrange São Bernardo e Diadema), disponível nas páginas digitais do jornal ABCD Maior, fortalece a certeza de que as soluções para os emaranhadíssimos problemas da economia da Província do Grande ABC não passarão tão cedo pelos representantes dos trabalhadores empregados.  Rafael Marques, bancado pelo prefeito e ex-sindicalista Luiz Marinho para comandar a quase inútil Agência de Desenvolvimento Econômico, tem os olhos fixos, o coração entregue e a alma amalgamada nos interesses corporativos. Tudo está concentrado nos trabalhadores empregados que integram em larga escala o quadro de associados.  O sindicalismo, notadamente o dos metalúrgicos com atuação proeminente nas montadoras de veículos de São Bernardo, bem como nas autopeças de maior porte, é historicamente parte das complicações econômicas e sociais da Província do Grande ABC. Não com a força dominadora que muitos lhes atribuem, mas também não tão distante dos efeitos colaterais como seus representantes querem fazer crer.   

Proteção ao emprego é uma 

roubada para os pequenos

 DANIEL LIMA - 26/11/2015 

O PPE (Programa de Proteção ao Emprego) tão festejado pelos sindicalistas, especialmente os sindicalistas metalúrgicos de São Bernardo, autores do lobby junto ao governo federal, é um complicador a mais nas já complexas relações comerciais entre pequenas e grandes empresas do setor automotivo, principalmente. Qualquer número que venha a ser desfraldo pelos sindicalistas na tentativa de mostrar o lado róseo do projeto levado adiante pelo governo Dilma Rousseff não passa de marketing corporativo comum na classe. De fato, para valer mesmo, como as pequenas, em larga margem, não têm condições legais de se habilitarem ao benefício financeiro, e as grandes o utilizam na medida em que a economia rateia, mais se acentuam divergências ao ajuste de valores da cadeia de fornecedores.  O PPE é, portanto, uma grande contradição do sindicalismo regional que agremiações congêneres resolveram adotar. É contradição na medida em que o discurso petista de proteção aos mais pobres só tem validade, se ainda tem porque a recessão está aí para provocar estragos, no social. As grandes empresas, sobretudo as montadoras de veículos, usufruem das medidas para de alguma forma atenuar os estragos que afetam os resultados financeiros e com isso transferem às pequenas o custo de ajustes mais drásticos. Uma situação que as vulneraliza diante das grandes.  

Que os sindicalistas intocáveis 

caiam na real, ou estamos fritos

 DANIEL LIMA - 06/09/2016  

Não é de hoje ou de ontem, mas de muito antes de anteontem que sou crítico comedido mas nem por isso acomodado do sindicalismo na Província do Grande ABC. Notadamente o sindicalismo dos metalúrgicos de São Bernardo e de outros municípios locais sob a influência da dinastia que começou com Lula da Silva, no final dos anos 1970. Os metalúrgicos gozam de prestígio na Imprensa porque a maioria dos profissionais de comunicação devota aceitação tácita a tudo o que ouvem. Eles, os sindicalistas, são quase que santificados. Suas declarações não encontram jamais uma vírgula de contestação de quem quer que seja. Os empresários os temem por razões mais que óbvias. E quando ouvidos evitam o contraditório, mesmo que estejam comendo o pão que o diabo amassou. Os sindicalistas são intocáveis, por assim dizer. Os escândalos dos fundos de pensão, que somente agora emergem, são resultados, entre outros, da complacência com que a Imprensa trata o sindicalismo nacional, que não presta contas a ninguém.

Polo confirma dramaticidade da 

Volkswagen em São Bernardo

 DANIEL LIMA - 27/06/2017 

Ouvi em novembro de 2001 (portanto no começo do novo século) um executivo da Volkswagen de São Bernardo. A Entrevista Especial com Enrique Lozzano à revista LivreMercado está disponível neste site, como muitos exemplares do acervo daquela que durante quase duas décadas foi a melhor publicação regional do País. Descubro agora, por conta dos novos investimentos da Volkswagen, capitalizados pelo prefeito Orlando Morando, que aquele trabalho se tornou histórico. A montadora mais antiga da região vive situação dramática que o Novo Polo poderá aliviar. Ou seja: o investimento anunciado na semana passada é contraditório porque tanto pode ser motivo de festa como de inquietação. A expressão “vai ou racha” não seria um exagero. Antes, disso, é um desafio. A cantada de caçapa daquele profissional de Recursos Humanos à revista Livre Mercado não foi levada a sério por muitos agentes econômicos e sindicais da região. Declarações certeiras, se querem saber. Nesta Província, tudo que é sério, mas sendo supostamente desfavorável às cores locais, ganha a prateleira de catástrofes. Coisa típica dos triunfalistas que não querem largar o osso da riqueza seletiva. 

Doença Holandesa e Síndrome 

de Estocolmo emperram região

 DANIEL LIMA - 25/04/2018 

Uma novidade editorial no mercado de informações do setor automotivo foi proporcionada na edição de ontem da Folha de S. Paulo pela jornalista Estelita Hass Carazzai. Diretamente de Washington, Estelita inquiriu o presidente da Volkswagen no Brasil e na América Latina, Pablo Di Si, numa entrevista completamente fora da normalidade reverencial com que jornalistas brasileiros costumeiramente se dirigem tanto aos executivos das montadoras quanto aos sindicalistas ligadas à indústria automotiva. A pergunta-chave ao presidente da multinacional alemã que tem história na Província do Grande ABC jamais foi feita por qualquer profissional do ramo nestas terras: as montadoras estariam chantageando o governo federal? Retiraria a interrogação se o título deste texto fizesse referência direta à suposta chantagem, não à dupla enfermidade regional. 

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