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Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (22)

  DANIEL LIMA - 14/03/2019

A edição de número 21 da newsletter OmbudsmanDiário está imperdível. Não faltavam assuntos naquele 30 de junho de 2004. Ocupava posto inédito e único de ombudsman do Diário do Grande ABC, publicação cuja diretoria de Redação assumi em seguida. Atuei durante 11 meses com o Planejamento Editorial Estratégico debaixo do braço. 

Em 30 de junho de 2004 vivíamos um Grande ABC efervescente. Particularmente Santo André, eufórica com a decisão da Copa do Brasil entre o Ramalhão e o Flamengo, programada para aquela noite no Maracanã. A segunda maior competição nacional surpreendentemente tinha como um dos protagonistas um Santo André pequeno demais ante o clube de maior torcida do País. Seria uma noite de glória. Tanto que não houve edição do OmbudsmanDiário no dia seguinte. Sentia o peso dos rescaldos da comemoração. 

Edição número 21

Hoje é dia de decisão da Copa do Brasil. Confesso que estou com o coração na mão. Estou preparado para uma derrota, para um empate desclassificador, mas também estou ansioso por comemorar um grande feito. Nem mesmo esse dia especialmente diferente nos retirou da missão de ombudsman, nós que estamos na terceira semana dessa jornada. Dou maior ênfase ao caso Celso Daniel, mas também trato de outros assuntos. Todos referentes à edição de hoje. 

 Primeira página

Bastante enriquecida com chamadas abundantes da região e com esperado destaque à decisão entre Santo André e Flamengo.

 Caso Celso Daniel

Nosso jornal foi o que melhor cobriu o julgamento de ontem no Tribunal de Justiça de São Paulo. Por vários motivos. A começar do título ("TJ adia pedido de prisão de vereador de Santo André"), muito mais preciso e equilibrado que o do Estadão ("TJ decreta prisão de Klinger e Ronan") e da Folha de S. Paulo ("TJ decreta prisão preventiva de vereador e 5 empresários"). É verdade que faltou um box com a cronologia sintetizada do caso, como o Estadão e a Folha apresentaram, mas nosso jornal foi mais substancioso nas informações. Deixou a superfície do julgamento em si e ouviu inclusive o advogado de defesa.

Está mais que comprovado que o Estadão definitivamente perdeu a compostura jornalística nesse caso, porque não lhe interessa, jamais, apresentar noticiário que conflite com a unilateralidade do Ministério Público Estadual instalado em Santo André. E o que significa essa unilateralidade? Que todos aqueles que procuram responsabilizar os denunciados como mandantes do assassinato do prefeito Celso Daniel devam merecer o máximo de atenção e espaço. E, inversamente, todos aqueles que se apresentarem como contraponto a essa ditadura da versão única, ou versão seletiva, devam ser excluídos do rol de entrevistados.

A Folha de S. Paulo, por outro lado, mesmo sem apresentar postura constantemente justa, tem-se mantido, principalmente nos últimos tempos, muito mais próxima do que se poderia chamar de democracia da informação. Nosso jornal, que errou muito ao longo desse caso, manipulado por interesses diversos, preso aos promotores públicos, entregue à sanha de vínculos pouco nobres entre alguns de seus integrantes e fontes suspeitas, parece que começa a recuperar o terreno. Mas ainda há muito o que melhorar. Como, por exemplo, principalmente agora, ir a fundo no julgamento do caso que está no Supremo Tribunal Federal e cujo resultado decidirá, inclusive, a sorte de Sérgio Gomes da Silva e dos envolvidos nas denúncias de supostas propinas.

Se o jornal quiser fazer grande matéria, disponho de uma fita em que um dos promotores do Gaerco comete, a meu ver, um deslize monumental, numa entrevista recentemente dada a uma emissora de rádio. Trata-se de algo condenável quando se coloca a função de promotor de Justiça livre de deduções e pressupostos. Será que o jornal tem coragem para, de posse desse material, questionar o promotor em questão? Sem contar que o caso José Cicote também não pode cair na vala comum do esquecimento, depois de o jornal torná-lo público.

 Copa do Brasil (I)

O jornal deu show de cobertura hoje sobre a final da Copa do Brasil entre Santo André e Flamengo. Está bem acentuado pelo comparativo com Estadão e Folha que devemos valorizar nossas potencialidades culturais, porque aquelas publicações, na maioria dos casos, só se preocupam mesmo com nossas eventuais mazelas, dando-lhes amplo destaque.

 Copa do Brasil (II)

Juro que estou esperando que a edição de amanhã, independentemente do resultado, consiga levar aos leitores o comportamento da TV Globo na transmissão do jogo. O ideal é que alguém enfronhado na área esportiva, que saiba o que é uma bola de futebol, analise a transmissão do espetáculo pela principal emissora de TV do País. Sugeri na semana passada que se destacasse um jornalista de Cultura & Lazer e mantenho a proposta -- desde que o escalado saiba o que é um jogo de futebol. Afinal, as nuances vão muito além do que imaginam os poucos afeitos aos negócios e negociatas do futebol.

 Copa do Brasil (II)

Nada impede que também sejam ouvidos torcedores do Santo André que acompanharão o jogo em bares e restaurantes. O ambiente desses espaços coletivos é sempre instigante à informação diferenciada. Traduzir a reação de torcedores durante os 90 minutos, em detalhes, seria apetitoso desdobramento do jogo.

 Copa do Brasil (III)

O memorialista Ademir Medici, preciosidade que o jornal precisa realçar mais, inclusive com chamadas de primeira página, poderia ter tido a coluna transferida para as páginas de esportes nestes dias em que o Santo André é o grande assunto regional. Ademir tem informado diariamente sobre aspectos históricos do Santo André. Lembro que na última Copa do Mundo a Folha de São Paulo levou seus principais colunistas para o caderno de esportes. O jornal precisa se preparar para quebrar paradigmas. Há situações que exigem remelexo espacial. Ademir é profissional de alto nível, mas excessivamente discreto. Para azar da companhia.

 Legislativo enxuto

A Folha de S. Paulo foi o único jornal que fez reparo, mesmo assim residual, à notícia de que o Senado manteve o corte de 8.528 vereadores sem que isso represente, necessariamente, corte nas despesas. Regionalizamos corretamente o assunto, com a perda de 30 vereadores, mas mais uma vez não conseguimos fugir da superficialidade. Há dados consolidados no site do Instituto de Estudos Metropolitanos sobre gastos dos legislativos de mais de meia centena dos principais municípios paulistas, cujos valores permitem série de avaliações. É impressionante como o jornal perde oportunidades ímpares para marcar gol de placa.

 Legislativo demais

A cobertura de decisões das Câmaras de Vereadores precisa ser remanejada em termos de abordagem, retirando-lhe o foco essencialmente legislativo. Um exemplo está na página 2 do caderno Política Grande ABC de hoje, sob o título "Câmara de Diadema aprova programa de recuperação fiscal". Sob o enfoque que sugiro, o título deveria seguir mais ou menos a seguinte linha: "30 mil inadimplentes de Diadema podem parcelar dívidas". Afinal, é isso que está explícito no segundo parágrafo da matéria. Não é fácil acabar com cultura de décadas de submissão à pauta legislativa, mas é preciso começar. O enfoque econômico-administrativo permitiria profundidade e se tornaria muito mais interessante e didático aos leitores.

 Saúde em Mauá

Está boa a cobertura sobre o caso de saúde em Mauá que matou três pessoas. O jornal soube valorizar o tema, inclusive com matéria de fundo sobre a preocupação da comunidade local.

 Primeiro Plano (I)

Mais uma vez o Primeiro Plano foge da linha ao publicar algo tipicamente noticioso, sobre o ritmo das eleições na Fiesp, num espaço que deveria ser de notas informativas e, se possível, quentes.

 Primeiro Plano (II)

Mereceria muito mais que uma notinha de Primeiro Plano a informação sobre acordo entre o presidente do BNDES e o deputado federal Vicentinho Paulo da Silva para implementação da Universidade do Empreendedor. Exceto se foi de última hora -- e, portanto, inviável à tradução mais detalhada --, não há justificativa para o erro. Se de fato houve esse acordo, o jornal precisa correr atrás da informação, dar-lhe consistência e abrir manchete. Aparentemente, com muito menos munição (até agora não provada) o jornal deu recentemente um destaque impressionante a suposto investimento alemão em São Bernardo, fruto de suposta diplomacia empresarial do mesmo deputado federal.

 Transporte público 

Convém Setecidades ficar atenta ao noticiário sobre o bilhete único implantado em São Paulo pelo governo de Marta Suplicy. Por que não se discute algo semelhante na região? Temos território muito menor que o da Capital e quem se desloca entre os municípios locais sofre com o desencaixe de recursos financeiros, o que ajuda a elevar o chamado Custo ABC. Como está essa questão no Consórcio de Prefeitos? O bilhete único municipal pretendido por Santo André é apenas parte de um problema muito maior a ser resolvido: o bilhete único regional. Isso mesmo -- bilhete único regional. Ou será que a tal de integração regional só serve mesmo para distribuir bônus eleitorais da divisão da Universidade Federal em vários campi no Grande ABC? Há especialistas no assunto que poderiam falar sobre o assunto.

 Senhora do Destino

Ao dar destaque à nova novela das nove da Globo, com texto crítico de Patrícia Vilani, espero que o jornal não se esqueça de, ao final de mais um folhetim, acompanhar o desenlace igualmente com análise de peso. O Brasil parou na última sexta-feira para ver quem matou Lineu e, como se sabe, os assinantes e leitores do jornal ficaram a ver navios nas edições seguintes.

 Eleições na Fiesp

O jornal Valor Econômico publicou matéria competente sobre as eleições na Fiesp. Com interpretação serena, correta. Um estilo que nosso jornal ainda, infelizmente, demorará muito para alcançar como um todo, como uma marca. Mas nada que não seja possível com trabalho, com união e dedicação.

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