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Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (23)

  DANIEL LIMA - 19/03/2019

Durante o período em que exerci a função de primeiro (e único) Ombudsman do Diário do Grande ABC, entre junho e julho de 2004, reproduzi de forma fatiada o que chamei de Planejamento Editorial Estratégico. Preparara aquele documento num final de semana no Interior do Estado, preparando-me para assumir a direção editorial do jornal.

Entretanto, como a posse foi adiada por desavenças envolvendo os acionistas do jornal, decidi como ombudsman repassar tanto a eles quanto a diretores e editores o que preparara para aplicar à frente da publicação. Na edição de 1º de junho de 2004, reproduzi na edição número 22 de OmbudsmanDiário, o item relativo à parceria projetada entre Diário do Grande ABC e a Editora LivreMercado.

OmbudsmanDiário foi a ferramenta de comunicação que criei para manter a direção e os editores informados sobre as observações críticas a cada edição do jornal. Leiam aquele boletim.

Edição número 22

As relações corporativas entre Editora Livre Mercado e Diário do Grande ABC vão depender também de áreas além do setor de insumos, mas no que estiver sob nosso gerenciamento não há dúvidas de que prevalecerão medidas cooperativas para racionalizar custos e implementar receitas. O Prêmio Desempenho, realizado há 10 anos pela Editora Livre Mercado e poucas vezes tratado como produto da companhia Diário do Grande ABC, será pela primeira vez compartilhado dentro dos limites redacionais que esperamos frutíferos. Para isso, entretanto, teremos de fazer série de adaptações para corrigir posicionamentos do jornal. 

Vamos a um exemplo prático e insofismável: raramente, muito raramente, e mesmo assim sem o conhecimento necessário na formulação dos cases, o Diário do Grande ABC publica reportagens que contam histórias de sucesso de nossos empreendedores privados, governamentais e não-governamentais, marca registrada do Prêmio Desempenho. Prefere o jornal flutuar na superficialidade de noticiário do dia-a-dia, alguns importantes, outros apenas para preenchimento do espaço. Essa deformação é uma das sequelas da escravizante teoria e prática de o jornal pretender competir com os grandes veículos da Capital sem, entretanto, contar com meios materiais e humanos para tanto. Por isso é relevante que o jornal tenha vocação e vontade editorial para acrescentar a livre iniciativa regional -- sobretudo de pequeno e médio porte -- em seu portfólio de publicações. Não fosse a Editora Livre Mercado -- e isso é comprovável com simples ida aos arquivos --, os empreendimentos privados e mesmo os programas públicos e não-governamentais consagrados pelo Prêmio Desempenho seriam desconhecidos do público. 

Não é preciso ir longe para pinçar alguns exemplos clássicos de que o Prêmio Desempenho, extensão da linha editorial de LivreMercado, firmou compromisso de reconhecimento dos cases de sucesso na região. Basta ver quantas vezes a Coop, a Bridgestone Firestone e tantas outras empresas regionais tiveram atuações destacadas além do noticiário convencional. Nossa aproximação com a Bridgestone Firestone em 1999 se deveu a um case que escrevemos depois de entrevista com o presidente Mark Emkes, hoje dirigente máximo da companhia nas três Américas. A Reportagem de Capa -- "A Lista de Emkes" -- foi um sucesso extraordinário, entre outras razões, porque contamos como aquele norte-americano manteve a fábrica de capital japonês no território de Santo André. Ele conseguiu iniciar a injeção de mais de US$ 200 milhões de investimentos em contraposição à sedutora guerra fiscal que pretendia levar a indústria para outro município brasileiro, fértil em isenção de impostos. Mark Emkes acabou eleito Empresário do Ano da Acisa, o case ganhou o título de Melhor dos Melhores do Prêmio Desempenho e o Legislativo de Santo André conferiu-lhe o título de Cidadão Andreense. Tudo depois daquela Reportagem de Capa. 

As relações históricas do Diário do Grande ABC com a iniciativa privada no formato proposto e executado pelo Prêmio Desempenho jamais se efetivaram. De fato, o jornal é mais conhecido dessas e de tantas outras empresas apenas pela publicação nos cadernos de classificados de empregos -- muito mais no passado do que no presente, é claro. Esse descompromisso editorial precisa ser reparado com certa urgência, já que o Projeto Diário50Anos depende também da sensibilidade editorial da companhia. Quando os insumos desprezam o território do qual o jornal vive economicamente, optando pelo descarado Complexo de Gata Borralheira de considerar 20 novas mortes no Irã mais importantes que os investimentos de uma metalúrgica de Diadema, o tamanho do rombo de inter-relacionamentos editoriais e comerciais é maior do que se imagina. 

Percebe-se, portanto, que há um vácuo dividindo o jornal e a classe empresarial. Foram na realidade poucos os momentos na história do Diário do Grande ABC em que as empresas locais lhe interessavam como nutriente editorial. Lembro que ao assumir a redação do jornal em 1983, quando cuidei pessoalmente da tropa nos aspectos operacionais, sem poder de decisão para implementar estratégias mais profundas, encontramos uma Editoria de Economia com apenas dois profissionais. Quando deixamos o cargo, dois anos depois, tínhamos oito profissionais e confesso, mesmo assim, naquela oportunidade, ainda não foi possível transmitir a importância de um jornalismo econômico regional. Viemos a empreender essa proposta em 1990, quando criamos LivreMercado e ainda estamos amadurecendo o projeto, porque há sempre inovações a ser aplicadas. 

Temos muito o que construir na Editoria de Economia do Diário do Grande ABC, para onde haveremos de concentrar não só esforço de descoberta desse filão há muito identificado com a revista do grupo como também da própria dinâmica de recuperação da economia regional mais fortemente abalada pelos sucessivos planos econômicos que nos tiraram parte da riqueza industrial e do potencial de consumo. Quem acompanha diariamente as páginas do jornal sabe o quanto essa editoria está alquebrada. A Economia do Grande ABC praticamente inexiste no Diário do Grande ABC, e quando aparece, se transforma num terror de imprecisões e manipulações de fontes suspeitíssimas. O pesquisador João Batista Pamplona, durante três anos porta-voz da Agência de Desenvolvimento Econômico, foi demitido por causa dos constantes desmascaramentos estatísticos e interpretativos aos quais o submetemos. Durante todo aquele período ele -- e outros pesquisadores menos ostensivamente deletérios nas informações -- se tornou verdadeiro ídolo dos jornalistas do jornal. Incapazes de compreender as nuances econômicas locais, entregues às baratas de uma hierarquia interna mambembe que simplesmente joga a editoria às traças, e embalados pela cegueira de um triunfalismo pouco lúcido, os responsáveis pela Economia do Diário do Grande ABC cometeram as maiores sandices informativas -- documentadas especialmente no livro "República Republiqueta", que lancei em 1º de abril de 2003 em homenagem sarcástica a todos aqueles que usam a mídia para interesses muitas vezes inconfessos e outras vezes por pura falta de competência. 

É por essas e outras razões que convém assinalar neste documento que consideramos improrrogável uma aliança estratégica e operacional entre os membros da redação da revista e do jornal -- sempre com cuidados iniciais para que não se gere melindres. Poderemos maximizar a carga horária dos profissionais, bem como as próprias coberturas. Um simpósio que se realize dentro ou fora do território regional e cujo temário é de fundamental importância para a concepção editorial do jornal e da revista -- no caso as questões metropolitanas -- poderá ter a cobertura de um jornalista da revista, mais enfronhado no assunto. A diferença entre o padrão de cobertura atual e o novo é que o Diário não dá importância ao tema, embora seja o veículo mais importante da Região Metropolitana depois dos diários sediados na Capital. A revista cobrirá o acontecimento, dando-lhe formato de texto adequado de revista, mas o repórter também ocupará espaços nos dias do evento com a descrição da série de debates. Aos poucos incorporaremos aos quadros de Economia do Diário do Grande ABC os preceitos de coberturas regionais, com ênfase nos cases que serão levados ao Prêmio Desempenho, as nuances das ações e inações das secretarias municipais de Desenvolvimento Econômico, ao imbróglio das Regiões Metropolitanas, principalmente da Grande São Paulo, e também aos pequenos negócios que eventualmente não estejam preparados para galgar o Prêmio Desempenho mas que tanto carecem de visibilidade -- como fazemos hoje na revista. Enfim, repassaremos ao jornal a cota da cara econômica que tanta falta lhe faz inclusive com objetivos comercias decorrentes da sinergia ética entre os departamentos de redação e comercial.

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