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Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (24)

  DANIEL LIMA - 22/03/2019

Estamos nos aproximando do encerramento dessa série que resgata a newsletter OmbudsmanDiário, ferramenta que criei como primeiro e único Ombudsman do Diário do Grande ABC, função que exerci em duas temporadas – a segunda foi 10 anos depois. Nesta edição, de 2 de julho de 2004, quando me preparava para assumir a direção editorial do jornal, trato do quesito que chamei de “operacionalidade”, o qual compunha o Planejamento Editorial Estratégico que preparei para o jornal. 

Sugiro aos leitores uma leitura atenta à dosagem crítica do documento que pautou minha atuação no Diário do Grande ABC tanto como Ombudsman como Diretor de Redação. 

A contextualização dos fatos é muito importante à avaliação do diagnóstico que apresentei para o jornal reagir. 

Edição número 23 

Somente um diagnóstico que leve em conta o dia-a-dia de produção conseguirá aferir sem maiores riscos o grau de eficiência, de eficácia e de ineficiência do jornal. A diferença entre eficácia, eficiência e ineficiência é a mesma entre um goleador que marca gols em profusão mas inúteis contra adversários de baixo nível e sempre nega fogo quando se vê confrontado com a imperiosidade de decidir; um goleador que distribui artilharia harmoniosamente, sempre nos momentos mais delicados, sempre quando um gol faz a diferença de pontos preciosos; e um goleador em fim de carreira, incapaz de recuperar a velha forma e que, portanto, vive única e exclusivamente do passado. Eficiência é fazer o melhor com mais agilidade, com alta rentabilidade individual, com amplo compartilhamento coletivo. Os artilheiros mais confiáveis são aqueles para os quais não converge toda a atenção de seus companheiros, mas são capazes de integrar-se de tal forma ao conjunto que extraem dessa simbiose os melhores resultados. 

Detestamos apressar o passo sobretudo quando não contamos com fluxo de informações que consubstanciem argumentos. Entretanto, nos últimos dias, por força das circunstâncias e depois de receber relatório com nomes, datas de contratação, funções e salários dos profissionais da área de conteúdo do Diário do Grande ABC, chegamos a algumas conclusões precárias, mas que, nos primeiros 30 dias de trabalho, poderão configurar-se autênticas veredas sobre as quais introduziremos nossa metodologia. Aparentemente, há número desproporcional de profissionais de áreas-fim em relação às áreas-meio. Profissionais de áreas-fim são aqueles cujos nomes podem diariamente ser identificados pelos leitores, porque têm trabalhos assinados. Profissionais de áreas intermediárias estão na retaguarda. Suas identidades raramente chamam a atenção dos leitores porque o mercado consumidor é implacável com as aparências: não se compra um produto editorial pela retaguarda operacional, mas pelo pelotão de frente dos formuladores de textos e fotografias. 

Esse desbalanço -- insistimos em dizer que se trata de constatação sujeita a revisão durante o período de diagnóstico -- poderia denunciar o enquadramento da área de conteúdo do Diário do Grande ABC na saia justa de um verbete que causa calafrios em quem procura encurtar sempre e sempre e de forma pragmática a distância entre dois pontos: burocratismo. Isso mesmo. Há cheiro de burocratismo no ar -- ou melhor, no relatório que recebi e que espero não reúna a amplitude que inicialmente vislumbro. Não consigo entender -- e jamais vou ceder à tentação de me convencer de algo absolutamente sem nexo -- que jornalistas contratados para escrever e exercer outras funções correlatas não consigam dar o recado inteiro. 

Há profissionais no Diário do Grande ABC que simplesmente desapareceram dos radares de identificação explícita do produto. Basta lançar mão da coleção no arquivo e confrontar as assinaturas dos autores das matérias e das fotografias com o quadro de colaboradores. É claro que trabalham, porque senão não estariam na empresa, mas trabalham provavelmente mal: exatamente por serem os mais experientes não conseguem se comunicar diretamente com os leitores, expondo conhecimentos em forma de matérias, de artigos, de posicionamentos que ajudam a dar personalidade ao produto. 

O que se passa, então? Na medida em que escrevemos, mais nos arriscamos a garantir que há um emaranhado funcional no setor de conteúdo do Diário do Grande ABC que afronta os critérios de produtividade. Por mais que o cotidiano seja intenso -- e o é realmente numa redação de jornal diário -- não existe justificativa sustentável para o editor desaparecer das páginas -- exceto a burocracia, evidentemente. A multifuncionalidade já mencionada contribuirá imensamente para recolocar as peças nos devidos lugares. Editor que não escreve é como pedreiro que não assenta tijolo, é como cantor que não canta, é como piloto que não dirige; ou seja, é a negação descarada da função. 

Provavelmente, muito provavelmente, por força dessas mais que evidentes anomalias estruturais em que se privilegia sobremodo o tecnicismo funcional em detrimento da exploração do potencial de cada profissional, o Diário do Grande ABC apresente a singela marca de conferir a boa parte de seus colaboradores um sistema de banco de horas que premia enormemente a mão-de-obra e sacrifica terrivelmente o produto. Enganamo-nos ao afirmar ainda outro dia que há funcionário da área de conteúdo que já gozou de férias de 60 dias por conta do banco de horas. Desconhecia até então que há situações mais alarmantes -- um colaborador teria descansado quase 120 dias corridos. 

Não são apenas os dias corridos que corrompem e desmantelam qualquer enunciado voltado à qualidade do produto. Também há operações pinga-pinga, bate-volta, de três, quatro, cinco dias de descanso remunerado. Essa intermitência funcional é quase tão danosa quanto os casos de turismo remunerado. O Diário do Grande ABC talvez tenha se esquecido da lógica acaciana de que, ao desprezar o consumidor de informação em favor de vantagens funcionais a seus colaboradores, o mesmo consumidor surrupiado pela imprecisão das informações também pode -- e geralmente o faz -- esquecer o jornal. 

Já imaginaram se uma linha de produção de qualquer coisa menos dependente de cérebro -- as linhas de montagem de veículos, por exemplo, cada vez mais automatizadas -- também contasse com esse disparate metodológico? É provável que os casos de recall seriam muito mais frequentes e o comprometimento da imagem da companhia não se tornasse apenas uma tempestade passageira. Fossem as férias curtas ou longas no campo editorial uma ousada inovação de se tirar o chapéu, as telenovelas da Globo provavelmente se inspirariam nesse modelo de reformismo funcional, retirando de cena durante vários capítulos importantes personagens de seus dramalhões sempre bem dirigidos. Um jornal não é outra coisa senão uma grande telenovela, com a vantagem de que há novos personagens a cada dia a acrescentar mais interesse dos leitores. Um jornal com uma equipe de colunistas de peso regional, por exemplo, segura a audiência. Como descartar que entre os colunistas estejam os editores, por exemplo? 

Ainda sobre essa questão -- a questão das férias prolongadas ou intermitentes decorrentes do banco de horas -- algumas conclusões emergem menos como especulação e mais como experiência prática. Primeiro: se há profissional cuja dispensa dos afazeres pelos quais foi contratado incide perfil tão escandalosamente antiprodutivo, é sinal de que não faz parte das necessidades vitais da empresa. Segundo: a negativa dessa avaliação, ou seja, de que o profissional em constante vacância funcional não estaria na lista dos improdutivos, requer da estrutura funcional urgente modificação. Qual é a solução? Controlaremos todos os setores de conteúdo da empresa num primeiro instante e, em seguida, repassaremos aos responsáveis por área os conceitos que serão imediatamente aplicados e que, em resumo, constarão do seguinte enunciado: em situação de normalidade, nenhum profissional deve gozar de período de férias ou de qualquer malabarismo de descanso que ultrapasse os limites convencionais ditados pela legislação, pelo bom senso e pelo dogma de que o produto está em primeiro lugar. 

Longe de mim imaginar que está em franca evolução na área de conteúdo do Diário do Grande ABC uma grande fuzarca funcional em que, deliberadamente, se construiu um banco de horas cuja finalidade principal seja sangrar a qualidade do produto. Embora essa suspeita seja apenas especulação, não conseguimos encontrar justificativas e explicações para o saqueamento permanente da engrenagem editorial. Quem seria capaz de opor-se à projeção que deslocaria maliciosamente o banco de horas do Diário do Grande ABC para a passarela carnavalesca da locupletação geral e irrestrita dos colaboradores? Como estabelecer e exigir valores laboriais à fixação e à manutenção de um núcleo editorial cujo amanhã seja a continuidade do ontem se parte dos colaboradores desaparece da linha de produção e, dadas as peculiaridades do descanso, acaba mesmo sem querer se desvinculando do compromisso social do produto?

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