Economia

Faltou mais sindicalismo na
desindustrialização da região

  DANIEL LIMA - 27/03/2019

O jornal Valor Econômico, que pratica o melhor jornalismo brasileiro, reservou manchetíssima (manchete das manchetes da primeira página) de ontem a um temário que se consolidou como uma das conquistas editoriais mais expressivas de CapitalSocial na esteira da inspiradora revista impressa LivreMercado, publicação que criei e dirigi por quase duas décadas.

Vejam a manchetíssima: “ABC decai e vira símbolo da desindustrialização no país” . É o resumo de uma reportagem sobre a qual faço um único reparo, considerando-se o espaço de duas páginas disponível: o sindicalismo não teve o destaque e a abordagem de acordo com a importância histórica dos fatos.

Tradução dessa frase: o sindicalismo tem peso descomunal no balanço geral da desindustrialização que apontamos há mais de 30 anos. Por conta disso, desse enfrentamento, tivemos muitos problemas com os poderosos de plantão. As análises supostamente prejudicariam os negócios privados e os investimentos públicos. Coisa de gente pequena, claro.

A direita e a esquerda burras se juntaram para me azucrinar a vida. Mas havia uma sociedade mais viva na região que me emprestava apoio. Tanto que LivreMercado suportou quase 20 anos de uma escalada improvável, ou seja, manter jornalismo de gente grande numa Província.

Derretimento estruturado

Há alguns pontos cardeais que marcam a trajetória decadente e comprometedora da região a partir do final dos anos 1970, coincidentemente com o surgimento do então glorificado e incensado sindicalismo liderado por Lula da Silva, em São Bernardo.

Relaciono, por ordem de importância, os principais vetores que derrubaram ao longo dos anos a economia regional, com consequentes estragos sociais:

1. Doença Holandesa Automotiva

2. Sindicalismo cutista.

3. Governo Fernando Henrique Cardoso.

4. Políticas econômicas estaduais.

5. Despreparo de Administrações Públicas locais.

6. Encalacramento logístico geral e irrestrito.

7. Inauguração do trecho sul do Rodoanel.

Praticamente, apenas o primeiro desses pontos ganhou o peso adequado na reportagem do Valor Econômico, mote da própria reportagem. Mas isso não significa que as abordagens não tenham contemplado o que chamaria de mais que uma fresta dos infortúnios locais.

Abriram-se algumas janelas que podem não ter oferecido a dimensão crítica necessária, mas formaram um ensaio geral que de alguma forma serviu à compreensão dos leitores, sobretudo de quem não vive ou mora no Grande ABC.

Dependência e pragas

A dependência exagerada da indústria automotiva fez do Grande ABC uma presa fácil às demais pragas que transformaram esse território em exemplo acabado de imprevidências generalizadas.

A desindustrialização, centro da reportagem do Valor Econômico, decorre desse elevado escravagismo produtivo.

Fizemos da glória lotérica nosso fracasso estruturante em várias dimensões. Nos tornamos uma sociedade acomodada, crente de que a galinha dos ovos de ouro jamais nos faltaria. Até que vieram políticas econômicas de outras esferas de governo e incentivaram a descentralização da atividade automotiva. E de tantas outras.

Já escrevi dezenas e dezenas de análises sobre os descaminhos econômicos da região com envolvimento dos demais fatores listados. Mas a relevância relativamente mais nociva do sindicalismo é inegável. Por uma singela razão: há meio século estamos convivendo com um modelo de sindicato que tem horror ao capitalismo, do qual depende, mas ao qual dedica as piores intenções.  

Mesmo nestes tempos bravios, em que empregos rareiam no setor industrial e o déficit acumulado nos últimos tempos é escabroso, não faltam rompantes extremistas de lideranças que adoram jogar para a plateia. A incorporação do sindicalismo hostil pelo partidarismo ideológico criou-se um monstro tupiniquim.

Empate superado

Até o começo deste século, colocava em igualdade de condições nocivas à indústria da região os sindicalistas sempre avessos a enxergar a sociedade como um todo, não o próprio umbigo corporativo e ideológico, e os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso.

Os sindicalistas, por razões já brevemente explicadas. E o governo FHC porque penalizou a sociedade produtiva regional ao imprimir uma abertura econômica nacional que afetou sobremodo as empresas familiares de autopeças em favor das montadoras. A descalibragem de alíquotas de importação, zerando para as pequenas e médias empresas e fechando as portas em favor das grandes, gerou desequilíbrio que praticamente exterminou a densa capilarização industrial. Praticou-se genocídio econômico que abalou a mobilidade social dos municípios.

Como o governo Fernando Henrique Cardoso teve fim e seus efeitos foram diluídos e neutralizados nos anos seguintes, sobrou em termos de confronto de negatividades a ação dos sindicalistas excessivamente hostis ao capital. O Valor Econômico não detectou que o movimento sindical segue destruindo o tecido produtivo da região. As ações se tornaram mais discretas. Comissões de fábricas espalharam-se nas médias empresas. O ambiente é apenas aparentemente menos agressivo. A mecânica de hostilidade cedeu espaço ao controle diplomático em relação ao passado.  

Paulinho mais certeiro

O prefeito Paulinho Serra foi mais sensato que o prefeito Orlando Morando na reportagem do Valor Econômico. “A região dormiu em berço esplêndido, acomodou-se num modelo antigo quando deveria ter buscado novas vocações”, disse o tucano de Santo André. Uma frase que lhe faltou assim que ganhou a eleição municipal em 2016, quando preferiu tom otimista que não cabia no figurino de crise sistêmica de Santo André e da região como um todo.

Já o tucano de São Bernardo encerrou a reportagem com uma frase que diz bem sobre sua personalidade política. Vejam o que declarou Orlando Morando: “Por favor, não enterrem a região no pessimismo”. Quem conhece a linguagem dos políticos em geral, e de Orlando Morando em particular, sabe a mensagem subliminar que passou aos leitores. Há uma mistura de sarcasmo e desagrado aos críticos. Houvesse realizado uma gestão com marcos importantes no setor econômico, Morando poderia até dar-se o direito de criticar quem se posta em posição de inconformismo com o andar da carruagem regional.

Entretanto, como até agora não enxergou a dimensão da batata quente que a história lhe reservou no campo econômico (a bola nas costas da Ford parece que ainda não o assustou no grau indispensável), prefere o facilitarismo de frase marquetológica.

Longe de mim querer atribuir a Orlando Morando parcelas significativas da derrocada de São Bernardo na tábua de classificação do PIB dos Municípios Brasileiros, como estamos cansados de registrar com detalhismos que acadêmico nenhum se prestou. 

Os antecessores lhe deixaram um abacaxi de desindustrialização estruturante cuja única exceção são as ilhas de excelência de algumas montadoras que ainda têm razões de sobra para estar na região – mas à custa de muito investimento e poucos empregos que sucedem uma longa jornada de baixas no mercado de trabalho.

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