Economia

Empregos e prosperidade nas
manchetes dos jornais locais

  DANIEL LIMA - 29/03/2019

Vivemos num mundo de fantasias. Por isso, juro por todos os juros, gostaria de acreditar na transposição dos sonhos à realidade. Manchetes de jornais impressos e digitais da região creditam mais de 15 mil novos empregos em pouco tempo com a substituição da fábrica da Ford de São Bernardo por um novo ocupante ainda desconhecido, enquanto o trecho bronze do monotrilho, vendido equivocadamente como metrô, colocaria no mercado de trabalho 12,5 mil trabalhadores, diretos e indiretos. 

Somando os mais de quatro mil deserdados que seriam salvos da Ford e a turma da prosperidade do monotrilho, resolvemos ou minimizamos os estragos na imagem econômica do Grande ABC, marca dolosamente registrada que deve ser debitada integralmente aos mandachuvas e mandachuvinhas da política e do sindicalismo que aqui deram e dão as cartas há mais de três décadas. 

A propósito e antes de dar prosseguimento ao tema da manchetíssima de hoje, escrevi nesta semana uma análise da reportagem especial produzida pelo jornal Valor Econômico sobre a desindustrialização da região. É claro que por ser gataborralheiresca, não faltou representante da região a considerar a matéria novidade. É o fim da picada. Há três décadas massificamos estudos que comprovam a degringolada regional. 

Consertando o estrago 

Mas não é sobre isso que quero fazer esclarecimento. Trata-se do título que editei para resumir aquela reportagem. Há um duplo sentido que seria contraditório em relação ao que cansamos de afirmar em todos os espaços possíveis. Que contradição? Leiam a manchetíssima que aprovei àquela análise: 

 Faltou mais sindicalismo na desindustrialização da região

Repararam os leitores (e como repararam, porque recebi vários e-mails reclamando de suposta contradição) que transmiti equivocadamente a ideia de que o sindicalismo da região não teria culpa no cartório? Mais que isso: se houvesse mais sindicalismo (a manchetíssima transmite essa ideia, não é mesmo?) não teríamos chegado ao fundo ou suposto fundo do poço.

O que houve para valer mesmo é que a manchetíssima se refere ao juízo de valor que fiz em relação à reportagem do Valor Econômico. Ou seja: segundo minha avaliação, respaldada pela história, o Valor Econômico não deu o devido peso às ações deletérias principalmente dos sindicalistas metalúrgicos. Escrevo isso naquele texto, daí ter puxado para a manchetíssima. 

Retomando à enxurrada de empregos na região, segundo as manchetes dos jornais, claro, não custa lembrar o quanto se plantaram flores semelhantes ao longo dos anos e não tivemos nada de efetivo, exceto o estado bruto e o cheiro de algo que se encontra facilmente em qualquer rua e avenida em que cães abandonados desfilam diariamente. 

Exemplos fartos 

Querem um exemplo? Um empresário do ramo imobiliário de São Caetano disse há mais de 20 antes, ante a possibilidade de construção de um Parque Tecnológico onde hoje temos um shopping, que seriam gerados cerca de 80 mil empregos diretos.

Mais um exemplo? O secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Bernardo, na Administração de Luiz Marinho, o economista Jefferson José da Conceição, fez uma projeção fabulosa de que investimentos programados pelo Município e pelo governo federal gerariam perto de 90 mil novos postos de trabalho.

Querem mais uma? O mesmo governo de Luiz Marinho (não é perseguição, não, é constatação) anunciou que a fábrica de componentes do projeto Gripem geraria mais de cinco mil empregos diretos. As mais recentes informações dão conta de que, se a fábrica sair do chão mesmo, de verdade, não acomodará mais de 200 trabalhadores. 

Questão essencial 

Todas essas notícias constam de meus arquivos. Exponho-as de memória porque estou numa correria de dar dó. Com tempo, faria uma exumação das bravatas, com datas precisas e, inclusive, com reprodução de trechos das reportagens.

Sei que pode parecer cabotinismo, mas meus radares estão sempre ligados. É uma obrigação profissional exercer a função com dignidade. E a dignidade de um profissional se mede também em atuar como efeito broxante às investidas viagrenses (que neologismo, hein?) dos poderosos de plantão. 

É por essas e outras que sempre digo aos meus filhos para não se impressionarem com cumprimentos afetuosos ou certo ar de desdém de interlocutores casuais em ambientes públicos que frequento cada vez menos.

O jornalismo que não se prende a convenções de bom-mocismo é o jornalismo mais odiado por quem se sente atingido. O jornalismo de acomodação não chega a esse estágio porque, por ser de acomodação, não é respeitado por ninguém e, como se sabe, está sempre disposto a flexibilizar. Prefiro ser amado e odiado com credibilidade do que sofrer as dores da indiferença dos ilusionistas. 

Tradução disso tudo: quem acredita que, para fazer média, vou sair cantando supostas vitórias econômicas da região sem que tenha indicadores sólidos de que não estamos vendendo vento, pode perder as esperanças. 

Estou acompanhando atentamente tanto o caso da Ford quando o lobby mais que escancarado em torno do consórcio de empresas que pretende manter as obras contratadas da linha 18 Bronze do monotrilho. 

Criou-se um falso ou forçado ambiente institucional pró-monotrilho. Nada necessariamente contra os lobbies, mesmo que dissimulados, mas, por razões já expostas sobre os limites desse monstrengo urbano e funcional, também nada (agora conceitual) a favor. 

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