Sociedade

Metrô, monotrilho, Domo,
especulação e muito mais

  DANIEL LIMA - 08/04/2019

Tenho providencial, esclarecedor e indispensável contraponto ao festival de besteiras que cercam o anúncio de que o Grande ABC luta pela chegada do metrô, quando na realidade o que teremos, se tivermos, é o primo pobre chamado monotrilho. Que venha o monotrilho, com as poucas vantagens e as muitas complicações econômicas que trará, mas que não o tratem de metrô porque aí não seria outra coisa senão fake news.

Afinal, que contraponto é esse? Perguntem aos moradores do Condomínio Domo, ao lado do Paço Municipal de São Bernardo, uma reserva típica de classe média-média, o que acham de ter o monotrilho como vizinho permanente às janelas. Eles já se manifestaram sobre isso no passado. E estarão em pé de guerra quando o monotrilho voltar a ameaçá-los.

Reformulem a pergunta e procurem saber o que eles, os moradores do Domo, achariam se o metrô de verdade passasse por ali, subterraneamente, como é a maioria dos trajetos do modal. É claro que fariam uma grande festa. Seus imóveis ganhariam às alturas em termos de cotação no mercado. 

Uma coisa e outra coisa 

Basta essa comparação (metrô versus monotrilho), utilizando-se de exemplo prático, porque de antecedentes, para eliminar qualquer dúvida sobre o caráter exclusivamente especulativo, típico de fake news, de suposta valorização de imóveis em circunstâncias específicas de investimentos em transporte público. 

Ou seja: o metrô valoriza para valer mesmo o metro quadrado de qualquer imóvel residencial e também comercial, mas o monotrilho, ah, o monotrilho é uma tranqueira para quem está muito próximo, como já escrevi, e serve relativamente bem em todos os aspectos, menos no aumento expressivo do preço do metro quadrado imobiliário, quando se está a distância relativamente confortável.

Menciono o empreendimento imobiliário Domo, conjunto de torres de apartamentos e de salas comerciais, porque é simbólico de uma das maiores covardias de marketing constituída na região, embora não seja a única. 

Durante o período de falso crescimento econômico do País, Grande ABC a reboque, com Lula da Silva à frente de uma bateria de festejos permanentes por conta da valorização de commodities, viveu-se aqui uma febre incontrolável, porque impune, de negócios imobiliários inescrupulosos. Roubalheiras jamais apuradas de fato campearam por aqui. Público e privado fizeram parcerias que assaltaram os contribuintes. Estatísticas mentirosas forjaram projeções de valorização do metro quadrado. Como se pretende agora com o monotrilho, tratado como metrô. 

Mas não é esse o ponto principal. Fico com o Condomínio Domo. O empreendimento com mais de uma dezena de torres em terreno onde durante décadas funcionou a Tecelagem Tognato, foi lançado num ambiente de redenção. Vendeu-se a solução definitiva à mobilidade sempre dolorosa que liga a região a São Paulo. O mapa da mina da velocidade combinada com tranquilidade estava à disposição de todos. 

Espertalhões imobiliários 

Anúncios dos espertalhões imobiliários colocavam São Paulo a menos de meia hora de São Bernardo, e São Bernardo a menos de meia hora de São Paulo. Uma maravilha. Com a suprema vantagem de que o apartamento dos sonhos custaria bem menos do que na Capital. 

O Condomínio Domo fez fortunas. Vendeu-se a preços elevadíssimos. Preços que hoje, muitos anos depois, não ultrapassam os valores nominais de então. Muitos metros quadrados foram vendidos a R$ 7 mil. Hoje não valem R$ 5 mil. Se tanto. Menos, claro, nos mais que suspeitos sites que ajudam a lubrificar a especulação imobiliária. Aliás, foram lançados com essa finalidade. E com a complacência da mídia. 

De fato, os imóveis do Grande ABC custam bem menos que algo semelhante na Capital, mas esqueceram de dizer que esse é o preço entre morar na maior cidade do País, uma terra ainda de oportunidades, e na Capital Econômica de uma Província decadente. 

Os compradores de imóveis do Condomínio Domo pagaram os tubos por causa da ignorância. A especulação imobiliária foi massiva em todos os quadrantes do País, e no Grande ABC não seria diferente. Até porque, os jornais faturaram horrores com a corrida imobiliária regada pela generosidade de financiamentos oficiais. Até que quebraram a banca, como se sabe. Um derivativo da bolha imobiliária se instalou no País. Tanto que os principais bancos comerciais viraram grandes corporações imobiliárias.

Abuso explícito 

O Condomínio Domo foi um caso de abuso explícito contra a clientela incauta que, na maioria dos casos, é marinheira de primeira viagem; ou seja, jamais se meteu na compra de imóveis. 

Imaginem os estragos de chapeuzinhos vermelhos nas mãos de lobos maus. Essa é a lógica do jogo imobiliário dos especialistas em ganhar dinheiro e os inocentes compradores raramente alertados pela mídia. 

Tanto é verdade que, no fim do ano, com o indefectível Michel Temer na presidência, construtoras e incorporadoras alcançaram o sonho de consumo: jogaram no colo dos compradores todos os ônus dos rompimentos de contratos. Um genocídio econômico contra a massa de compradores de imóveis no País. Com a omissão, quando não com a colaboração, da mídia em geral. A mesma mídia que jamais desconfiou de que milhões de financiamentos eleitorais das grandes empreiteiras era um jogo sujo de troca-troca que corrompeu a democracia. 

O novo ataque ao bolso da massa que forma a demanda imobiliária ganha escoramento tático na transformação do monotrilho em metrô. Já expliquei em vários artigos as diferenças que separam os dois modais. 

Valorização do metro quadrado 

O primeiro – metrô de verdade – desloca a valorização imobiliária ao entorno imediato, médio ou mesmo um pouco distante. O segundo – o monotrilho – é um estupendo chute na canela do urbanismo e da engenharia de trânsito, embora, num País de Terceiro Mundo como o Brasil, amenize as agruras do transporte público entregue a mercantilistas endoidecidos pelo lucro a qualquer custo. 

O ambiente que se pretende criar para estabelecer nova ordem logístico-urbana em parcelas do território de Santo André, São Bernardo e São Caetano com o traçado do monotrilho é um enredo mais que detectável entre aqueles poucos que sabem ler notícias, ou melhor, as entrelinhas das notícias. 

O que teremos em breve será a artificialização de um lobby de aprovação mais que combinada com o governo estadual de prevalecimento do contrato que prevê aquele modal, ao invés do chamado BRT, que são ônibus de maior capacidade de transporte de passageiros com prioridade de uso do que antigamente se chamava leito carroçável e que se transformou em corredores. Um remendo muito pior que o monotrilho. Que não é metrô. 

O que mais me irrita particularmente quando leio o noticiário para endeusar a chegada do metrô que de fato não passa do pobre monotrilho é que o pacote de marketing é produzido como se todos os consumidores de informação frequentam uma casa de ignorantes e manipuláveis chamada Grande ABC. 

Não é bem assim, claro. Ainda há muita gente que merece ser apontada como frequentadora do nicho de Sociedade Civil, que está sempre alerta, mas, convenhamos, a maioria mesmo distribuiu-se entre Sociedade Servil e Sociedade Imbecil. A turma da Sociedade Hostil prefere picuinhas e individualismos de olhar para o próprio umbigo. 

Desespero setorial 

Há um desespero latente no mercado imobiliário da região. Qualquer iniciativa mirabolante que supostamente fomentaria a esperança de dias menos tenebrosos é saudada com louvor. O Clube dos Construtores de velhos vícios e farras estatísticas mudou de direção, saindo do rabo da saia do empresário Milton Bigucci, mas sofre com a falta de mais representatividade. Os danos provocados por um comando de metade de meio século não desaparecem do dia para a noite.  

Para terminar, estava esquecendo de reiterar o principal ponto sobre o Condomínio Domo: os moradores não aceitarão passivamente a invasão do monotrilho horripilante que se reserva para Santo André, São Bernardo e São Caetano. 

Tanto que, seis anos atrás, diante da informação de que o monotrilho estava próximo a ter as obras iniciadas, um movimento por aplicativo de celular se insinuou como primeira articulação de protesto. Imaginem agora, disseminados, como os aplicativos vão entrar em campo para barrar essa vizinhança mais que incômoda? Quem comprou imóvel no Condomínio Domo não foi informado de uma arapuca: o traçado do monotrilho já estava definido e, para piorar, as vendas foram articuladas como um ótimo negócio porque as torres de apartamentos e salas comerciais ganhariam o reforço da primeira rede de metrô da região. O mesmo metrô, que na verdade é monotrilho, que segue a ser vendido impunemente. 

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