Economia

Mezzo nacional,
mezzo importado

  WALTER VENTURINI - 05/01/2004

Como o setor automotivo, a indústria de brinquedos passou na década de 90 por verdadeiro vendaval com a abertura aos produtos importados. Gigantes do mercado desabaram e muitas empresas fecharam as portas. Foi entre as tempestades que a Gulliver, de São Caetano, aprendeu a combinar produção nacional e licenciamento de importados. Seu produto mais antigo, o Forte Apache, completa 40 anos em 2004 e pode ser considerado a síntese da companhia, que demonstrou resistência e fôlego para sobreviver num setor que não pode ser considerado brincadeira, com acirrada concorrência e mudanças a todo instante.

Todo ano são milhões de brinquedos que integram os cerca de 300 itens da marca e atendem a todas as faixas etárias, desde a pré-escolar até os chamados personagens licenciados, procurados inclusive por colecionadores. Mas a grande proeza da empresa foi sobreviver à abertura comercial aos importados, já que o brinquedo brasileiro, como o automóvel, usufruía de reserva de mercado. A receita da Gulliver consistiu em trabalhar metade das linhas com produção própria e o restante com importados. "Tínhamos começado a pensar no licenciamento porque avaliávamos que o imposto iria cair. A maneira mais coerente para concorrer com o produto de fora era importar brinquedos de qualidade" -- conta Paulo Benzatti, gerente nacional de vendas da empresa.

Num primeiro momento, a abertura sacudiu e prejudicou a indústria nacional, sobretudo com a avalanche de brinquedos asiáticos. Mas o consumidor brasileiro ficou mais exigente diante da inundação de verdadeiras bugigangas. "O produto nacional também melhorou muito, com a adoção de mais normas de qualidade e segurança" -- assegura Paulo Benzatti, um dos participantes da discussão do processo de normatização na indústria brasileira.

Identidade e produtos conhecidos foram conquistas construídas desde 1959, quando o espanhol Mariano Lavin Ortiz e os filhos criaram a Gulliver, então com o nome de Casa Blanca e instalada num galpão no Bairro Cerâmica. A ponta-de-lança dos negócios foi o Forte Apache, que marcou a infância de inúmeras gerações. "Continuamos a vender o brinquedo até hoje, talvez porque os pais queiram transferir a mesma emoção aos filhos" -- acredita o gerente Paulo Benzatti. Saudosismo ou não, o brinquedo vem registrando saltos de vendas nos últimos quatro anos. São cerca de 25 mil peças anuais, verdadeiro sinônimo de longevidade em pleno mundo das diversões efêmeras e jogos virtuais. Outro ícone da infância de muitos quarentões, o futebol de botão, também é fabricado pela Gulliver até hoje.

Super-heróis -- Foi no final dos anos 70 que a empresa de São Caetano começou a se preparar para as mudanças no mercado, agregando à tradição dos brinquedos mais conhecidos o caráter transitório mas altamente massificante dos bonecos articulados que passaram a ser adotados pelos meninos. Também transferiu a linha de produção para nova planta na Vila São José, com 15 mil metros quadrados, onde trabalham 300 funcionários e mantém seu centro de criação. Para entrar no mundo dos super-heróis, a Gulliver olhou para fora do mercado nacional e passou a adotar o emergente licenciamento de produtos, iniciando a comercialização de brinquedos importados. As primeiras parcerias foram com a Marvel e a DC Comics, que projetaram personagens como Super-Homem, Mulher Maravilha e Homem Aranha, sucessos desde o início. As séries pioneiras foram a Secrets Wars e o SOS Comandos, este produzido até hoje e que vende em média 200 mil peças anuais.

A Gulliver compreendeu então a força dos lançamentos mundiais de brinquedos ancorados em megapromoções de cinema e TV. A cada filme ou desenho animado fazia saltar nova linha de produtos que poderia continuar ou não no mix no ano seguinte. Das 25 linhas de brinquedos atuais, cerca de 60% são renovadas a cada ano. Na 20ª Abrin (Feira Nacional da Indústria de Brinquedos), realizada em abril na Capital, a marca lançou 140 produtos, quase a metade de todos os itens produzidos.

Cerca de 80% dos lançamentos da Gulliver são feitos no primeiro semestre do ano. "Como os filmes geralmente são lançados nas férias de julho, é bom estar com os produtos um pouco antes no mercado" -- diz o gerente de vendas Paulo Benzatti, para quem manter os lançamentos no início do ano é também uma forma de quebrar a ainda forte sazonalidade das vendas de brinquedos, concentradas no Dia da Criança e no Natal. 

O outro lado da estratégia da Gulliver é se projetar com brinquedos que se transformam em fenômenos de venda. Na década de 80, a empresa se associou à espanhola Vir Pelúcia para fabricar a coleção dos ursinhos Peposo, que no primeiro ano vendeu 800 mil peças. Outro lançamento da mesma parceria, o Agarradinho, colocou oito milhões de unidades em quatro anos no mercado brasileiro, um recorde em brinquedos. Em 1995 a Gulliver firmou contrato com a francesa Smoby, segunda maior fabricante da Europa, para fazer no Brasil brinquedos pré-escolares. "Com essa linha, falamos diretamente com as mães, pois tem qualidade e segurança. É a que mais tem crescido" -- revela Paulo Benzatti. Outra linha que marcou época foi o Futebol Clube, com bonecos articulados. No ano de lançamento, 1993, quando contou com a divulgação do então craque corintiano Marcelinho Carioca, o jogo vendeu 100 mil peças.

Crescimento -- A combinação de produção própria com importação de licenciados permite à Gulliver estar hoje entre as oito maiores empresas de brinquedos do Brasil, com aproximadamente 3,5% do mercado. O faturamento em 2002 chegou a R$ 29 milhões e a expectativa é de crescimento entre 5% e 6% em 2003. Tradicionalmente a Gulliver fez fama com brinquedos para meninos, mas um produto recente, a linha de bonecas importadas Bratz, mostra que as meninas também são mercado atraente. Com rosto arredondado, olhos grandes e roupas da moda, a boneca produzida pela americana MGA é considerada a primeira fashion doll a ameaçar o reinado de 40 anos da Barbie. No Natal de 2001, a linha Bratz foi a mais vendida e deixou preocupados os executivos da Matel, gigante mundial de brinquedos que produz a Barbie.

Para 2004 a Gulliver planeja investir na produção do Senhor Cabeça de Batata, conhecido no Brasil pelo desenho Toy Story, mas que nos Estados Unidos é famoso há 50 anos. O brinquedo é feito pela americana Hasbro e já vendeu 50 milhões de peças. Entre os importados, a empresa de São Caetano prepara a nova linha do Homem Aranha para acompanhar o lançamento do segundo filme. O mesmo acontecerá com o segundo filme da série Scooby Doo e o terceiro da saga Senhor dos Anéis, sempre precedidos pelos produtos da Gulliver. Também estão sendo preparadas as novas linhas das séries de desenhos animados Meninas Superpoderosas, Tartarugas Ninja e Samurai Jack.

"Nosso produto permite canais diferenciados de distribuição" -- ressalta o gerente Paulo Benzatti, no comando de uma rede que atinge todo o Brasil. A Gulliver optou por manter estrutura própria de vendas nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No resto do País, trabalha com representantes. Também utiliza sites como a Americanas.com e o Submarino.

Além das lojas tradicionais de brinquedos, a marca coloca produtos em locadoras de games e de vídeo como as da rede Blockbuster. Em alguns casos, como a linha de bonecos Senhor dos Anéis e Marvel Legends, o esforço de venda é voltado principalmente para colecionadores. Com mais de 30 articulações e detalhes apurados como roupas em couro legítimo, os bonecos ultrapassam a simples caracterização de brinquedos e passam a ser considerados objetos do desejo de qualquer coleção. Uma das primeiras paixões dos aficcionados foi o carro do Batman, o Batmóvel a fricção, vendido pela Gulliver no final dos anos 70 e que hoje é disputado em leilões concorridos na Internet. "É um mercado para público das faixas A e B" -- explica Paulo Benzatti.

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