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Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (30)

  DANIEL LIMA - 20/05/2019

Na edição de 7 de julho de 2004, como primeiro e único ombudsman do Diário do Grande ABC, apresentava aos diretores, acionistas e editores o último capítulo do Planejamento Estratégico Editorial. O conjunto de ideias e propostas forjadas na prática jornalística foi preparado num fim de semana no Interior do Estado, para onde me desloquei em busca de paz para escrever o que escrevi imaginando o Diário do Grande ABC no topo da qualidade cinco anos depois, quando a publicação completaria meio século de circulação.

Leiam a newsletter OmbudsmanDiário daquele 7 de julho. Era a 29ª edição. Seriam 36 no total -- até que assumisse a direção do jornal, posto no qual permaneci durante 11 meses. O Diário do Grande ABC não estava preparado para grandes transformações, muitas das quais aplicadas à frente da revista LivreMercado durante duas décadas. 

Edição número 29  

O Projeto Diário50Anos é o grande mote que pretendemos introduzir como estratégia para amalgamar o que chamaríamos de nova fase não só dos insumos editoriais sob nosso controle, mas da companhia como um todo. Já imaginaram o que representaria às finanças do Diário do Grande ABC a conexão entre o editorial e o comercial no lançamento do Projeto? Que tal negociarmos a partir de março agora, numa mega-ação, cotas de patrocínio envolvendo o jornal e a revista do grupo? São cotas resgatáveis em 50 parcelas mensais -- o período que demarcará o início e o ápice desse definidor do reconhecimento do valor histórico do jornal e da consecução de sua nova política editorial. 

Os detalhes dessa operação que forraria as receitas da companhia com previsibilidade de recursos extraordinários, além de capitalizá-la permanentemente, dariam visibilidade editorial aos grandes investidores publicitários. 

Temos várias ideias a apresentar, mas acho que essa empreitada deverá contar com força-tarefa da companhia de modo que as colaborações possam multiplicar as possibilidades de sucesso. 

A característica especial desse projeto precisa de entendimento literal, ou seja, é uma jornada longa e desgastante. Os resultados devem ser, em nossa opinião, contabilizados como um núcleo produtivo à parte do cotidiano corporativo, sem, evidentemente, erguer-se uma muralha da China que quebre o alinhamento sinérgico. 

Como estratagema de fixação de novos pressupostos aos leitores e anunciantes, o Projeto Diário50Anos se apresenta como a diferença entre um especialista em 100 metros rasos e um maratonista. 

Precisamos descortinar a simbologia de que temos um compromisso de longo prazo para que os efeitos de curto prazo sejam imediatamente mensuráveis. Não se alcança a suprema glória do maratonismo sem os primeiros passos da quebra do sedentarismo. 

Não nos interessa também acreditar que uma corrida curta e breve, mesmo que vitoriosa, sustente o esticamento dos projetos. Precisamos sair do vai-e-volta do curtíssimo prazo. Destrinchar um horizonte de 50 meses -- para começo de reação -- é a plataforma de embarque do novo jornalismo de que tanto prescinde a região. 

Não acreditem em fórmulas miraculosas de que um produto editorial com os passivos e os ativos do Diário do Grande ABC seja enquadrado em novos e revolucionários conceitos apenas pela força da inércia da tradição. Costumo dizer que fazer jornal não é o mesmo que fazer pão. Um padeiro mesmo adoentado, mesmo febril, mesmo de mau humor, é capaz de garantir a próxima fornada para uma clientela exigente sem que a qualidade do produto sofra qualquer avaria. A receita previamente concebida mecaniza e padroniza o produto.

Já fazer jornal ou revista é outra história. Depende-se demais das condições psicológicas do grupo, além do preparo técnico, evidentemente. Sem metas, sem objetivos, sem desafios, acentua-se dramaticamente o risco de cair na mesmice, no texto burocrático, na flacidez crítica. 

Medidas de marketing devem ser preparadas e executadas para tornar o Projeto Diário50Anos muito mais que um mote aos consumidores e anunciantes. A tropa interna precisa participar ativamente. Repassar à corporação os novos desígnios dessa data tão especial, iniciando-se contagem regressiva de compromisso com a melhoria contínua do produto -- eis uma maneira de conduzir a todos para uma metamorfose subliminarmente agradável e desafiadora. 

A operação Projeto Diário50Anos será compartilhada por colaboradores internos e comunidade. Haveremos de programar com antecedência exatos 50 eventos para as respectivas comemorações em 2008. Teremos um calendário integralmente do Diário do Grande ABC, mas estabeleceremos parcerias. Daremos visibilidade aos parceiros institucionais tanto quanto aos patrocinadores-cotistas. Cada etapa dos 50 programas será uma oportunidade de prospectar novas iniciativas além da circunstancialidade do projeto. 

Não poderemos desperdiçar a sinergia do jornal e da revista nessa proposta. As 50 cotas de patrocínio deverão levar em conta a potencialidade complementar dos dois veículos. Há uma notória possibilidade de acrescentar a magnitude do projeto com o acasalamento estratégico entre os dois veículos. 

A unificação de interesses estará caracterizada publicamente também como novo divisor de águas do relacionamento sempre tumultuado das duas companhias. O recado será entendido pelos consumidores de informação e principalmente pelos investidores comerciais. 

Vejo um manancial imenso de subprodutos do Projeto Diário50Anos. Quando outras cabeças se juntarem para formatar o programa de ação, certamente encontraremos motivos de sobra para acreditar na perspectiva de alcançarmos o duplo objetivo, ou seja, de atingir um grau de compromisso editorial com a regionalidade e vasculhar os mais recônditos investimentos hoje distanciados do jornal e da revista. 

Temos, portanto, uma grande oportunidade para recuperar o tempo perdido não só em termos de mútua aproximação efetiva do jornal e da revista como, principalmente, e nesse ponto com peso maior do jornal, de comprometimento regional com as empresas locais. 

Que essa aproximação não se esgote, evidentemente, nos interesses exclusivamente comerciais. Há possibilidades imensas de mostrarmos nosso compromisso de valorização das respectivas logomarcas-parceiras direcionando baterias informativas às atividades daquelas corporações. 

Um exemplo: um evento estritamente voltado aos colaboradores de determinada empresa -- como uma palestra com uma dessas celebridades de autoajuda ou coisa assemelhada -- e que hoje é praticamente ignorada pelo jornal receberá cobertura específica, provavelmente num espaço especificamente caracterizado ou mesmo na coluna social onde, como se sabe, as figurinhas de sempre se repetem tanto no Diário do Grande ABC quanto nos demais veículos. 

O que pretendemos dizer é que a conquista de novas contas comerciais em muito será facilitada e em seguida mantida se o editorial e o comercial seguirem a trilha de entendimento sobre a importância das duas áreas. 

O conflito ético entre redação e comercial só existe em veículos que ainda não se aperceberam da enorme possibilidade de separar o que é interesse editorial do que é relação comercial. Mais uma vez recorremos à experiência da revista da companhia para assegurar o quanto de evolutivo foram os encaminhamentos nesse sentido. 

A informação jornalística só será sacrificada se os próprios responsáveis pela redação se entregarem de mão beijada a eventuais salamaleques comerciais. Traduzir em fato jornalístico qualquer acontecimento corporativo e, com isso, fugir das garras da informação comercial sem tarja é a equação mais simples do mundo para quem se despe de preconceitos. E também para quem sabe que nenhuma informação artificializada com objetivos estupidamente comerciais obterá a credibilidade dos leitores. 

É por essas e outras que, repetimos, o Projeto Diário50Anos se reveste do mais importante ferramental de marketing interno e externo de que poderemos lançar mão como companhia, isto é, acima das duas macrodivisões da hierarquia organizacional. 

Fazer em 50 meses 50 grandes eventos dos 50 anos é o lema que nos moverá a todos para incendiar o ânimo dos colaboradores internos e da comunidade. Que não se perca tempo, portanto, com firulas burocráticas. O plano de ação está indexado à emergência do próprio tempo caracterizador da proposta. De março de 2004 a maio de 2008 são 50 meses revolucionários. Já estamos quase atrasados, portanto.

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