Sociedade

Percepção democrática cresce
com Bolsonaro. Folha esconde

  DANIEL LIMA - 04/06/2019

A Folha de S. Paulo fez contorcionismo editorial na edição de hoje para minimizar e subverter uma verdade medida por especialistas contratados pelo Barômetro das Américas (Lapop): a percepção de democracia (entre tantos outros sentimentos) aumentou com a vitória de Jair Bolsonaro em outubro do ano passado.

Imagino o quanto deve ser dolorido para os acadêmicos extremistas de esquerda (seria isso uma redundância?) ter de engolir a reportagem da Folha de S. Paulo. Para mim, liberal-socialista, mas, acima de tudo, jornalista independente, é uma farra. Tomem para aprender. Saiam dos casulos ideológicos. Atentem à realidade dos fatos. Tenham mais responsabilidade social. Deixem de pregar o ódio. Parem de usar besteiras do governo federal como arma desclassificatória. Enxerguem os próprios erros históricos. Cresçam. Deixem de ser moleques mimados.

A manchete da página de “Poder” da Folha é uma afronta aos enunciados obrigatórios a que a publicação teve de acolher. “6 em cada 10 dizem insatisfeitos com funcionamento da democracia”, diz a manchete.

Entregando o ouro

Reproduzo, na sequência, os primeiros parágrafos de modo a que os leitores entendam que não exagero na dose de esculhambação aos burraldos ideológicos: 

 Quase 6 em cada 10 brasileiros não estão satisfeitos com o funcionamento da democracia no Brasil. A conclusão é do Barômetro das Américas (Lapop), pesquisa de opinião que avalia a percepção sobre o sistema democrático e as instituições políticas no continente americano. O percentual registrado (58%), contudo, representa uma queda em relação ao aferido em 2017 (78%). Também cresceu a proporção dos que acreditam que a democracia é a melhor forma de governo. Eram 52% em 2017, agora são 60%. Cerca de um terço da população, porém, é favorável a um golpe militar em um cenário de muita corrupção. (...) No Brasil, o estudo teve parceria com a Fundação Getúlio Vargas e a coleta das entrevistas foi feita pelo Ibope.

Fugindo da lógica

Qual seria a lógica de tratamento editorial fosse o jornal paulistano isento no tratamento ao governo de plantão? Ora, que aumentou o universo de brasileiros que acreditam na democracia. Essa era a manchete, porque a manchete tem de reproduzir o texto. Quando há inconformidade, quando prevalece a tentativa de negação, alguma coisa está fora do lugar. E o que está fora do lugar na Folha de S. Paulo é a sanha em demonizar o governo federal tanto quanto um ou outro veículo prefira o caminho oposto.

O contraponto evidente que a Folha de S. Paulo ignorou, mas que não escapa à inteligência minimamente dotada de sensatez é uma condenação explícita aos antecessores de Jair Bolsonaro. Preferiu destacar o jornal que o Brasil ainda está abaixo dos 70% em defesa da democracia, constatado em 2006. Mais que isso: poderia e deveria dizer que o índice de 2006 ainda não espelhava a corrupção que vicejava e invadia a grande área do governo petista. Ou seja, tínhamos uma democracia de araque, movida à corrupção eleitoral e populismo social.

Gostem ou não os extremistas de esquerda, nicho de gente intelectualmente desonesta que não vê outra coisa senão extravagâncias econômicas e sociais, o governo federal que tanto criticam (muitas vezes com razão, embora com exagero nitidamente ideológico) pode não ser uma maravilha, como não é mesmo, mas, diferentemente do que cantaram e rolaram nas colunas de opinião dos grandes jornais, só está aí porque do contrário teríamos algo bem pior, muito pior. Ou seja: a cantilena organizada de colunistas militantes (que dominam a Folha de S. Paulo) a profetizar o caos democrático sob o jugo de Jair Bolsonaro não faz parceria com o sentimento geral da sociedade.

Direita supera esquerda

Em outro resultado da pesquisa divulgada pela Folha de S. Paulo (cuja síntese foi utilizada na linha auxiliar da manchete) constatou-se que, pela primeira vez desde 2012, há mais brasileiros que se declaram de direita do que de esquerda. “Os direitistas são 39% (maior número já registrado) e os esquerdistas, 28%. Eram apenas 22% os direitistas em 2006 contra 28% dos esquerdistas.

Está aí mais um dado que, em circunstâncias normais de jornalismo independente, a Folha de S. Paulo retrataria como consequência do fenômeno Jair Bolsonaro. Repito: goste-se ou não do presidente da República (e repito que gosto e não gosto, dependendo do tema), o fato histórico é que, depois de quase quatro décadas de esquerda e centro-esquerda no comando de um País que se desgovernou, o eleitorado é majoritariamente de direita por conta de alguém que teve a ousadia de enfrentar o que parecia monoliticamente intocável – os mandachuvas e mandachuvinhas da máquina pública que a força tarefa da Lava Jato bombardeou.

A direita está 10 pontos percentuais à frente da esquerda na população brasileira. É possível que esse jogo seja sempre mais parelho daqui em diante, com predomínio direitista enquanto os rescaldos da ladroagem institucionalizada ao longo de décadas povoar a memória dos brasileiros e, também, enquanto os direitistas não se apropriarem de alguns rescaldos do modus operandi de roubalheiras e incompetência dos esquerdistas.

Fechamento do Congresso

Nada menos que 35% dos brasileiros (43% de direita e 31% de esquerda) consideram a possibilidade de justificar-se o fechamento do Congresso e a consequente ascensão dos militares diante de um processo insolúvel de corrupção. A maioria dos brasileiros (65%) é contrária à tomada do poder pelos militares.  O resultado não foi diferente do registrado em 2017.

O Supremo Tribunal Federal também está na mira de quem opta pela dissolução: 38% são favoráveis a uma tomada de posição do presidente da República nesse sentido. Segundo a Folha, o número mais que dobrou desde 2012, quando 13% eram favoráveis à medida. A direita é mais radical, claro, com 52% de apoio à dissolução do STF, contra 35% da esquerda e 25% do Centro.

Nesse ponto a Folha de S. Paulo fez análise perfeita: a insatisfação da direita decorre da repulsa à corrupção, a insatisfação da esquerda é fruto dos desdobramentos políticos, eleitorais e judiciais da corrupção. O eleitorado de centro é sensível à empreitada.

Militares lideram

A Folha também registra o crescimento de brasileiros que dizem respeitar as instituições políticas. Dos 41% em 2017, agora são 51%, “segundo maior valor histórico, que teve início em 2006”. Ou seja: mais um resultado conexo à ascensão da direita e de Jair Bolsonaro, em contraponto aos corruptos. Mas, como aponta a pesquisa, ainda estamos longe do ideal, porque o Brasil é o nono colocado no ranking de respeito às instituições. Fica atrás de Nicarágua, México e Guatemala, entre outros.

Os chamados cientistas políticos, que jamais se incomodaram com as roubalheiras, agora se mobilizam para apontar o dedo em direção ao governo de plantão entre outras razões porque Jair Bolsonaro tornou o jogo menos propício aos bandoleiros do Congresso Nacional.

Querem mais uma vitória mais que subliminar, escancarada, na esteira da eleição de Jair Bolsonaro (ou da repulsa ao PT e aos demais partidos que comandaram o País de forma delinquente desde a redemocratização) em outubro do ano passado? A instituição que mais gera confiança são as Forças Armadas (70%). “Os brasileiros também são o segundo povo que mais aprova os militares – perdem apenas para os equatorianos (73%)” – escreveu a Folha.

Insisto na pergunta: querem mais explicações para o sucesso da direita e de Bolsonaro? “Para 79% dos entrevistados, mais da metade dos políticos é corrupta. Esse é o terceiro maior valor entre os 13 países pesquisados, perdendo apenas para Peru e Panamá” – escreveu o jornal paulistano.

Nada de destaque

Em tempo e a propósito: a Folha de S. Paulo não reservou na primeira página um espaço qualquer, por mais minúsculo que fosse, à notícia que, na página interna, fez de tudo para jogar na lata do lixo da sociologia os resultados combinados que expressam claramente as mudanças pelas quais o Brasil passou desde que pegaram os bandidos engravatados da política e do grande empresariado com a boca na botija. Nadinha de nada.

Quem acredita que, fosse outro o resultado, de fragilização da democracia nesse mesmo período, o jornal paulistano perderia a oportunidade de explorar a pesquisa em forma de manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página)? Sempre digo que não tenho o direito de ser cego intelectual depois de muito, mas muito temo, como jornalista profissional. “Democracia sofre abalo com eleição de Bolsonaro” era a manchetíssima sonhada pela Folha de S. Paulo e os extremistas burraldos.

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