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Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (32)

  DANIEL LIMA - 05/06/2019

Estamos ingressando na reta de chegada das 36 edições da newsletter OmbudsmanDiário, ferramenta que utilizei para levar a diretores, acionistas e editores do Diário do Grande ABC o que pretendia aplicar, em seguida, como diretor de Redação daquela publicação que se aproximava do 50º aniversário de circulação. Como já é sabido, fui convidado e aceitei atuar como o primeiro ombudsman do Diário do Grande ABC.

Um ombudsman de verdade, um ombudsman que cansou de dar petelecos em qualquer possibilidade de desprezo ao interesse dos leitores e da sociedade. Ocupei o cargo com ampla independência. E não poupei aquela publicação de exumações constantes. Não havia um único assunto importante que escapulisse de minhas observações. Doesse a quem doesse.

O que se segue é a edição de número 31 --- foram 36 no total --, escrita em 8 de julho de 2004, ou seja, há praticamente uma década e meia. Uma edição robusta. Observem o quanto distribui de elogios e de catiripapos editoriais. Não estava ali para uma política de boa vizinhança à custa do sacrifício da informação.

Edição número 32  

A edição desta quinta-feira está sustentada principalmente na manchete de primeira página sobre o Polo Petroquímico de Capuava, sobre a qual faço considerações na sequência. Não teremos edição desta newsletter amanhã, por causa do feriado. Voltarei na segunda-feira com avaliação das edições de sexta, sábado e domingo. 

É provável que já na próxima semana esta newsletter deixe o gueto de diretores, acionistas e chefes de redação. Deverá também ser emitida aos demais componentes da Redação. É indispensável que se interiorize em toda a companhia os pressupostos deste trabalho para que haja aprofundamento de conceitos. Mesmo contando com informações de que há um mercado paralelo de distribuição deste trabalho, com cópias endereçadas a destinatários que não constam deste original, acredito que esse não é o melhor caminho para dar nossa contribuição ao produto. 

Continuo intensamente preocupado com o que levamos aos leitores. Entre outras razões porque existe um fenômeno extremamente nocivo que decorre da frágil estrutura organizacional da redação, estiolada pelo banco de horas, entre outras aberrações. Trata-se do fato de que são poucos os profissionais de redação que participam, em média, das edições do jornal. Traduzindo: quem lê o jornal acredita que o quadro de colaboradores é extraordinariamente enxuto, quando, na realidade, me parece diferente. O problema todo é que burocratizaram de tal maneira a linha de produção, com atividades-meio suplantando atividades-fim, que se torna impossível dar dinâmica moderna. O autor dessa proeza estrutural deveria ser degolado, porque coloca toda a companhia, mais especificamente a redação, sob suspeição. 

 Polo Petroquímico (I)

Finalmente o jornal consegue transpor para as páginas internas a importância da manchete principal de primeira página, que trata dos valores que serão investidos no Polo Petroquímico de Capuava. É bom abrir o jornal com a expectativa de que as informações serão mais densas e encontrar o que encontramos. 

 Polo petroquímico (II)

Faço reparos apenas a alguns textos da matéria sobre os investimentos no Polo Petroquímico. Há momentos em que se sobressai uma excessiva preocupação com informações técnicas que não interessam ao leitor do jornal, como os cálculos apresentados sobre o que se extrai de cada tonelada de nafta. Além disso -- e isso é um vício de quase todos os jornalistas do jornal --, usam-se aspas demais, entregam-se demais as informações para terceiros, quando o correto seria introduzir aspas apenas em questões relevantes, que caracterizem a informação como algo assumidamente de responsabilidade do entrevistado. 

 Polo petroquímico (III)

Uma informação relevante -- até porque é o eixo de tudo o que está no horizonte do Polo Petroquímico de Capuava -- deixou de ser veiculada pelo jornal: a reunião de ontem é consequência de desdobramento do encontro em Brasília que, com o comando do presidente Lula da Silva, determinou que tanto a Universidade Federal como o aumento da capacidade de produção da PQU se revestiam de prioridades regionais. Para tanto -- e a matéria apenas resvala na questão --, até mesmo o diretor comercial da Petrobras foi afastado. Aliás, na entrevista que concedeu recentemente ao jornal, na qual fez proselitismo eleitoral, o deputado federal Luizinho Carlos da Silva afirmou, em determinado trecho, que o governo deu um chega-pra-lá no diretor comercial da Petrobras que se interpunha à determinação do presidente. Longe de vetor político, esse bastidor é importante para justificar a razão de, depois de 10 anos, o Polo Petroquímico finalmente decolar. 

 Polo Petroquímico (IV)

A chamada de primeira página exalta a contratação de três mil trabalhadores, quando deveria ser comedida. São três mil postos temporários, durante a fase de investimentos. Essa informação não poderia ser omitida. Tanto quanto uma outra, que não consta da matéria: qual a potencialidade de geração de emprego na cadeia de produção do setor químico-petroquímico na esteira do reforço de produção? A Reportagem de Capa de LivreMercado de junho mostra, com base em 2001, qual é a compleição estrutural do setor de plásticos no Grande ABC. Daí, principalmente, ter optado pela defesa de cursos voltados para a área, pelo menos nos primeiros cursos, na Universidade Federal do Grande ABC. O tamanho do mercado de trabalho do setor de plástico não poderia ficar de fora da matéria. Tanto quanto as perspectivas de evolução. São poucos os novos empregos na primeira e na segunda camadas do setor. 

 Eleições municipais (I)

Deu-se espaço demais a especulações sobre um personagem menor da política de São Bernardo: o jornal abriu a página 2 de Política Grande ABC com uma matéria ("Câmara de S. Bernardo denuncia uso de Emeb para fins eleitorais") toda construída sobre o pântano de condicionalidades. O assunto por si só deveria se restringir a notinha de Cena Política, nada mais. A isso se pode dar o nome de desperdício de espaço, geralmente fruto de escassez de pauta. O que é um acinte em ano eleitoral. 

 Eleições municipais (II)

Continuo esperando, ansioso, pela matéria interpretativa sobre as eleições em São Caetano, depois que novos e fortes candidatos entraram no páreo. Ouvir os quatro concorrentes e suas respectivas versões sobre as perspectivas eleitorais, eis uma grande matéria. Será que há algum impedimento diretivo ou editorial nesse sentido? 

 Eleições municipais (III)

Utilizada como nota de Cena Política, a informação pode render uma excelente pauta, inclusive manchete principal de primeira página. Trata-se do fato de que o governo Geraldo Alckmin fechou 2003 com o mais baixo percentual de investimentos no Grande ABC em relação ao restante do Estado. A matéria poderia navegar pelas águas do político, do econômico e do administrativo. Os valores apontados na nota são muito inferiores à participação relativa do Grande ABC no bolo de produção de riqueza no Estado. Não creio que há impedimento à aplicação dessa pauta. 

 Eleições municipais (IV)

Sigo esperando matéria substantiva sobre o Legislativo de São Caetano, um dos mais dispendiosos do Estado de São Paulo (na divisão de gastos pela população atendida) e que, graças ao TSE e ao Senado, perdeu 10 vagas nas próximas eleições. Será que teremos mesmo redução de custos ou os remanescentes (e novos eleitos) vão dividir um orçamento generosamente repassado pelo Executivo? 

 Eleições municipais (V)

Na Cena Política, uma frase estabelece juízo de valor totalmente improcedente para o caso da redução do número de vereadores em São Caetano: "A cidade perdeu dez vagas no Legislativo e foi a mais prejudicada entre os 645 municípios paulistas". Nada mais absurdo, nada mais absurdo. Entre outros motivos porque, ainda recentemente, e finalmente, o jornal revelou, com base nos dados do Instituto de Estudos Metropolitanos, que São Caetano é altamente perdulária nos gastos legislativos. 

 Chamada viúva

A edição de terça-feira dedicou até chamada de primeira página ao último episódio de Friends, a série norte-americana de tanto sucesso. Correlacionei o destaque à omissão de tratamento pelo menos semelhante ao último capítulo de Celebridade. Pois bem: o jornal não deu uma linha sobre o assunto nas edições seguintes. Enquanto isso, o Estadão de hoje publica matéria sobre o assunto, depois de acompanhar um grupo de jovens estudantes levados a dois endereços da Capital para assistir às últimas cenas. 

 Campeonato Brasileiro (I)

É um alívio a notícia de que Romerito continuará no Santo André e, dessa forma, desloca-se do exército de jogadores campeões da Copa do Brasil que despertam o interesse de outros clubes. Por isso mesmo o jornal deveria relacionar quais são os jogadores que estão na mira de terceiros. São vários. 

 Campeonato Brasileiro (II)

A perspectiva de fuga de rebaixamento do Santo André é abordada pelo jornal na edição de hoje, mas o melhor referencial que deverá ser utilizado sistematicamente nesse que é um assunto prioritário do clube está na verificação do acúmulo de pontos do 19º colocado das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, linha de corte de rebaixamento. A classificação final da Série B do ano passado também é um bom referencial, mas utilizar duas planilhas atuais e, daí, mergulhar em numerologias parece a melhor opção. Até porque mais à mão. O jornal deve insistir no assunto e torná-lo ponto mobilizador da torcida. A situação da equipe é gravíssima, porque ganhar mais de 60% dos pontos em disputa é uma tarefa leonina. Ou ramalhina. Um novo desafio para quem já conseguiu surpreender tanto. 

 Campeonato Brasileiro (III)

Com o empate de ontem à noite em Belém do Pará, o São Caetano coleciona três jogos seguidos sem vitória no Campeonato Brasileiro. O que pergunto é o seguinte: já ocorreu algo semelhante anteriormente? Não seria esse um mote precioso para o próximo jogo da equipe? 

 Campeonato Brasileiro (IV)

Uma matéria especial, sem especulações maiores, poderia mostrar o quanto o São Caetano já se desfez de jogadores desde que subiu para o estrelato do futebol brasileiro. Provavelmente é a equipe brasileira que mais negocia liberação de jogadores e que, incrível, consegue sustentar-se entre os primeiros. 

 Cabos roubados

O caderno Setecidades recupera-se bem com a matéria "Ladrões levam cabos de bomba da Sabesp pela 3ª vez em 4 dias". Felizmente, para a editoria, houve reincidência do furto. As boas fotos de Claudinei Plaza valorizam o texto e contextualizam a matéria. Mostra que o jornal foi a campo. 

 Bilhete único

O jornal volta a escrever sobre o bilhete único em Mauá, mas, das duas uma: sou burro demais ou ainda não foi possível repassar aos leitores a diferença entre o sistema aplicado na cidade e o que a matéria diz ser semelhante na Capital. Insisto em sugerir que se ouça um especialista no assunto e que ele destrinche não só o aspecto técnico da novidade, mas também o financeiro para as empresas. 

 Trigêmeos 

Interessantíssimos os dois flagrantes de Informediário dos dois grupos de trigêmeos aniversariantes. Só faltou um texto criativo, coligando-os. 

 Pais e filhos

Bem construída a matéria de Cultura & Lazer "Filmes impróprios? Pais liberam", que trata da portaria do Ministério da Justiça que define as novas regras para classificação etária de obras audiovisuais de cinema, vídeo e DVD. 

 Paranapiacaba na parada

Cultura & Lazer continua valorizando Paranapiacaba e seu Festival de Inverno. Na medida em que o jornal ressalta o evento, mais desperta o interesse dos leitores. Ou não será por essas e por outras que a Globo divulga tanto sua programação? 

 Paulicéia Desvairada

Ao me referir esta semana à inspiração do título de capa da revista LivreMercado deste julho, "Metrópole Desvairada", cometi a bobagem de trocar o autor da obra "Paulicéia Desvariada", o escritor Mário de Andrade. Na verdade, meu erro foi de subconsciente, porque a expressão "paulicéia desvairada" foi massificada por Plínio Marcos, um rebelde autor de teatro. Lamento que apenas um jornalista com o qual me encontrei casualmente hoje tenha se manifestado sobre o erro. Faltou, dentro do jornal, um ombudsman para o ombudsman.

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