Economia

Propagadores da felicidade
que o tempo sempre desmente

  DANIEL LIMA - 06/06/2019

Pode ser que a rotina seja quebrada, mas quem garante que não se trata de mais um tiro nágua? Estou me referindo aos propagadores de ilusões que aportam na região a cada nova temporada. Eles, geralmente integrantes do governo federal ou do governo estadual, chegam com promessas que nem sempre são promessas de verdade. São apenas ilações diplomáticas, e, como respostas, encontram uma mídia e dirigentes políticos, além de autoridades públicas, sempre entregues ao proselitismo.

Pintou no pedaço regional o secretário nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos. Os jornais e sites traduziram que o governo federal está disposto a conversar com o Executivo do Estado de São Paulo e com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos “para a construção de uma solução que permita a implementação da Linha 18-Bronze do Metrô no Grande ABC”, como escreveu o Diário do Grande ABC.

Após uma leitura apurada do texto, aquela leitura em que é indispensável mergulhar tanto nas entrelinhas como nas sobrelinhas, se descobre, com olhar minimamente crítico, que não é bem assim. 

Declarações e interpretações

O enviado do governo federal não fez nenhuma incursão peremptoriamente compromissada com o enunciado do jornal, indutivo a financiamento e à modalidade do sistema de transporte que seria adotado. Vejam o que ele disse num dos trechos da matéria: 

 De nossa parte, estamos abertos. Existe relacionamento excelente entre os governos do Estado e federal e tenho certeza de que a solução que será apresentada (para a construção do ramal na região) será a melhor possível.

Mais adiante, na mesma reportagem, pinço outra declaração do secretário nacional de Mobilidade e Serviços:

 Parece-me que o que aconteceu no passado foi um problema que, na ocasião, era de capacidade de investimento do governo do Estado em poder receber recursos externos. Me parece que essa questão já foi resolvida e, como disse, nós estamos à disposição para conversar com o governo do Estado, com a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, para poder encontrar a melhor solução e o melhor sistema para atender essa população que tanto precisa de mobilidade – disse o secretário nacional.

Conflito editorial 

Viram os leitores que o título da página interna (“União acena com possibilidade de recursos para a Linha 18-Bronze”) não está exatamente conectado com as declarações do dirigente? E a manchetíssima (manchete principal de primeira página) vai muito além: “União se dispõe a buscar recursos para implantar Metrô na linha 18”. 

Não há nada efetivamente nas declarações que possa levar à conclusão emitida pelo jornal. Mais que isso: entre todas as vírgulas e pontos finais o dirigente nacional não fere a hierarquia administrativa da obra e remete o entendimento possível ao controle decisório do governo João Doria. 

Mais que isso: declara que não existiria problema de financiamento para a obra, porque São Paulo já teria resolvido a questão. 

É claro que preferiu, por desconhecimento ou cautela, omitir o que mais leva o governador a repensar o modal de transporte -- monotrilho que virou metrô nas manchetes do jornal –, assunto sobre o qual já escrevi o suficiente neste espaço: a mão pesada da Operação Lava Jato não larga mais os governos tucanos, sobretudo nessa área de mobilidade, com foco no Rodoanel e filhotes.

Vespeiro de roubalheiras

Traduzindo para quem tem dificuldades cognitivas: o governador do Estado, com justas pretensões de chegar à Presidência da República, não quer se meter num vespeiro de roubalheiras que já coleciona vários inquéritos criminais, entre os quais o que envolve o ex-executivo da Dersa, Paulo Preto, condenado a 14 anos de prisão. Aliás, a mesma Dersa, considerada um foco de estripulias que enriqueceu muita gente, está na alça de mira de desativação funcional. 

Voltando à origem deste texto, são inúmeras as visitas de gala. Sempre seguem um modelo de bom-mocismo. Desfilam elogios constrangedores porque chocam com a realidade destas terras. Minha memória não consegue mais hierarquizar esses visitantes pela ordem de grandeza ou qualquer métrica. Gente de montadoras de veículos, cientistas políticos, ambientalistas, acadêmicos e tudo o mais, eles seguem o mesmo figurino: enchem a bola da economia regional e depois desaparecem. Ou reaparecem em busca de votos. É uma insanidade histórica.

Já o Repórter Diário deu tratamento menos festivo ou esperançoso ou triunfalista ou bairrista ou provinciano ao assunto. Preferiu enfatizar projetos que o Clube dos Prefeitos tem armazenado há pelo menos seis anos sobre intervenções agudas no sistema de mobilidade urbana da região. O visitante respondeu sobre a importância de priorizarem-se um grupo de medidas que fossem traduzidas em uma escolha de obra por Município. 

A resposta pareceu exótica, porque tudo que se publicou até hoje que dá conta do planejamento urbano da região em logística tem como perfil a complementariedade, a sistemicidade, das obras. Ou seja: não se resolve um problema específico das coronárias comprometidas sem medidas correlatas. 

O que mais me intriga sempre que se colocam na pauta regional os insumos relativos à mobilidade urbana é que jamais alguém se apresenta para contrariar o lugar-comum de olímpico esquecimento de um dos fatores mais corrosivos à qualidade de vida: a liberalidade muitas vezes criminosa que infesta ruas e avenidas de torres residenciais e comerciais que concentram o direcionamento do fluxo de veículos. 

Por que será que o mercado imobiliário goza de tantos privilégios? 

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