Política

Morando versus Marinho: até
quando Doria segura as pontas?

  DANIEL LIMA - 23/07/2019

Acho que vou conseguir dar cabo a uma iniciativa que deverá possibilitar a compreensão histórica do que seria o embate em outubro do ano que vem entre o prefeito Orlando Morando e o ex-prefeito Luiz Marinho. Já fiz várias matérias a respeito entre outras razões porque São Bernardo é a Capital Econômica do Grande ABC, Orlando Morando é o candidato da preferência do governador João Doria e Luiz Marinho é o prefeito do ex-presidente Lula da Silva.

Não interesse se São Bernardo é decadente economicamente e também que já viveu melhores dias na política, mas que continua sendo o centro de atenções no Grande ABC não resta dúvida. Há muito Santo André perdeu importância em quase todos os sentidos, embora conte com um fator que potencialmente seria o sustentáculo como centro de atenções – no caso a permeabilidade de divisas com diversos municípios. Mas quem disse que territorialidade é sinônimo de efetividade?

Outro dia nesse mesmo espaço coloquei uma disputa em aberto: quem vale mais na próxima eleição, um Lula da Silva preso ou um João Doria livre, leve e solto?

Morando-Doria avançam

Neste julho que está acabando é preciso reconhecer que o prefeito Orlando Morando fez um gol de placa, um gol de bola e tudo, um gol para marcar época, um gol desmoralizante, um gol e tanto.

É claro que me refiro ao pacote de medidas anunciadas para dar mais mobilidade urbana ao estranguladíssimo Grande ABC. Enquanto o Diário do Grande ABC passou três meses desfilando a maior porção de bobagens que um dia já publicou, ao tratar a então pretendida obra do monotrilho como se metrô fosse, o governador deu uma volta olímpica com uma solução tetra conquistadora.

João Doria botou no mesmo involucro não só o sistema BRT como substituto do monotrilho mais caro e repleto de desconfianças de corrupção na licitação de áreas desapropriadas, como também anunciou a Estação Pirelli em Santo André, novas e menos acanhadas composições dos trens que servem parte da região e um puxadinho do metrô de verdade em Rudge Ramos, em conexão direta com a estação que seria construída para atender a Lapa, bairro Paulistano.

Trilhos da discórdia

Há quem tenha a cara de pau de divulgar fake news que coloca o Diário do Grande ABC como vencedor na disputa, ou mais modestamente como também vencedor. É um jogo de cena de dar dó. O jornal queria mesmo o monotrilho que virou metrô. Mais que virar metrô, o monotrilho seria a salvação da lavoura. Chegou-se a tipificar a anomia social do Grande ABC como sociedade organizada. O PIB regional cresceria 1,7% ao ano, quando até agora neste século cresceu cumulativamente menos de 1%.  Tudo sobre os trilhos do metrô que era monotrilho e virou BRT.

A batalha pelo voto do eleitor de São Bernardo entre o tucano de plantão no Paço Municipal e o petista que ali já esteve por oito anos é algo tão renhido, tão acaloradamente forte que a mais de um ano das eleições o mesmo Diário do Grande ABC virou palco de uma série de artigos à página dois.

Luiz Marinho não perdeu a oportunidade de criticar a decisão do governador por causa da iniciativa de, quando prefeito, mandar fazer o projeto técnico. Orlando Morando e a deputada Carla Morando ajoelharam-se em reverência a João Doria com artigos obviamente em defesa do tucano que quer virar presidente da República. Outros personagens da política regional também se manifestaram com textos que seguem o padrão eleitoral.

Apadrinhamento pesa  

Pode ser que no futuro próximo o que se traduziu numa goleada de João Doria e de Orlando Morando nas decisões sobre os reforços à mobilidade urbana regional se transforme em bumerangue, caso a cronologia de medidas não se concilie com o calendário eleitoral de 2020.

Pode ser, mas é pouco provável. João Doria é o avalizador número um da reeleição de Orlando Morando. Assim como Lula da Silva segurou todas as pontas de Luiz Marinho, que virou bi-prefeito de São Bernardo.

Não fosse o apadrinhamento de João Doria e a prisão de Lula da Silva, Orlando Morando jamais seria favorito nesta altura do campeonato a permanecer à frente da maior cidade da região. Mas nem por isso estamos diante de uma situação liquidada. A qualquer momento Lula da Silva pode ganhar liberdade -- e com Lula da Silva em liberdade é possível que o sempre organizado PT quando se trata de defender a própria imagem partirá para uma estratégia de recuperação eleitoral que a Operação Lava Jato praticamente destruiu em 2014 e os demais partidos que chafurdaram no lamaçal de roubalheiras dividiram o fardo do desprezo dos eleitores em 2018, dando asas à suposta novidade chamada Jair Bolsonaro e seus seguidores.

Estragos menos desiguais

Tenho cá comigo que os decibéis de ladroagens que tanta irritaram os eleitores em 2016 e 2018 serão menos incômodos na próxima temporada, sejam quais forem os desdobramentos da Operação Lava Jato após a divulgação do site Intercept.

A lógica desse sentimento é que a sociedade como um todo já distribui em fatias menos desiguais os respectivos quinhões de roubalheiras ecumênicas dos políticos brasileiros. O monopólio petista dos primeiros tempos diluiu-se a ponto de ser compartilhado com a maioria das demais agremiações. Inclusive do tucano de Orlando Morando.

Está aí a ofensiva de João Doria para eliminar do partido o ex-governador de Minas Gerais e ex-quase-presidente da República, Aécio Neves. Sem contar a prisão de Paulo Preto, o soberano do Rodoanel.

Vinte pontos de vantagem

Para que os leitores possam entender a avaliação que faço para definir as possibilidades de Orlando Morando e Luiz Marinho nas eleições do ano que vem, a cada artigo que preparar vou estabelecer números que procurarão aproximar o conteúdo do texto à facilidade aritmética na definição de cenários.

Neste julho que está para terminar entendo que Orlando Morando arrancou uma vantagem de 20 pontos percentuais em votos válidos. Fosse a eleição disputada hoje, Morando venceria por 60% a 40%. Tivesse adotado esse critério no texto anterior, colocaria a distância entre eles em 10 pontos percentuais, com 55% a 45% favorável a Orlando Morando.

As obras de mobilidade deram mais elasticidade ao favoritismo de quem tem a máquina na mão, um governador com alta cotação e um presidente petista ainda trancafiado.

Sei que tem gente, muita gente, que poderá avaliar que a distância, mesmo a distância de 20 pontos percentuais, é bastante modesta; ou seja, que Orlando Morando deve estar muito mais à frente.

Mais comedimento

Lembro apenas dois aspectos que pesam na avaliação. Primeiro, Marinho somou 25% dos votos válidos em São Bernardo ao disputar o governo do Estado com pesos pesados como Paulo Skaf, Márcio França e João Doria. Segundo, o PT nacional vai concentrar em São Bernardo todos os esforços possíveis em outubro do ano que vem para retomar uma cidadela símbolo de suposto marco de reação.

Além disso, sempre é bom lembrar o que parece ganhar dimensão enorme em São Bernardo: Orlando Morando não tem o traquejo necessário para manter os amigos mais chegados, os indiferentes somente indiferentes e os adversários apenas adversários. Morando coleciona amigos que viraram adversários, indiferentes que se tornaram indignados e adversários com ferocidade de inimigos.

Procurando encrenca

A última do prefeito no campo esportivo foi a lacração do Estádio Primeiro de Maio, vetado tanto ao São Bernardo Futebol Clube quanto ao Esporte Clube São Bernardo. Orlando Morando é interpretado cada vez mais como alguém que consegue, ante duas ou três possibilidades de escolher o caminho mais apropriado, jogar tudo no lixo e partir para o confronto.

Foi assim no Clube dos Prefeitos: ele destruiu em apenas dois anos o que se encaminhou à destruição gradativa nos mais de 20 anos anteriores.  

Talvez nunca um prefeito de um determinado Município do Grande ABC dependa tanto de um governador do Estado como Orlando Morando para se sustentar no cargo. Quanto mais essa dependência aumentar, mais se terá um risco enorme de reversão do placar parcial especulativo que decidi incrementar para aumentar a temperatura do imperdível jogo da maior eleição deste século no Grande ABC.

Ficar à sombra de um governador, por melhor que seja o governador, é uma maneira perigosa de terceirizar o que restaria de prestígio.  

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