Política

O que Bruno Daniel vai fazer
para calar um guru trapalhão?

  DANIEL LIMA - 05/08/2019

O professor Ricardo Alvarez vai implodir a candidatura de Bruno Daniel à Prefeitura de Santo André se houver o que se espera na disputa do ano que vem. E o que se espera é um grau mais elevado de nacionalização temática nas eleições municipais por conta do acirramento entre direita e esquerda na esteira das eleições presidenciais do ano passado e das plataformas de comunicação portátil. 

Quem acredita que o mundo municipal prevalecerá na disputa eleitoral como no passado ainda recente em que mandachuvas da mídia ditavam as regras de convencimento pode ter grandes surpresas, como as teve a mídia tradicional no ano passado. 

Isso quer dizer que quanto mais Celso Daniel, abusivamente por trás da candidatura de Bruno Daniel, for deslocado do debate no ano que vem, menos possibilidades de sucesso terá o candidato do PSOL. 

Nada a ver 

Celso Daniel está sendo colocado abusivamente na campanha eleitoral em forma de memória familiar, memória administrativa e memória humanitária. Mas em nenhuma das situações o legado e o assassinato de Celso Daniel têm a ver como o irmão mais novo cujo pai dá nome ao estádio municipal de Santo André. 

Quem acha que vai vender gato por lebre poderá quebrar a cara se o enredo eleitoral for menos municipal e mais nacional. As mídias sociais vão dar tom cada vez maior. 

E é nesse campo que Ricardo Alvarez pode colocar tudo a perder. Um incendiário político-ideológico na coordenação de uma candidatura aparentemente diplomática implodiria tudo.  O prefeito Paulinho Serra que não vai lá das pernas de aprovação, segundo o Instituto ABC Dados, e o ex-vereador e ex-secretário municipal Ailton Lima agradecem pelo suprimento de bobagens do guru de Bruno Daniel. Não haveria como resistir aos tiros nos pés.

Apologista da gatunagem 

Ricardo Alvarez é um psolista sem freios. Talvez seja redundante dizer que os psolistas não têm freios, mas no caso do professor da Fundação Santo André que jamais se viabilizou como prefeiturável desde que deixou o PT, no começo dos anos 2000, o caso é mais grave. Ele é um guerrilheiro nas redes sociais. 

À parte a ideologia que o leva a se manifestar em desacordo com tudo que tenha alguma relação com ponderação e equilíbrio para se distanciar do extremismo de direita e de esquerda, Ricardo Alvarez comporta-se como apologista da gatunagem. 

Qualquer argumento que esgrima em condenação à Operação Lava Jato, que é um direito sagrado de opinião, perde a consistência quando se verifica até que ponto o professor vai ao campo de batalha das redes sociais.

Se antes de Bruno Daniel a responsabilidade de Ricardo Alvarez era individual, com a pré-candidatura posta à apreciação, o conteúdo passa a ser institucional. E por isso mesmo preocupante para o futuro de Santo André – por mais que Bruno Daniel ainda esteja longe de qualquer possibilidade de sucesso eleitoral. 

Mensagens reveladoras

Vamos aos fatos que me levaram a esse texto de alerta, por assim dizer. Num dos grupos do Whatsapp que acompanho atentamente, Ricardo Alvarez se manifestou no fim de semana com a verve dos sinceros, mas incautos. Leiam as preciosidades postadas:

1. A economia brasileira estava muito melhor sob os anos dos governos do PT, exceção aos dois últimos da Dilma, que levaram ao impeachment (pedaladas).

2. Corrupção existiu nos governos militares e nos civis por motivos diferentes, mas existiram. Essa coisa de associar ao PT faz bem para o fígado, mas despolitiza, serve de resposta automática de baixa reflexão. 

3. Corrupção era parte do processo eleitoral, de chegada ao poder, não um desvio ético de pessoas.

4. Por fim, é preciso entender o processo político antes de ficar avaliando pessoas. 

5. No governo Bolsonaro há corrupção, no PSL, com a caixinha dos filhos e a compra de deputados na votação da Previdência, por exemplo. Negar é ignorar a realidade.

Bruno Daniel avalizaria? 

Repararam os leitores o quanto os conceitos do professor Ricardo Alvarez (imagino ele em sala de aula estrangulando hermeneuticamente o significado de corrupção) são um culto à marginalidade política? 

Gostaria de saber se o candidato Bruno Daniel vai dizer frases iguais ou semelhantes à do impagável guru? 

Ao relativizar as estripulias patrocinadas pelo PT ao longo do governo Lula da Silva e de Dilma Rousseff, colocando-as no mesmo patamar de governantes que os antecederam, Ricardo Alvarez não só banaliza os desvios públicos em parceria com empresas privadas como pretende sugerir que a Operação Lava Jato (e isso ele o faz em outras situações) é um atentado à democracia. 

A naturalização da corrupção expressa nas mensagens do guru destrambelhado de Bruno Daniel é uma afronta à sociedade. Quer dizer então que os agentes políticos que roubaram dinheiros públicos durante longos anos no maior esquema de corrupção de que se tem conhecimento não cometeram pecados inclusive éticos? Roubar para ganhar eleições faria parte do jogo e, portanto, jamais poderia ser objeto de condenação? 

Opositores de Celso Daniel 

O professor Ricardo Alvarez é um antigo aliado do também professor Bruno Daniel. Já trocavam figurinhas quando Celso Daniel comandava Santo André e não mantinha relações mais que protocolares como o irmão mais novo e também com o irmão mais velho, João Francisco Daniel. 

Os Daniel só se encontravam mesmo e mesmo assim num ambiente pouco descontraído nas festas familiares obrigatórias. A ideologia os separava. Celso Daniel era um esquerdista mais à direita do extremista Bruno Daniel e João Francisco um direitista bem à direita do centro. Fico imaginando o que seria a comunicação entre eles se as mídias sociais portáteis fossem antecipadas no tempo. Provavelmente imporiam mútuos bloqueios.  

Ricardo Alvarez, portanto, também não mantinha relações próximas com Celso Daniel. A preferência de Celso Daniel pelo supersecretário e ex-vereador Klinger de Souza para a sucessão municipal nas eleições de 2002 azedou de vez as relações.  

Quando houve o que houve no chamado Três Tombos, ou seja, o sequestro de Celso Daniel, e tudo que veio depois, Ricardo Alvarez e os irmãos Daniel se juntaram à força-tarefa do Ministério Público colocado sob medida em Santo André pelo governador Geraldo Alckmin para melar a verdade do crime de ocasião, que virou crime político, uma versão comprada pelos pouco apetrechados porque consiste na morte da galinha dos ovos de ouro petista, como se viu mais adiante. 

Bruno Daniel desconhece tanto o processo criminal que ainda outro dia disse que a condenação dos sequestradores confirma a versão do Ministério Público Estadual. Nada mais equivocado: os bandidos foram julgados com base nos inquéritos policiais. Os mesmos inquéritos policiais que inocentaram Sérgio Gomes da Silva, boi de piranha na versão de crime fora da bitola da crise de Segurança Pública no Estado. 

Essa volta ao passado tem tudo a ver com as mensagens do guru contraditório de Bruno Daniel.  

Caminhoneiros são melhores 

Quando afirma que é preciso entender o processo político antes de avaliar pessoas, Ricardo Alvarez afunda numa areia movediça imobilizadora. Qualquer comparação da frase com mensagens nos chassis de carrocerias de caminhão seria heresia. Os profissionais do volante geralmente são tão certeiros em definir conceitos quanto os federais nas denominações contra o crime organizado, como se viu na Lava Jato, por si só um nome-guarda-chuva de extraordinária simbologia.  

Dizer que o processo político antecede às pessoas é entregar à metafísica toda a engrenagem que move a atividade.   

Sei que corro o risco de imprecisão ao interpretar as mensagens do homem que não larga Bruno Daniel. Entretanto, é possível sim traduzir frases simplórias explicitamente denunciatórias do estágio de alheamento a que o guru se impõe, porque fazem parte de um mosaico repetitivo de intervenções em redes sociais.  

Provavelmente o professor está submerso num mundo à parte dos mortais. Ele respiraria dia e noite numa bolha do inconformismo por ver a casa de uma esquerda fossilizada cair nas mãos de uma direita atrapalhadíssima.  

Já as considerações econômicas do professor, de que o PT deixou o País numa situação melhor do que a atual, exceto o período de dois anos do segundo mandato incompleto de Dilma Rousseff, são alucinação em estágio alarmante. 

Primeiro porque não se deve perder o juízo e excluir os dois anos de Dilma Rousseff de qualquer balanço petista. Segundo porque não se deve retirar do balanço nefasto os anos de gastança consumista, de baixa poupança, de desindustrialização nacional ainda mais acentuada, entre tantos e gravíssimos erros microeconômicos e macroeconômicos, dos dois mandatos de Lula da Silva. 

Até mesmo a vertente social, finalmente lembrada por um governante federal, Lula da Silva, Dilma e o PT jogaram na lata do lixo, com as durezas da recessão e da estagnação que se seguiram e ainda não largaram o pé da sociedade brasileira.  

No caso do Grande ABC, os petistas no comando federal (e já escrevi muito sobre isso, com dados sólidos) superaram os oito anos de estragos de Fernando Henrique Cardoso, que, juntamente com um sindicalismo corporativista, destruiu os pequenos negócios industriais locais, entre muitas barbaridades. 

Como se observa, o guru atabalhoado de Bruno Daniel é um perigo às pretensões do candidato. Nem vou entrar em outras searas, de idolatria ao governo venezuelano e tantas outras extravagâncias ideológicas. O fanatismo do professor é vasto. A abrangência seria devastadora.  

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