Esportes

FPF versus FPF: até quando
presidente incentivará golpe?

  DANIEL LIMA - 12/08/2019

Para que ninguém veja fantasma interesseiro onde só existe jornalismo com responsabilidade social, vou logo adiantando: não darei trégua à direção da Federação Paulista de Futebol. Mais especificamente: vou ser o que chamaria de ombudsman não autorizado da entidade, em defesa da honra da entidade, em defesa da coerência da entidade, em defesa da tradição da entidade. 

O que vou fazer? Vou cobrar até quando for possível que a FPF respeite o regulamento que sua própria assessoria técnica concebeu. Fora isso, o cheiro fétido de golpe prevalecerá. Um golpe que precisaria, inclusive, ser investigado nas entranhas mais nebulosas do futebol. 

É claro que estou falando da Série A2 do Campeonato Paulista deste ano. Já fiz várias matérias sobre o assunto e vou continuar essa saga. 

Escrevi mais de 200 matérias sobre o assassinato de Celso Daniel. Quase uma centena sobre a inutilidade da Universidade Federal do Grande ABC. Várias centenas sobre a improdutividade do Clube dos Prefeitos. Escrevi sobre tantas outras coisas tantas vezes que nem me lembro. Escrevi em média 400 análises sobre diferentes atividades a cada um dos últimos 10 anos. Portanto, escrever é meu ofício. 

Vaga vale milhões 

Então, aviso aos eventuais detratores: caiam na real porque o que me moveu antes e me move agora é acabar com a farra de prestidigitações de mandachuvas e mandachuvinhas aboletados na Federação Paulista de Futebol. E no caso, o que se está desenhando de forma bastante suspeita é uma interpretação esquizofrênica do Artigo Nono, Parágrafo Primeiro, do regulamento da Série A2 do Campeonato Paulista. 

A vaga que vale milhões tem um endereçamento esquisito para o terceiro colocado, no caso o Água Santa de Diadema. Essa vaga do terceiro colocado é uma falácia. 

Como o seria se o terceiro colocado fosse o Santo André. Faço essa ressalta porque há sempre maledicentes a apontar pretensa discriminação. Tanto que mencionei o exemplo do Santo André faz muito tempo, como então provável terceiro colocado, algo que foi superado pela capacidade de o Água Santa sair da condição de melhor time do acesso e estacionar aos pedaços na terceira colocação.  

Sei que sei porque procuro saber o possível sobre tudo que envolve meu foco de atuação que a Federação Paulista de Futebol, comandada pelo empresário Reinaldo Bastos, está jogando toda a força da incoerência gestora para as bandas do Água Santa. 

Há uma generalizada propensão naquela entidade de privilegiar a irregularidade decisória, a estupidez interpretativa, a iniquidade ética. O ambiente interno e externo, junto à mídia, foi arquitetado nesse sentido. E uma parcela da mídia descuidada compra qualquer coisa. 

Mula sem cabeça 

Vou repetir: fosse quem fosse o terceiro colocado da Série A2, não haveria nada que fizesse arredar pé de me alinhar completamente ao regulamento que a própria Federação Paulista de Futebol concebeu para a Série A2. Paradoxalmente, a mesma FPF faz tempo esforça-se de forma extraordinária, com omissão oficial e disseminação do que lhe interesse nos bastidores, para negar a obviedade do regulamento. 

Tenho cá a impressão de que, quando os principais nomes (e os mais respeitados) da crônica esportiva da Capital se derem conta do que se passa no que chamaria de futebol menor, que consiste na raia miúda do futebol paulista, porque a raia graúda são os times grandes, tenho cá a impressão, repito, de que a direção da Federação Paulista de Futebol atentará para os danos morais e éticos que perpetraria caso abrisse uma brecha à estupidez interpretativa. 

Sei que ainda há quem acredite tanto nos direitos do Água Santa quando em mula sem cabeça. Não dá para endireitar o que é por natureza enviesado. Mas o bom senso não tem lado nem coloração clubista. E o regulamento da Série A2, embora mal redigido no aspecto formal, pelo menos para quem é jornalista, não se deixou turvar na vertente elucidativa. 

Vale o escrito

O que está escrito é o que vale. E o que está escrito vale como sentença de morte à credibilidade da Federação Paulista de Futebol se a própria Federação Paulista de Futebol praticar usurpação interpretativa. 

A informação é de que a Série A1 do Campeonato Paulista do ano que vem encontrará uma barreira legal que o tornaria inviável até que a própria Federação Paulista de Futebol respeite o que decidiu em Conselho Técnico. O Código em Defesa do Consumidor será acionado para barrar a barbaridade que se pretende cometer. E quando o CDC entra em campo, não tem placar em branco.

Seria nesse momento que, certamente, a chamada grande mídia, sobretudo jornalistas mais experientes, se dará conta de que, como em qualquer atividade de interesse público, o futebol precisaria de uma Operação Lava Jato. Afinal, somente algo muito escabroso poderia violar o regulamento concebido pela própria Federação Paulista de Futebol. 

Trata-se de uma manobra muito bem concatenada, mas cujo resultado deu com os burros nágua porque não se alcançou unanimidade no intento. Partiu dos corredores da Federação Paulista de Futebol e se espalhou pela crônica que dá cobertura ao futebol do Interior (e também dos clubes fora do quarteto mágico) a premissa pecaminosa de que o terceiro colocado da Série A2 teria direito à vaga que supostamente seria aberta pela incorporação ou fusão, ou seja, lá o que for entre Bragantino e Red Bull. 

Planejamento nos corredores 

Constituiu-se uma quase unanimidade, repito. Durante todos os jogos das fases decisivas da Série A2 o que mais se ouviu foram comentaristas e narradores martelarem uma ficção que não consta do regulamento. Um regulamento que a maioria não lera. Uma mentira repetida mil vezes todo mundo sabe no que dá. Era exatamente isso que os bastidores da FPF tramaram. 

Talvez o presidente Reinaldo Bastos não se tenha dado conta da encrenca em que se está metendo. A FPF tem interesses cruzados demais para ser uma entidade aparentemente a salvo de tormentos. 

O silêncio dos filiados, por exemplo, não é necessariamente uma obra de engenharia de alta competência diretiva; mas o mais visível dos desdobramentos de uma política de servilismo, de amedrontamento, de tudo de que a sociedade tanto pretende jogar na lata do lixo da história.

O presidente Reinaldo Bastos tem uma grande oportunidade de responder à sociedade esportiva, que reverbera na sociedade civil, assumindo sem restrições o comando de uma ação que acabe com a montagem de uma farsa regulamentar. 

Presidente ludibriado? 

Não se deve descartar que o presidente Reinaldo Bastos tenha sido envolvido involuntariamente numa teia de charlatães em busca de vantagens não contabilizadas. E que por isso mesmo comprou uma mensagem falsa, fraudulenta -- a mensagem de que o terceiro colocado tem direito a alguma coisa.

Que a Federação Paulista de Futebol até exagere na terapia e cometa a sandice de fazer um campeonato com 15 equipes caso se confirme o auto-rebaixamento do Red Bull Brasil. 

Que negue ao São Caetano o direito de permanecer na Série A1 por ter sido rebaixado dentro de campo, desprezando-se, portanto, a lógica também regulamentar de que apenas duas equipes sofreriam queda. 

Que lógica? A de que o Red Bull, ao disputar a Série A2, se juntaria ao último colocado da Série A1, São Bento. Quem desiste por qualquer razão é automaticamente rebaixado. 

Campeonatos não terminaram

O regulamento da Série A1 e da Série A2 enseja a possibilidade de mudança na relação das equipes rebaixadas numa temporada porque estica a confirmação de participação de inscrição até a abertura do Conselho Técnico da competição do ano seguinte. 

Quando outubro chegar, saberemos quem sobe e quem desce oficialmente. Tanto isso é verdade (leiam o regulamento, leiam o regulamento) que Santo André ou Internacional de Limeira, finalistas da competição, podem desistir do acesso à Série A1. O regulamento prevê que, ante um desistente (não se especifica os dois) o terceiro colocado da fase semifinal (no caso o Água Santa) teria direito de subir. 

A recíproca é verdadeira quanto ao limite de dois acessos e dois descensos na Série A1 e Série A2: da mesma forma que o São Caetano pode alegar com respaldo jurídico que tem direito a seguir na competição porque um segundo rebaixamento se confirmou com a retirada do Red Bull, o Água Santa subiria de divisão se Santo André ou Internacional de Limeira renunciasse ao acesso. 

Aberração jurídica 

O que a Federação Paulista de Futebol não pode produzir é a aberração de negar a clareza mesmo que excessivamente formal do Artigo Nono, Parágrafo Primeiro. Pode até, por birra ou algo assemelhado, entender que o São Caetano não poderia ser contemplado com a permanência na Série A1, num surto extraordinário de excesso de suscetibilidade. Se o fizer, que arque com as consequências jurídicas da medida. 

O que pergunto é como a Federação Paulista de futebol agiria se ao invés do São Caetano houvesse na parada um dos quatro times grandes?

O presidente Reinaldo Bastos, empresário de sucesso, sabe que o destino lhe oferece uma oportunidade especial de retirar a Federação Paulista de Futebol de um mar de desconfiança.  

A síntese dos regulamentos da Série A1 e da Série A2 é inviolável: sobem dois e descem dois. As formas possíveis, mas nem sempre previstas de como subir e como descer são especificidades que não rompem o lacre do bom senso.  Não é toda hora que Red Bull e Bragantino juntam forças. 

Assim como os federais costumam desbaratar quadrilhas seguindo antigo mantra investigativo (“sigam o dinheiro”), no caso da vaga da discórdia mais que programada a saída é apenas uma: sigam o regulamento; sigam o regulamento. 

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