Regionalidade

Chamem as universidades!
Será que isso vai dar certo?

  DANIEL LIMA - 14/08/2019

Duvido, duvido muito que dê, mas, antes que digam que sou cético além do natural para quem é jornalista, faço duas ressaltas. A primeira é que a ideia do secretário-geral do Clube dos Prefeitos, Edgard Brandão, não é original, mas nem por isso é desclassificatória. Distante disso.  

O dirigente do Clube dos Prefeitos não pode ser acusado de comodista. Está metendo o pé na porta da inapetência daquela agremiação político-administrativa. 

A segunda ressalva é que o passado me tornou reticente sobre tudo que diz respeito à regionalidade do Grande ABC. Acompanhem este texto e vocês não terão outra coisa a fazer senão me abraçar. Lamentavelmente. 

Promessa do presente

Vamos ao que interessa e que vou revelar em detalhes: deu no Repórter Diário que o Clube dos Prefeitos formalizou a entrada de universidades em um programa permanente de estudos visando o desenvolvimento econômico da região. Acompanhem a abertura daquela reportagem, publicada na edição de anteontem: 

 Foi criado o GT (Grupo Técnico) Universidades, que reunirá integrantes das instituições de Ensino Superior da região para trocar de experiências e integração com o Poder Público. Foram convidadas inicialmente 12 instituições, mas esse número pode aumentar. A primeira reunião de trabalho do grupo já está marcada para o dia 6 de setembro, no consórcio – escreveu o Repórter Diário.

Passivo do passado

Para que os leitores entendam até onde vou chegar, vou fazer contrapontos entre o que publicou o Repórter Diário na edição de anteontem e o que foi publicado na revista LivreMercado, que fundei e dirigi durante 19 anos. Leiam os primeiros trechos do texto assinado pela jornalista Malu Marcoccia para a edição de maio de 2003 de LivreMercado. Portanto, há exatamente 16 anos. 

 A dificuldade de saber exatamente que tipo de mão-de-obra o Grande ABC precisa após a reestruturação econômica dos anos 90 acabou adiando a arrancada em quinta marcha do Unifórum ABC (Fórum Regional Para o Ensino Superior). O comitê encarregado de analisar a formação acadêmica na região – primeiro trabalho dessa nova instância de discussões no Grande ABC – decidiu ouvir primeiro os maiores interessados no assunto, os empregadores, para estabelecer uma pauta mais lenta, porém mais firme nas ações, segundo o reitor da UniFEI Rubens da Silva Mello. 

Promessa do presente 

Antes de voltar a novos trechos da reportagem de anteontem do Repórter Diário, faço uma pausa para esclarecimento: como o GT Universidades, o Unifórum teve como palco o Clube dos Prefeitos. Naquela casa, a proposta foi enlaçada pela Agência de Desenvolvimento Econômico, braço daquela entidade que mandachuvas desativaram recentemente. Agora, mais uma parte da reportagem do Repórter Diário, sem deixar de lembrar que o texto se refere a “Consórcio”, o nome oficial do Clube dos Prefeitos, invenção nossa para que o leitor tenha facilidade de entendimento. Até porque “Consórcio Intermunicipal” é de um mau gosto terrível. Vamos ao Repórter Diário:

 “A ideia era começar um trabalho de integração apenas com as universidades públicas. Depois, entendemos que seria importante estender esse convite também para as instituições privadas”, afirmou o secretário-executivo do Consórcio ABC, Edgard Brandão. “Já temos o grupo de educação com secretários municipais, mas as discussões ficam muito centradas nas administrações. A ideia de participação de várias entidades é estabelecer um nível de discussão na questão da tecnologia, do desenvolvimento futuro que vamos ter, por exemplo, na questão da ferramentaria, do polo tecnológico e também com as empresas e indústrias da região, detalha – escreveu o Repórter Diário. 

Passivo do passado 

Voltamos mais uma vez no tempo e à revista LivreMercado de maio de 2003. Mais um trecho da reportagem:

 A decisão (de criar o Unifórum) não surpreende. Ao contrário, confirma que os centros universitários desconfiavam e que os motivou a criar um fórum próprio de debates: a academia não conhece o parque econômico da região nem o Grande ABC sabe o que os bancos escolares têm a oferecer no campo da pesquisa e da profissionalização: “É difícil fechar uma agenda sobre como o Ensino Superior pode repensar e ajudar a região sem conhecer primeiro o Grande ABC atual” – reconhece a coordenadora do Unifórum e assessora da Universidade Metodista, Amália Fernandez Gomez. Os encarregados de fazer o fórum das universidades sair do ponto morto serão empresários da indústria e comércio, convocados para reunião neste dia 15 de maio. Ciesps e associações comerciais vão compor a primeira chamada de uma lista que incluirá encontros setoriais também com sindicatos trabalhistas, setor de serviços, poderes públicos e escolas de ensino médio, entre outros – escreve Malu Marcoccia na edição de maio de 2003 da revista LivreMercado. 

Promessa do presente 

Vamos voltar ao presente, certo? De novo mais um trecho da reportagem do Repórter Diário sobre o movimento do Clube dos Prefeitos:

 Rosângela Bonici, diretor da Fatec Diadema, avalia que haverá ganho para a região: “O que muito nos interessa são as possibilidades que existem na área de química e produção industrial. A Fatec trabalha com a ideia de formar para a região, a ideia é que essa mão de obra fique e gere renda e que cada vez mais a gente possa contribuir para uma boa formação e para o desenvolvimento regional”, analisou – escreveu o Repórter Diário.

Passivo do passado 

Querem mais LivreMercado de maio de 2003? Querem mais a jornalista Malu Marcoccia? Querem mais do melhor jornalismo regional que esse País já conheceu? Então leiam:

 De qualquer forma, o comitê de formação acadêmica do Unifórum estabeleceu que serão pelo menos quatro eixos prioritários: criar canais para contatos entre universidades e empresas, verificar quais as demandas profissionais da região, estimular as parcerias empresa-escola e aprimorar a grade de ensino. A qualidade de ensino dividiu opiniões das 10 instituições que compõem o Unifórum. Uma parte admite que não tem tido flexibilidade para acompanhar as mutações constantes do mercado e outro grupo acha que, ao contrário, deve-se continuar com formações genéricas, voltadas a grandes famílias ocupacionais. O atendimento a formações específicas poderia ficar por conta dos cursos de extensão e pós-graduação, com duração de dois anos após o diploma universitário. “O problema de adaptar a graduação às especificidades de cada atividade econômica é que há determinadas disciplinas e cargas horárias mínimas impostos pelo MEC. Além disso, temos uma infinidade de empresas na região, com tamanhos e necessidades muito diferentes” – expõe Heloísa Gomes, da Faculdade Octógono de Santo André --- escreveu LivreMercado. 

Promessa do presente 

De novo, voltamos aos dias atuais e à reportagem do Repórter Diário. Esse contraponto entre o passado e o presente vai ter um elo em comum. Que explico já-já:

 Para Marcos Bassi, reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) as universidades podem ajudar não apenas na formação de pessoal, mas têm muito a contribuir em pesquisa. “Existe uma base econômica instalada e aí as universidades podem ajudar nos estudos técnicos de qualificar, preparar mão-de-obra para o que está instalado, mas o mais importante é o futuro, é pensar o que será a região no futuro e preparar as profissões do futuro que são cursos e profissões que não existem ainda, porque a indústria é dinâmica e está sempre mudando”, apontou – escrever o Repórter Diário. 

Passivo do passado

Tomo emprestado do passado mais um trecho da reportagem da revista LivreMercado, produzido há mais de uma década. Leiam com atenção porque o que vem de tão distante no tempo tem uma semelhança descomunal com o que temos no presente:

 A academia não deixa de fazer mea culpa. Reconhece que permaneceu entrincheirada durante todos os anos de transformação política e econômica do Grande ABC. O temor da concorrência impediu até agora que se estabelecessem essa relação ideal de pesquisas e formação regional. “Nós também não fomos até a comunidade ouvir o que queria” – resume Vitor Bittencourt, coordenador de estágios do IESA de Santo André e incentivador da figura de um homem de marketing, essencialmente da área comercial, dentro das reitorias. Vitor conta a experiência que teve na Universidade de Mogi das Cruzes, onde foi incumbido de visitar empresas de Mogi e Suzano para ofertar cursos sobretudo de MBA. “Paramos de exportar alunos para a Capital”, conta ela – escreveu a jornalista Malu Marcoccia.

Xadrez e pebolim 

Poderia transcrever mais alguns trechos tanto de uma matéria do passado quanto da matéria do presente, mas acho que é dispensável. Não acredito que o Grupo Universidades vai mudar a realidade econômica do Grande ABC. Não que faltem competências. Nada disso. É que primamos pelo individualismo, pela concorrência predatória, pelo achismo, pelo nicho de resoluções que não alteram significativamente o produto final de fragilização constante do conjunto.

A saída mais viável para o Grande ABC encontrar-se com o passado de glórias que já não existem é cair na real e adotar sem perda de tempo uma antiga proposta deste jornalista: contratem uma consultoria especializada em competitividade municipal e regional e entreguem as diretrizes de resoluções a quem entende do riscado.

Individualidades sem organização coletiva é o mesmo que dar um tiro no pé. O Unifórum retratado na reportagem de 2003 da revista LivreMercado (outras matérias foram publicadas na sequência) deu com os burros nágua como dará o GT Universidades. Por mais boa vontade que exista de todas as partes. Algumas vitórias poderão ser alcançadas, em algum projeto específico de uma atividade específica, mas o conjunto da obra será sempre um arremedo incontrolável. 

O regionalismo do Grande ABC é um tabuleiro de xadrez manipulado por praticantes de pebolim. 

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