Economia

Faltam Barueri e São Caetano
nos festejos de São Bernardo

  DANIEL LIMA - 19/08/2019

Se falta tudo isso (e vou explicar na sequência) como simbologia do empobrecimento da Capital Econômica do Grande ABC, então por que o prefeito Orlando Morando realizou, pelo terceiro ano seguido, uma festa de arromba supostamente em comemoração antecipada da data de 20 de agosto, aniversário da cidade? 

A resposta é simples: porque não tem sensibilidade social e faz do marketing político ação permanente. Morando segue rigorosamente o manual dos perfeitos doutrinados por marqueteiros igualmente insensíveis. 

Não, não, o leitor não se equivocou na leitura nem eu no verbete: escrevi mesmo “perfeitos doutrinados”, uma corruptela de “perfeitos idiotas”. Se leu “prefeitos doutrinados”, o deslize se traduz em acerto involuntário, porque é tudo a mesma coisa. 

Sei que o leitor está intrigado com a dimensão do que falta em São Bernardo. Afinal, que tem São Caetano e o que tem Barueri com isso? Vocês não imaginam quanto. Pois vou explicar didaticamente. 

Batom na cueca

Trata-se do que chamaria de perda de riqueza acumulada o que me remete ao cruzamento de dados de São Bernardo e dos dois vizinhos da Região Metropolitana de São Paulo. 

O indicador que ilustra essa situação dramática é muito melhor que o PIB (Produto Interno Bruto), porque o Índice de Potencial de Consumo é, em resumo, o PIB das famílias brasileiras. Especialidade da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini, o Potencial de Consumo é espécie de batom na cueca quando se pretende demostrar o que aconteceu a cada Município brasileiro. 

Pois a situação de São Bernardo neste século, em 20 anos deste século, de 2000 a 2019, é dramática. Tão dramática que o prefeito Orlando Morando haveria de ser censurado publicamente por um grupo de contribuintes se houvesse um grupo de contribuintes ativo e preocupado com o que se passa no território. 

É claro que a maioria dos contribuintes sabe o que acontece em São Bernardo (e com intensidade menos grave nos demais municípios), mas não existe grupo algum com autonomia, conhecimento, empenho e determinação para evitar colapsos éticos, como o perpetrado por Orlando Morando ao promover o baile de aniversário no Pavilhão Vera Cruz. 

Origem dos dados 

Afinal, de onde retirei números, quais foram os cálculos que fiz, para garantir que falta uma São Caetano e uma Barueri no potencial de consumo de São Bernardo a partir do ano 2000? 

Como posso garantir que este século está sendo devastador para o conjunto da população de São Bernardo? 

Como posso ter autoridade numérica para dizer que a festa de arromba é uma peça de marketing político travestida de benemerência com o Fundo de Solidariedade é um embuste? 

Como fazer o jovem prefeito de uma das cidades economicamente mais destruídas neste século (depois de duas décadas finais do século passado também sob pressão total da competição intermunicipal) compreender que é preciso respeitar o público. Que não fica bem para a massa social tanto foguetório por nada?

Buraco de R$ 13 bilhões 

Vamos aos números, então. A riqueza acumulada em São Bernardo em 1999, último ano do século passado, era de R$ 4.953.530,300 bilhões em valores não atualizados. Ou seja: as famílias de São Bernardo tinham essa dinheirama para gastar. Com o que quisesse. A Consultoria IPC faz essa medição com base num coquetel de dados oficiais. Por isso é respeitadíssima. Não faltam organismos públicos, privados e sociais que a contratam para enveredar rumo a um futuro melhor. 

Pois bem: essa dinheirama de São Bernardo representava 0,8161% de tudo que os brasileiros em geral tinham para consumir em 1999. Aí veio o novo século, cheio de esperança. Lula da Silva, egresso de São Bernardo, virou presidente da República. O PT de nascedouro na região ficaria no comando do País durante 13 anos seguidos. São Bernardo teria tudo para beneficiar-se disso. 

Os resultados são lastimáveis, mas não se pode responsabilizar o governo federal por isso. Lula da Silva e Dilma Rousseff fizeram de tudo para colaborar. Houve explosão de vendas de veículos durante vários anos. Consumimos muito mais do que investimos. Nem assim, entretanto, São Bernardo escapou da degola do rebaixamento da perda de mobilidade social. 

São Caetano mais Barueri 

Se São Bernardo repetisse o crescimento médio de acúmulo de riqueza para consumo que o Brasil exibiu nas duas décadas deste século (crescimento nominal, sem considerar a inflação, de 672,13%), teria registrado potencial de consumo de R$ 38.245.931 bilhões nesta temporada. Pois não passará de R$ 24.956.247.332 bilhões.  

O crescimento nominal do potencial de consumo de São Bernardo não passou de 403,81%. Só superou Santos no G-22, o grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo, além de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que completam o time da região. A Capital do Estado não entra nesse clube. 

A diferença entre o que São Bernardo apresenta de potencial de consumo neste ano e o que apresentaria caso evoluísse seguindo o ritmo nacional é de exatamente R$ 13.289.683,77 bilhões. 

Guardem esse último número porque significa o total do potencial de consumo desta temporada de São Caetano e de Barueri. São Caetano vai consumir R$ 6.001.736.614 bilhões, enquanto Barueri chegará a R$ 7.149.001.544 bilhões. É dinheiro para dedeu. Muito dinheiro. 

Encaixe perfeito 

Pensei em escolher uma única cidade para comparar com a perda de São Bernardo no período. Nenhuma, entretanto, deu o encaixe numérico perfeito. Quase deu Santos, cujo potencial de consumo deste ano é de R$ 14.192.072.040 bilhões. Ou Jundiaí com R$ 14.082.135.346 bilhões. Preferi São Caetano e Barueri porque há maior aproximação dos valores.

Embora sejam indicadores distintos, potencial de consumo e PIB propriamente dito guardam semelhanças no resultado final. São Bernardo despencou no indicador de potencial de consumo neste século porque também despencou na produção de riqueza. 

Um bom medidor para botar os dois conceitos sob observação conjunta é o potencial de consumo por habitante, per capita, e também o PIB per capita. O PIB per capita de São Bernardo caiu 48,65% desde o começo do século. O estrago só é superado no G-22 pela vizinha São Caetano, que perdeu 51,96%. Fosse uma disputa eleitoral diria que a diferença está na margem de erro. 

Já no potencial de consumo por habitante, no mesmo período, São Bernardo só supera Santos e Campinas. Sem considerar a inflação, São Bernardo teve aumento nominal de 331,23% no potencial de consumo por habitante neste século. Bem menos que a média nacional de 456,91%. São Bernardo cresceu nominalmente abaixo da média do Grande ABC, que chegou a 382, 74%. Sob qualquer ângulo, São Bernardo perde sempre. E perde feio. 

Proletariado multiplicado 

Em abril deste ano mostrei (“São Bernardo empobrecida lidera massa de proletários”) o quanto este novo século tem sido impiedoso com São Bernardo, em particular, e o Grande ABC, de forma geral.

Revelei que, entre 2000 e 2019, São Bernardo aumentou em 118,65% a massa de moradias que acolhem o proletariado, também chamado de Classe C. Ideólogos preferem manipular essa turma com Nova Classe Média. Uma besteiragem sem tamanho.

Antes de o novo século começar o proletariado do Grande ABC contava com 236.759 moradias, de acordo com pesquisa da Consultoria IPC, de Marcos Pazzini. O volume representava 38,23% das moradias do Grande ABC em 1999. Em 2019 passou para 49,49% ao somarem 469.617 de um total de 948.800 moradias. 

São Bernardo colaborou intensamente para a proletarização social. Das 61.364 moradias em 1999 saltou para 134.176 em 2019. Um salto de 118,65%, ou 72.812 novos endereços. O proletariado representava 32,45% das moradias de São Bernardo antes que o novo século começasse. Agora são 47,28%. Saiu-se de praticamente um terço para praticamente a metade no conjunto de residências. 

Associação explicativa 

A associação de PIB em queda, potencial de consumo submerso e proletariado em alta faz parte da mesma sintonia de desespero e desencanto que o prefeito Orlando Morando ignora como fontes inibidoras a arroubos marquetológico. 

Está na hora de o tucano acordar para uma realidade que poderá ser fatal às pretensões de reeleger-se: há determinadas medidas supostamente beneméritas em conexão com o anseio de alterar o astral soturno de São Bernardo que, quando efetivadas, soam a deboche. 

Tenho uma frase engatilhada para me referir à economia de São Bernardo, particularmente de São Bernardo, quando instado a resumir a recessão que não termina no Grande ABC: digo ao interlocutor que aqui se vive uma teimosa sucessão de feriados prolongados. A paralisia é asfixiante. O prefeito Orlando Morando não pode avaliar o sucesso pessoal, familiar e também de grupos privilegiados de mandachuvas e mandachuvinhas como regra geral de São Bernardo. É exceção sobreposta de exceção.  

Leia mais matérias desta seção: