Economia

Sebo nas canelas, Morando,
porque a pobreza não espera

  DANIEL LIMA - 23/08/2019

O prefeito Orlando Morando disse que o desenvolvimento econômico seria prioridade quando, na reta de chegada da campanha eleitoral de 2016, concedeu entrevista à Imprensa regional. Morando finalmente chegaria ao Paço Municipal, meses depois. A Operação Lava Jato foi decisiva para destronar o PT do candidato Tarcísio Secoli. 

Passados praticamente três anos desde aquela entrevista, Orlando Morando segue devendo no campo econômico. E como sabe disso, fará o que for possível para transformar eventuais e pontuais supostos sucessos em porta-bandeira de falácias. Morando não é nada diferente dos políticos em geral. 

Sim, a classe política vive disso, ou seja, de ações de marketing sem compromisso com o futuro. O Brasil da chamada Nova República está aí como prova provada. Há quem considere Jair Bolsonaro um quasímodo político. Bobagem: ele é a expressão caricatural da classe. É um escracho de sinceridade num ambiente de cinismo petulante. 

Frustração geral 

Quero dizer com isso exatamente o seguinte: o gestor público sobre o qual se depositavam as maiores esperanças de a economia do Grande ABC parar de perder de goleada o jogo da competitividade praticamente nada fez para honrar o compromisso público assumido. 

Mais que isso: cavoucou o buraco de novas perdas ao deixar o Clube dos Prefeitos em petição de miséria institucional, com divisionismos partidários, e aniquilou a Agência de Desenvolvimento Econômico, legados do maior gestor da regionalidade da história, o então prefeito Celso Daniel.

Tenham certeza absoluta os leitores que não faço parte de grupelhos encardidos que torcem para que tudo dê errado com gestores públicos que não os apetecem por alguma razão, especialmente ideológica. Esses energúmenos confundem as bolas e não escondem más intenções. 

Equipe econômica? 

Gostaria que Orlando Morando honrasse os compromissos assumidos porque teria maior prazer em abrir manchetíssimas comemorando conquistas. Infelizmente não é o caso dele e de nenhum dos demais prefeitos. 

Uma empreitada de sucesso aqui, outra ali, não têm poder de fogo para o enfrentamento concorrencial dos maiores municípios do Estado. E isso significa, em linha geral, perda de espaço no presente e novos mergulhos no futuro. 

A equipe econômica da Administração Orlando Morando (alguém é capaz de citar algum nome que integraria a pasta do setor, exceto do ex-vereador que ganhou como prêmio à fidelidade eleitoral o posto de titular sem entender bulhufas de competitividade?) é de uma pobreza franciscana em matéria de preparo à missão que os números deste século, só deste século, exigem. 

Eles, esses desconhecidos ou inapetentes assessores, adentraram mata adentro de empobrecimento do Município munidos de garruchas. É claro que sofrem baixa a cada jornada, porque enfrentam leões bem alimentados de uma concorrência feroz. 

Quem imaginou que eles contariam com artilharia pesada para os confrontos não tem outro sentimento senão a decepção como companhia. 

A prova do crime 

Para não dizerem que estou atribuindo o prefeito Orlando Morando declarações fantasiosas sobre as prioridades que o candidato Orlando Morando anunciou, eis o que repasso alguns parágrafos do que disse à Folha do ABC em 5 de setembro de 2016, praticamente um mês antes do embate com o petista Secoli: 

 O candidato a prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, em entrevista exclusiva à Folha do ABC, afirmou que tem feito uma campanha baseada em programas e soluções, pois “São Bernardo, hoje, clama por um gestor público, alguém que possa estar preparado para uma cidade com tantos desafios” – disse.  (...). Morando acredita que o primeiro desafio em São Bernardo será a retomada do desenvolvimento econômico. “A cidade vem perdendo o protagonismo da cidade do emprego, da cidade do trabalho, se tornou quase um ato comum uma empresa anunciar que está saindo de São Bernardo. Só nesse ano já vivemos a Bacardi deixar São Bernardo, a Conexel, a Grow, a Penex, a Mangels já deixaram a cidade, a P&G está indo embora também. A carga tributária do Município é incompatível com a realidade de mercado”, justificou. O candidato acredita que a solução será a redução de alíquotas, a criação de uma nova lei de incentivos fiscal – escreveu a Folha do ABC. 

Desfiladeiro abaixo

Quase que ao fim do sexto semestre de um mandato que poderá ou não ser renovado, Orlando Morando não levou adiante seu plano. É verdade que criou uma lei de incentivos fiscais (na verdade, copiou com defasagem de mais de duas décadas o que Celso Daniel concebera em Santo André) cujo balanço é desconhecido porque mais que provavelmente irrisório para estancar o processo de desindustrialização. 

A retirada da Ford com quase quatro mil trabalhadores entre diretos e indiretos e os danos colaterais na teia de fornecedores chamuscaram o marketing de novos tempos. Algo que poderá ser requentado e vendido com o anúncio de uma ou outro investimento industrial de empresas que, por razões especificas de competitividade combinada com universo de consumidores na Grande São Paulo, mantêm-se na região.

O PIB per capita deste século deveria servir de bússola e de desafio ao prefeito Orlando Morando. Fossem seus assessores menos dóceis e mais prospectivos, um quadro digital ou mesmo riscado a giz deveria emoldurar o gabinete do chefe de Executivo no Paço Municipal. Se precisarem, forneço a matriz do mapa do inferno do PIB de São Bernardo a partir do ano 2000, tendo 1999 como base estatística. 

Caindo pelas tabelas 

Estão ali os números do descalabro contínuo, implacável e perceptível nas ruas. E o que está ali? Em 1999 o PIB per capita de São Bernardo só era inferior aos registrados por Paulínia, Barueri e São Caetano, municípios muito menores e com especificidades de riqueza constituídas pelo polo petroquímico (Paulínia) e atividades de serviços (Barueri e São Caetano). 

Vinte anos e muitas derrotas depois, o PIB per capita de São Bernardo foi ultrapassado por Osasco, Jundiaí, Piracicaba e São José dos Campos. Ou seja: caiu para o oitavo lugar no G-22, o grupo dos 20 maiores municípios do Estado. 

Não existe catastrofismo algum na projeção que faço para os próximos cinco nos, a continuar a toada deste século: São Bernardo perderá novos postos no ranking que compreende o período de 2000 a 2016. Os dados de 2017 só serão conhecidos em dezembro próximo, porque o PIB dos Municípios é revelado sempre com dois anos de atraso em relação ao PIB brasileiro. 

O prefeito Orlando Morando precisa voltar ao período eleitoral e dar prioridade à economia de São Bernardo. Se eventualmente entender que não frustrou o eleitorado, teremos o pior dos mundos porque poderá entender que deu o máximo possível e, como esse suposto máximo é bastante aquém das necessidades, estaremos perdidos e mal-pagos. 

Pendurar-se no governador João Doria para capitalizar eventuais investimentos industriais em São Bernardo não parece ser alternativa suficiente para dar um cavalo de pau nessa corrida em marcha a ré.

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