Economia

CAOA é o Cavalo de Troia
automotivo no Grande ABC

  DANIEL LIMA - 03/09/2019

Há um paradoxo latente no anúncio oficial previsto para hoje de que a CAOA vai assumir os escombros tecnológicos, o mercado residual e parte dos complexos ativos de trabalhadores da Ford. A notícia boa é que alguma parte dos empregos considerados descartados se salvariam. A notícia ruim é que, como não existe almoço de graça, os veículos chineses fabricados pela CAOA vão provocar estresse no equilíbrio de custos das montadoras locais, reconhecidamente fora do prumo, sobretudo de custos trabalhistas quando confrontadas com outras regiões do País.

Tradução simples, direta e reta dessa equação: a CAOA deverá se constituir em Cavalo de Troia das montadoras do Grande ABC porque, provavelmente, terá padrão de tratamento salarial e de conquistas trabalhistas bastante aquém da média regional.

Não existe no horizonte próximo nada que difira dessa proposição, sobre a qual é muito provável que todos se calarão, entre políticos e lideranças de trabalhadores.

Ninguém vai assinar um atestado de perda generalizada que se abrirá, mas que, para o bem geral da região, poderá contribuir com o reequilíbrio social.

Desarranjo estrutural

Sim, os salários das montadoras de veículos, que se espalham com gradualismo de enfraquecimento por outros setores, entortam as pernas das demais atividades -- como mostrei ainda outro dia no G-22 de Competitividade Municipal.

Ou seja: as atividades de comércio, de serviços e de construção civil não usufruem do fato de o Grande ABC contar com passageiros de primeira classe no mercado de trabalho. O desnível salarial e de benefícios é acachapante. O socialismo sindical criou um universo regional de desigualdades terríveis.

Benesses do passado em que os sindicatos deitavam e rolavam e as empresas usufruíam de regalias levemente mitigadas após a descentralização automotiva (com funda repercussão de desindustrialização da região) não se sustentam num ambiente de competitividade internacional.

A matriz automotiva brasileira não comporta concorrência internacional. Por isso privilegia o mercado argentino, igualmente protegido e sempre em ebulição.

Trocando em miúdos: o troca-troca envolvendo a Ford desistente e a CAOA substituta não pode ser objeto de grandiloquências. Provavelmente não faltarão espertalhões a cantarolar vitória retumbante, como se tudo que passou na Ford desde fevereiro último, ao anunciar fuga do Brasil, fosse apenas um respiro profundo para uma vigorosa encetada numa maratona em que a vitória é certa.

Efeitos do troca-troca

Não é bem assim e todos que têm juízo sabem. De imediato, o troca-troca será prejudicial a São Bernardo e à economia do Grande ABC porque os ativos expostos pela Ford e os remendos que virão com a CAOA são totalmente desiguais.

É verdade que a situação seria muito pior se não houvesse esforço comum do governador João Doria e do prefeito Orlando Morando no sentido de corrigir a rota que indicava uma vastidão de terra a desocupar à margem da Anchieta, como tantas outras áreas semelhantes no mesmo endereço que, indústrias em fuga, jamais foram repostas.

Também é verdade que o sindicalismo de São Bernardo, o mais representativo da classe operária do Grande ABC, se vê numa situação de notável desconforto. Afinal, perdeu completamente o protagonismo. Está acuadíssimo com a derrocada regional do Partido dos Trabalhadores, fiador e incrementador de suas atividades. E também puxou o breque de mão da oratória incandescente. Novos protagonistas, agora do campo governamental, assumiram a posição de brigar por empregos. João Doria está de olho no Palácio do Planalto tanto quanto o então sindicalista Lula da Silva mirava os olhos àquela direção.  

Ganhos relativos

Escrevo estas linhas me antecipando ao anúncio oficial no Palácio dos Bandeirantes. Já imagino o quanto os tucanos vão propagar o feito que não é assim uma Brastemp, mas também corre em raia bastante distante do desespero que se prenunciava.

Como sou gato escaldado, nada melhor que esperar pelos próximos tempos. Que o Cavalo de Troia em forma de CAOA vai complicar a vida sindical em São Bernardo não tenho dúvida.

Se faltava um empurrão além da disputa nacional por espaços automotivos, cujos resultados ao longo deste século colocam sobretudo São Bernardo a nocaute em crescimento do PIB, agora teremos os danos colaterais que os infiltrados sob o comando da empresa de Carlos Alberto de Oliveira Andrade serão forçados a produzir.

As primeiras informações, da voz do prefeito Orlando Morando à Jovem Pan, dão conta de que perto de 20% do efetivo da Ford em fevereiro deste ano seria salvo pela operação CAOA. Talvez um pouco mais, quem sabe. Nada grandioso a ponto de se soltarem fogos de triunfalismo. Mas nada também que não possa ser avaliado como positivo. Mesmo com condicionantes que o tempo trará de solidificar entre outros motivos porque o trem regional de enfrentamento está atrasadíssimo. Somos quase uma Maria-Fumaça perto do Trem-Bala.

Choque importante

Se o Grande ABC carece mesmo de um choque impactante, a retirada da Ford e a chegada da CAOA talvez componham a melhor notícia dos últimos tempos. Somente a desistência da Ford, repetindo em maiores proporções individuais, por empresa, o que se tornou rotina no Grande ABC há mais de duas décadas, não causaria os efeitos reestruturantes que se projetam. A chegada de chineses, reconhecidamente austeros na relação entre capital e trabalho, sinaliza emblemático novo formato automotivo na região.

De qualquer maneira, não se deve mesmo cair na armadilha do encantamento que marcará o anúncio do governador João Doria e a reverberação pré-eleitoral de Orlando Morando, prefeito pouco afeito ao Desenvolvimento Econômico, mas com senso de oportunidade apurado.

Os dias que se seguirão ao troca-troca às margens da Anchieta serão menos festivos do que muitos imaginam. A austeridade nas montadoras, acentuadamente em forma de investimentos tecnológicos que cortam mão de obra, poderá alcançar novo patamar, de indução a salários e benefícios mais de acordo com o rebaixamento agressivo da competitividade regional.

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