Economia

Polo Tecnológico é um fetiche
cada vez mais distante do ideal

  DANIEL LIMA - 09/09/2019

O calendário eleitoral é a bússola que liga o motor de arranque em direção ao populismo. Com o prefeito de Santo André, Paulinho Serra, não é diferente. A mais recente ação de marketing é um contrato que definiria a arquitetura física do mais que desgastado e desmoralizado sonho de construir um Centro Tecnológico em Santo André. Não será o modelo de Polo Tecnológico de Paulinho Serra que fará o verão de nova diagramação industrial e de serviços econômicos de Santo André --- e muito menos da região.  

Há mais de uma centena de textos de CapitalSocial e da antecessora LivreMercado no acervo digital sobre polo tecnológico. O Grande ABC sempre lança mão desse expediente de sofisticação para embalar expectativas ilusionistas.

São prestidigitadores políticos supostamente preocupados com o amanhã que sempre tem chegado pior que o ontem. Paulinho Serra é mais um da lista que se apresenta recheado de expectativas. A diferença é que no passado as expectativas se justificavam. Havia um mínimo de percepção em prol da regionalidade. Agora, no presente, o ceticismo é o ancoradouro dos sensatos. 

O Grande ABC é uma colcha de retalhos institucionais, uma tapeçaria surrada, um jogo de interesses cruzados em tantas coisas, menos no que mais interessa: o combate incessante às inúmeras rachaduras econômicas com efeitos sociais danosos.  

Uma prova do desalento

Detesto papo furado quando se trata de questionar, quando não desclassificar, tentativas que não passam mesmo de marketing rasteiro. Por sorte, temos à disposição não só a experiência profissional com esse (também) tema entre tantos de uma regionalidade em frangalhos como também o reforço de reportagens e análises que vem de longe no tempo com a assinatura de outros jornalísticas. 

Quase que aleatoriamente encontrei nos arquivos um texto assinado pela jornalista Malu Marcoccia para a edição de setembro de 2001 da revista LivreMercado. A reportagem-análise, como se vê, está completando 18 longos anos. Entre o que está ali, como obra de expectativas em torno de polos tecnológicos que ocupariam a geografia regional, não apenas de Santo André, e o que o prefeito Paulinho Serra disse ainda outro dia em reportagem do Diário do Grande ABC, temos um fiel retrato do quanto a região caiu numa pasmaceira de empobrecimento administrativo. 

Sem qualquer risco

Paulinho Serra quer sair nas manchetes de jornais a qualquer custo e sem qualquer risco de ser contraditado. É um gestor público despreparado em vários pontos. Essa de anunciar o projeto técnico-físico do Polo Tecnológico é uma maneira espertíssima de vender aos incautos que teria encontrado o pó de pirlimpimpim para as agruras de Santo André, um dos endereços mais devastados pela desindustrialização nos últimos 30 anos. 

Ainda poderia esmiuçar mais a fundo a fragilidade do anúncio do prefeito de Santo André. Fico, por conta de certa intolerância com mais uma historiazinha para boi dormir (é impossível ser diplomático diante de anos e anos de uma cantilena reformista que jamais se realiza) com uma equação simples e contundente: como pretender fazer de um polo tecnológico a base da recuperação econômica de Santo André (é disso que se trata), sem que uma consultoria especializada em competitividade municipal analise profundamente que tipo de negócio poderia ocupar aquela área a ser supostamente construída?

Base da credibilidade 

Essa é a base de tudo para que o polo tecnológico tenha alguma credibilidade quanto a exequibilidade operacional. Fora isso, mesmo que decore um texto explicativo à empreitada (como ficou notório na entrevista ao Diário do Grande ABC) Paulinho Serra não vai convencer ninguém. 

Especialista em medidas inócuas (como os encontros supostamente empresariais que realiza a cada ano no Teatro Municipal recheado de comissionados públicos e sem uma pauta específica à economia do Grande ABC), o prefeito que pretende se reeleger em outubro do ano que vem é um devedor contumaz.

Chefe do Clube dos Prefeitos, Paulinho Serra comporta-se como tantos outros que ocuparam aquela cadeira inútil: olha apenas para o território de Santo André, do qual faz plataforma de embarque a um populismo que só é visto como algo diferente por quem não tem amor à própria inteligência. 

Voltando no tempo 

Agora, para completar, vejam o que a jornalista Malu Marcoccia produziu há quase 20 anos nas páginas de Livre Mercado. Reparem que, como resultado prático daquele trabalho, ou seja, absolutamente nada, pelo menos o Grande ABC tinha a sofisticação estratégica como elemento de convencimento temporário. 

Baixamos tanto o nível que agora o prefeito Paulinho Serra reduz tudo aquilo, ao qual os leitores terão acesso logo abaixo, a um polozinho sem eira nem beira no sentido de sincronismo econômico com os olhos postos no futuro e na integração produtiva regional. 

Acompanhem a reportagem-análise de LivreMercado, melhor publicação regional do País durante duas décadas de circulação. Tudo sob o título “Polo tecnológico em ritmo de valsa”: 

 Caminha a passos de dois-prá-lá dois-pra-cá a criação de seis centros de tecnologia que têm a missão de concretizar a sonhada transformação do Grande ABC em polo de ponta. Por estarem sob as asas do plano de revitalização econômica do Grande ABC traçado pela Câmara Regional, os centros tecnológicos andam em círculos, na dependência de prefeituras cederem áreas, do governo do Estado ajudar no financiamento e de as empresas interessadas aderirem ao custeio de instalação e manutenção. Reuniões técnicas do grupo do polo tecnológico também tropeçam nas agendas da cúpula da Câmara Regional. O Centro de A&D (Apoio & Difusão Tecnológica) de plásticos é o único estruturado no papel até agora, mas o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos -- uma das altas patentes da Câmara Regional -- não consegue audiência com o secretário estadual de Governo, Antonio Angarita. "Estamos solicitando nova reunião com o secretário para depois fazer novo encontro de articulação entre os participantes do centro plástico" -- comenta o professor Armando Laganá, responsável pelo grupo do polo tecnológico e representante do Estado na Câmara Regional.

Mais LivreMercado de 2001

 Se não fosse tão difícil dar ritmo à burocracia, o Grande ABC teria colocado de pé, ou estaria erguendo, seis centros tecnológicos cujo principal mote é assessorar pequenas e médias empresas: dois centros são de Apoio & Difusão para plásticos e moveleiros e já estão contemplados no convênio do Estado com a Câmara Regional, criada em 1997. Em janeiro deste ano a Câmara incluiu na agenda de discussões outros dois centros de A&D, de manufatura mecânica e de cosméticos, e mais dois centros de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) para os ramos petroquímico e de eletrônica embarcada. A&D é uma modalidade que difunde tecnologias já existentes e P&D debruça-se também em pesquisas e inovações tecnológicas. 

Mais LivreMercado de 2001

 Antes de empresas de serviços avançados que acabam de chegar ao Grande ABC, como a EDS que terceiriza tecnologia da informação para as empresas, são os centros de A&D e P&D que podem imprimir definitivamente tom de vanguarda à região. Para pleitear o status de polo tecnológico, o Grande ABC precisa amortizar a dívida tecnológica de seu parque manufatureiro trabalhando com pesquisa, inovação e desenvolvimento que adicionem elementos tecnológicos aos produtos. De nada adianta dispor de tecnologia de transmissão de dados se não tiver no chão de fábrica densidade tecnológica nos produtos. O alerta vem, inclusive, na esteira do Programa Nacional de Inovação, recém-lançado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia para incentivar empresas a trabalhar com pesquisas que agreguem valor e utilidade aos produtos brasileiros. O Brasil investe apenas 1,3% do PIB em pesquisa e a meta do MCT é chegar a 2,5% em 10 anos, um patamar onde a Coréia já está hoje.

Mais LivreMercado de 2001

 Reunir todas as pontas dos planejados centros tecnológicos do Grande ABC é uma dificuldade prática apontada por Armando Laganá para fazer os empreendimentos ganhar agilidade. O professor não diz, mas nada se compara às dificuldades políticas de negociações. A Câmara Regional perdeu muito do ritmo desde 1999. Os interlocutores -- sobretudo os prefeitos do Consórcio -- ora estão debruçados sobre eleições para cargos políticos, ora estão em disputa interna pela atração de investimentos sem considerar a propalada integração, ora mergulham em total desinteresse. Apesar de ser o mais estruturado até agora, o Centro de A&D do setor plástico travou durante bom tempo na definição da sede, disputada por Mauá e Diadema. Mesmo concentrando 49% das cerca de 360 empresas do setor plástico na região, segundo censo patrocinado por Sebrae-Abiplast, Diadema perdeu o centro tecnológico porque não demonstrou visão mais sistêmica do processo. Mauá, ao contrário, joga tudo para potencializar o setor capitalizando a presença do Polo Petroquímico de Capuava, onde estão os principais fornecedores de polímeros para os transformadores plásticos, que no Município somam só 5,4%, segundo o censo setorial. "Mauá se articulou inclusive com um condomínio industrial só para o setor plástico, o Citiplastic" -- saúda Armando Laganá. O Citiplastic América, um empreendimento privado no Polo de Capuava, prevê 66 galpões de 1,2 mil metros quadrados, dois prédios para escritórios, um centro de convenções para 500 pessoas e hotel com 100 apartamentos, confirmam os proprietários, que ainda não oficializaram o lançamento.

Mais LivreMercado de 2001

 A proposta da Prefeitura de Mauá é levar o Centro de Apoio & Difusão do setor plástico para perto ou dentro do Citiplastic e, portanto, próximo dos fabricantes de resinas, sete dos quais patrocinadores do centro tecnológico: Petroquímica União, Polibrasil, Polietilenos, Solvay, Basf, Rhodia e Rhodia Engenharia. Essas empresas privadas se comprometeram a custear R$ 480 mil dos R$ 5,560 milhões estimados para o centro tecnológico do plástico na forma de fornecimento de matérias-primas. No organograma orçamentário diluído em quatro anos o governo do Estado entrará com R$ 1,8 milhão, a Prefeitura com R$ 960 mil, o Sebrae com R$ 580 mil, os transformadores plásticos com R$ 720 mil (através de prestação de serviços dentro do centro) e a Abimaq com R$ 390 mil na forma de 30% de desconto sobre equipamentos fornecidos pelos associados. Fabricantes de moldes se comprometeram a entrar com R$ 150 mil através de horas/máquinas para fabricação de moldes para o centro de A&D. A Câmara Regional ainda negocia R$ 480 mil junto às montadoras da região -- grandes usuárias de componentes plásticos -- e com a Brasimet de Diadema o tratamento térmico gratuito das experimentações. Com a Villares pretende-se que entre com fornecimento de aço. "Estamos amarrando com todos para entrar na fase de implementação do centro, que estaria pronto entre seis e oito meses" -- confia Laganá.

Mais LivreMercado de 2001

 O modelo de gestão do Centro de A&D do plástico não está definido, mas caminha-se para o comando da iniciativa privada. A parte acadêmica virá do Estado, por meio de curso em nível superior de Tecnologia em Plástico a ser desenvolvido pelo Ceetps (Centro de Ensino Técnico Paula Souza, mais conhecido como ETE nos cursos técnicos e como Fatec nos cursos de tecnologia). Pretende-se formar especialistas em processos, em produtos, em moldes, em ensaios e em engenharia da produção.

Mais LivreMercado de 2001 

 O Centro Paula Souza na ETE Lauro Gomes também já foi acionado para ser o formador de mão-de-obra no Centro de Apoio & Difusão Tecnológica dos moveleiros, que se instalará em São Bernardo ao custo estimado de R$ 3 milhões. "Só estávamos aguardando confirmação do Senai para ser o formulador do projeto" -- comenta o professor Armando Laganá. Serão os mesmos professores do Senai da Capital que estruturou o polo moveleiro de Votuporanga. O centro dos moveleiros seguirá as parcerias feitas com o do plásticos, ou seja, Sebrae, Sindicato dos Fabricantes de Móveis, Abimaq, fornecedores de matéria-prima e governo do Estado estão sendo chamados para ratear custos e empenho.

Para completar esse cerco à realidade histórica e contextual dos fatos, reproduzimos na íntegra a reportagem publicada no Diário do Grande ABC de sábado, sete de setembro, assinada pelo jornalista Raphael Rocha e sob o título “Santo André dá novo passo para construir polo tecnológico”. A sugestão, já explícita, é que se compare o que o Grande ABC do passado virou no presente. 

Diário de 2019

 A Prefeitura de Santo André deu mais um passo para tirar o polo tecnológico do papel. Nesta semana, fechou contrato com a empresa CAT Engenharia Consultiva para elaboração do projeto executivo de constituição do centro de inovação tecnológica, espécie de embrião do futuro polo. A administração desembolsará R$ 360 mil para confecção do plano, uma das últimas etapas burocráticas antes da obra física. Após o plano executivo concluído, o Paço precisará realizar licitação para as intervenções de adaptação do prédio – o local escolhido foi parte da Rhodia, no bairro Bangu.

Diário de 2019

 O governo do prefeito Paulo Serra (PSDB) estima que até fevereiro esse plano executivo esteja pronto, o que viabilizará o andamento do processo licitatório exclusivo para o centro de inovação tecnológica. A gestão tem chamado esse setor como início do polo tecnológico. A Prefeitura informou que a obra física do centro de inovação tecnológica demandará investimento de R$ 22 milhões, dinheiro pleiteado junto à Secretaria de Desenvolvimento e Geração de Emprego do Ministério de Desenvolvimento Regional.

Diário de 2019

 “As negociações se encontram em fase avançada. Como o início de obra é condicionado à viabilização de recursos, a meta do governo é ter o início de obra em 2020, após conclusão do projeto executivo, já com grande previsibilidade dos investimentos necessários para a obra, e do tempo para conclusão”, discorreu a Prefeitura de Santo André, por meio de nota.

Diário de 2019

 A promessa de Santo André ter seu próprio centro tecnológico se arrasta há dez anos, quando o então prefeito Aidan Ravin (Podemos) prometeu consolidar um local para pensar o futuro. Em 2010, o parque foi pré-credenciado pelo governo do Estado. Em 2016, a inscrição foi efetivada no SPTec (Sistema Paulista de Parques Tecnológicos). Só então pôde captar recursos. O governo Paulo Serra considerou que o polo tecnológico vai além do centro de inovação tecnológica. Citou políticas para estabelecer zoneamento privilegiado para empresas de base tecnológica, criação de rede de oferta de serviços tecnológicos para atendimento às novas empresas e às atividades já instaladas na cidade – denominada Bureau de Serviço.

Diário de 2019

 “O Centro de Inovação é mais um dos projetos, sendo o âncora (não o primeiro), pois materializa a ação em um espaço físico diferenciado, que busca concentrar atores do ecossistema de inovação local, assim como programas de aceleração e incubação, laboratórios, o bureau de serviços já citado (que iniciará suas atividades no próprio Paço)”, exaltou o governo. A administração ressaltou ainda que não há pendência judicial no terreno e na estrutura que acolherão o futuro Centro de Inovação. Ou seja, assim que a licitação da obra for concluída, as intervenções já começam. 

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