Economia

Deixem a USCS transformar
Grande ABC em Nova China

  DANIEL LIMA - 17/09/2019

Ninguém segura os acadêmicos da USCS (Universidade de São Caetano). Eles estão ensandecidos de paixão pelo crescimento da região. Querem transformar na canetada, na planilha, no papel, o mambembe Grande ABC em fervilhante Nova China. Vendem ilusões com engenhosidade do lustro professoral. Os incautos caem feito patinhos. Quando se juntam a sanha da notoriedade por manchetes de jornais e a tentação de fazer manchetes mirabolantes, tudo pode acontecer.  

Nosso PIB (Produto Interno Bruno) vai empinar números fantásticos nos próximos tempos, segundo o receituário rocambolesco da Universidade de São Caetano. Nesse ritmo, mais um quesito aqui, outro ali, eis que os chineses vão desembarcar com pesquisadores ultraqualificados em nosso território para estudar o fenômeno da multiplicação do PIB que eles imaginam ter inventado.

Portanto, basta que se ouçam os estudiosos da USCS e tudo estará resolvido nestas terras que em se montando carros tudo dá. Eles têm a fórmula mágica do crescimento regional. Anunciem um projeto de obra, alguma coisa nova, e está resolvido. Eles fazem cálculos extraordinários.

Querem ver dois recentes exemplos do quanto esses acadêmicos simplificam o complexo?

Mais 1,70% com metrô

Com o metrô, que era monotrilho e que virou BRT, cresceríamos 1,70% ao ano. Com o Aeroportozão que virou Aeroporto e agora é Aeroportozinho, cresceremos outros 1,60% ao ano.

Números não dizem muita coisa em determinadas situações caso não sejam devidamente contextualizados, esmiuçados e pressionados à prova de fraudes.

Os sete a um dos alemães diante dos brasileiros de Felipão dispensam legenda. Entretanto, crescimento médio anual de 1,70% do PIB do Grande ABC com a chegada mais que frustrada do metrô que era monotrilho de fato e outros 1,60% também anual com um aeroporto que não cabe na geografia ambientalmente protegidíssima, nos referenciais de rentabilidade do capital e na exequibilidade técnica, isso é demais.

Tudo isso é tragicômico, embora tratado pela Imprensa com notável credibilidade. Não foram as primeiras vezes de desvarios grandiloquentes que saltaram às manchetes e manchetíssimas. Isso vem de um passado já distante e se perpetua a cada primavera, verão, outono e inverno. Sempre haverá quem acredite em Papai Noel.

Mais 1,60% com aeroporto

Quem inventou que o Grande ABC crescerá 1,60% em média ao ano (não se estabeleceu por quanto tempo com a construção de um aeroporto foi o gestor do curso de Ciências Aeronáuticas da USCS, Volney Gouveia, do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura).

Segundo a reportagem publicada no Diário de Grande ABC, a construção do aeroporto injetaria na economia do Grande ABC R$ 1,8 bilhão por ano, ou 1,60% do PIB. O montante prevista se baseia nos reflexos em cadeia tanto da construção do equipamento como de sua operação e manutenção, e envolve setores petroquímico, químico, plástico, entre outros. É, por assim dizer, uma dádiva.

O estudioso da Universidade de São Caetano fornece detalhes que dão robustez à fantasia. Afinal, sem números e detalhamentos técnicos não se alcança mesmo o grau de confiança de uma informação tão relevante.

É preciso enxertar dados regionais, multiplicar citações e, pronto, está resolvido. O crescimento médio anual de 1,60% com a chegada de um aeroporto está determinado empiricamente. Como, vejam só, se existisse amplas condições ambientais, climáticas, econômicas e também políticas para tanto.

Chutometria pura

Tudo não passa de chutometria. Querem um exemplo prático? É claro que o aeroportozinho que seria construído no Grande ABC (em plena área ambiental, vejam só quanto estupidez) nem de longe se assemelharia ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, por razões óbvias. Confrontá-los em termos de perspectivas seria um acinte, não é verdade?

Pois bem: sabem os leitores qual foi o crescimento médio anual do PIB de Guarulhos neste século? Resposta: 1,48%. Traduzindo: mesmo com muito maior potencial de crescimento econômico que o Grande ABC, porque não depende exclusivamente de uma atividade econômica, e contando com um aeroporto internacional, Guarulhos não avançou no crescimento do PIB médio anual como o que pretende o estudioso da Universidade de São Caetano para o Grande ABC.

Anteriormente a essa notícia publicada no Diário do Grande ABC, comentamos outro estudo, se assim se pode chamar algo que não passa de especulação, da Universidade de São Caetano.

Foi em junho deste ano que o Diário do Grande ABC publicou que, com o metrô, o comércio e os serviços levariam a região a ter crescimento médio do PIB anual de 1,70%. Extraordinário.

Evasão de riquezas

A campanha do Diário do Grande ABC em defesa do monotrilho (chamado insistentemente de metrô, embora o primeiro seja um calhambeque e o segundo um carro de luxo) teve a chancela de Jefferson José da Conceição como ponte de credibilidade. Nada tão falso na essência.

Tanto o metrô que de fato era monotrilho como o BRT que sobrou são modais que facilitam a vida de quem vive nessa metrópole com a população inteira do Estado do Paraná. Mas o resultado final seria a Gata Borralheira do Grande ABC perder milhares de consumidores e de riqueza para a Cinderela Capital. A perspectiva foi consolidada em pesquisa da Universidade Metodista.

Estou receoso de que para cada nova potencial, mas sempre adiada obra de infraestrutura no Grande ABC apareça algum estudioso da Universidade de São Caetano que, louco por manchetes e manchetíssimas, desfile novos patamares de ganhos anuais de avanço médio do PIB.

Não sei, aliás, como não saíram com dados sobre os efeitos da inauguração do Piscinão em São Bernardo, das obras de contenção de enchentes no Bairro Fundação em São Caetano, da prometida Estação Pirelli em Santo André e do Polo Tecnológico de Santo André que não sai dos sonhos do prefeito de plantão.

Se deixarem esses moços livres, leves e soltos, os chineses perderão o rumo se aqui aportarem. Chegaremos brincando, brincando, a 20% de crescimento médio anual.

Só para arrematar: sabem os leitores qual foi o crescimento médio anual do Grande ABC neste século, conforme dados oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que analisei detidamente há pouco tempo: grandiosíssimo 0,25% por ano. Um quarto de um por cento ao ano.

Não se brinca com informação e muito menos com análises. Títulos acadêmicos precisam ser honrados na relação de interesse público.  Não é a primeira nem será a última vez que tenho o desprazer de contrariar terceiros manipuladores. Como sempre digo, centroavante faz gol, padre reza e jornalista independente analisa sem qualquer tipo de viés.

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