Economia

São Caetano desmorona; é hora
da USCS colocar a mão na massa

  DANIEL LIMA - 08/10/2019

Pesquisadores e estudiosos em geral da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) têm obrigação de procurar saber o que ocorre neste século com a economia do Município que se orgulha de ostentar um dos primeiros lugares em qualidade de vida na Grande São Paulo. Não dá mais para esperar. A situação é crítica e exige comprometimento com o futuro, não com manchetes de jornais.

Vou dar uma dica de como a situação é grave: São Caetano explora cada vez mais a ação estatal, em forma de Prefeitura, para compensar parte, apenas parte, do desgarramento da iniciativa privada que a aflige e a coloca na zona de risco de baixa competitividade econômica.  

Falta nessa altura do campeonato uma ação incisiva, comandada pelo prefeito José Auricchio, chamando às falas os estudiosos da USCS. Que eles parem de inventar história de pretenderem propor a esquesitice do anedótico aeroporto em São Bernardo e cuidem vigorosamente do próprio quintal em liquidação na bolsa de apostas dos melhores endereços para se investir.

Talvez não precise lançar mão de muitos dados para definir a situação de inferioridade neste século de São Caetano na Região Metropolitana de São Paulo.

Zona de rebaixamento

Como mostrei em janeiro deste ano, São Caetano ocupa a antepenúltima colocação no ranking dos 39 municípios da Grande São Paulo. A métrica é o PIB Geral dos Municípios. Os números são oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Essa é uma das especialidades históricas de CapitalSocial. E os estudos vão muito além das fronteiras locais. Quem ficar circunscrito à geografia do bicho de sete cabeças do Grande ABC estará fadado ao engano e à perda de percepção da realidade.

São Caetano está, portanto, entre os quatro últimos colocados na Grande São Paulo no comportamento do PIB Geral neste século, tendo como base de comparação o ano de 2002 e como fita de chegada 2016 – os dados de 2017 serão conhecidos somente em dezembro.

Ou seja: São Caetano está na zona de rebaixamento e tudo indica que, quando sair a nova fornada de números oficiais do PIB dos Municípios, seguirá entre os piores. PIB é um transatlântico de movimentos discretos, mas consistentes. Não se dá um cavalo de pau no PIB. Não se altera a rota de colisão num iceberg do dia para a noite do calendário gregoriano.

Osasco, por exemplo, não detém por acaso o segundo (só atrás da Capital) maior PIB Geral da Grande São Paulo, e um dos maiores do País. O trecho oeste do Rodoanel faz muita diferença. O poder de atrair empresas, sobretudo do Grande ABC, é enorme. Até porque o trecho sul do Rodoanel, que supostamente nos fortaleceria, é um presente de grego.  

Sangria dupla

Também como sugestão aos estudiosos da Universidade Municipal de São Caetano, cujos resultados gerais no RUF (Ranking Universitário Folha) são desastrosos, indico uma porta imensa à perscrutação desse resultado: na medida em que o empreendedorismo privado cai pelas tabelas, com elevadíssimos índices de demissões líquidas e queda continuada de produção de riqueza, as burras da Prefeitura seguem a recolher valores em forma de impostos e gastos com remuneração ao funcionalismo público.

Ou seja: São Caetano vive uma dupla sangria que abala as condições de competitividade econômica. De um lado temos o Poder Público Municipal voraz na arrecadação de impostos e de outro o afugentamento constante de negócios privados. São Caetano torna-se cada vez mais cidade-dormitório com altos custos aos moradores.

Posição consolidada

Voltando ao PIB Municipal: a antepenúltima posição no ranking geral da Região Metropolitana de São Paulo neste século, a partir dos números de 2002, não é algo fortuito, sazonal. É consolidação ao longo de 14 anos corridos. Uma comparação ponta a ponta.

Em termos nominais, ou seja, sem considerar a inflação do período (de 128,98% conforme o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo), São Caetano cresceu apenas 109,81% no PIB Geral. Acima apenas de Poá (96,94%), São Lourenço da Serra (62,22%) e Salesópolis (30,76%).

Acima de São Caetano, portanto, há 35 municípios, ou 90% dos concorrentes. Ou seja: na maratona deste século, São Caetano perde de forma acachapante para a quase totalidade dos municípios da Grande São Paulo quando se trata de geração de riqueza em produtos e serviços, síntese do Produto Interno Bruto.

O desempenho de São Caetano é vexatório mesmo diante da média do Grande ABC, também muito aquém do desejado, com 185,50% de crescimento nominal. Se o enfrentamento envolver a Capital do Estado, o vexame é ainda maior: São Paulo cresceu em termos nominais 264,08%. Muito mais, portanto, que os 109,81% de São Caetano.

Não pretendia continuar a desfilar os números do PIB Geral de São Caetano neste século dentro da Grande São Paulo, mas não resisto: a Região Norte da metrópole avançou em termos nominais 448,27%, a Região Sudoeste 396,08%, a Região Leste 262,03% e a Região Oeste (de Barueri, Osasco e muito mais municípios beneficiados pela chegada do trecho oeste do Rodoanel), 431,75%.

Um balanço desses números coloca São Caetano como o resto do resto do resto de um Grande ABC duramente impactado pelo empobrecimento.

Desafio aos estudiosos

Agora é que vem o desafio aos estudiosos da Universidade Municipal de São Caetano: tratem de descobrir e de agirem em torno de premissas de recuperação da vitalidade econômica local tendo como base de análise o seguinte número: no mesmo período já explicitado, o PIB da Administração Municipal, cresceu 268,89%.

Como Prefeitura nenhuma produz riqueza no sentido mais conhecido da expressão, está claro o descompasso à derrocada de São Caetano: o Valor Adicionado da Administração Pública foi quase três vezes maior que o Valor Adicionado Geral, que envolve todas as atividades econômicas.

Quando um Município, qualquer Município, passa a contar com as características de São Caetano, ou seja, de avanço pantagruélico da PIB da Administração Pública em relação ao PIB Geral, é sinal de que já ultrapassou os limites à reação. E reagir no caso é partir para uma ação vigorosa de reestruturação do tecido econômico. Do jeito que a banda está tocando, o futuro estaria reservado a uma sociedade cada vez mais explorada pelos altos custos de tributos em associação com novas levas de desertores produtivos.

Os bravos rapazes e moças da Universidade Municipal de São Caetano têm colaborado bastante com uma série de estudos publicados no Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura), mas não podem se exceder no entusiasmo de buscar manchetes de jornais a qualquer custo.

E essa história de um aeroporto regional, que faria o PIB do Grande ABC adicionar crescimento de quase 2% ao ano, é demais. Há uma tarefa mais nobre a cumprir. São Caetano precisa saber porque anda patinando tanto na geração de riqueza produtiva. E sair urgentemente da zona de rebaixamento do PIB Geral neste século na Grande São Paulo.

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