Esportes

Nairo perde a metade mais
importante do São Caetano

  DANIEL LIMA - 09/10/2019

Para entender a dramática situação de Nairo Ferreira, depois da anunciada queda da presidência do São Caetano por pelo menos seis meses, registrada ontem em cartório, é preciso conhecer a divisão de tarefas legais na agremiação. Nairo Ferreira presidia até ontem a Associação Desportiva São Caetano, mas segue a presidir o São Caetano Futebol Limitada. Essas são duas metades da mesma laranja esportiva, uma relativamente confortável; a outra, indigesta.

A primeira metade é que representa a agremiação nas instâncias esportivas. A segunda trata diretamente da gestão corporativa do futebol. Nairo, portanto, perdeu a legalidade esportiva. E segue mandando na legalidade empresarial. Uma montanha de dívidas lhe faz companhia.

Traduzindo em miúdos: Nairo é um presidente pela metade. Ficou com a metade podre do São Caetano. A metade podre que ele construiu com gestão desastrosa. Tão desastrosa que bastou o maior mecenas do futebol brasileiro mandar vasculhar as entranhas administrativas para descobrir inúmeras incorreções, irregularidades e outras coisas menos nobres.

Saul Klein, um dos filhos do fundador da Casas Bahia, Samuel Klein, deve estar cantarolando nestas alturas do campeonato. Nairo Ferreira virou seu desafeto. Mais que isso: virou a bola da vez no desmonte da operação do São Caetano Futebol Limitada. O que vai acontecer de agora em diante fica para depois, em forma de especulação ou mesmo de resoluções.

Parte nobre e parte podre

Afinal, o agente que tanto dinheiro jogou na lata do lixo de desvios finalmente está afastado da metade nobre do São Caetano, uma metade que poucos dão valor. Ou davam.

A Associação Desportiva São Caetano é a porção clube que representa nas instâncias esportivas a porção empresarial do São Caetano Futebol Limitada que Saul Klein comandou nos bastidores durante muitos anos de sucesso nos gramados. Algo que Nairo, mesmo com transbordantes dinheiros, fracassou durante o período em que Saul Klein se afastou para tratamento médico.

A retirada temporária e supostamente voluntária de Nairo Ferreira da presidência da parte mais relevante do São Caetano e sem a qual a parte empresarial está impedida de fazer bobagens vincula-se não só à gestão desastrosa, que é estrutural, mas também às circunstâncias da vaga da discórdia da Série A1 do Campeonato Paulista. É impossível separar uma coisa da outra, embora a olhos menos atentos sejam questões distintas.

Nairo despejado por tempo determinado (mas que provavelmente será definitivo) e a disputa do São Caetano pelo direito regulamentar de seguir na principal competição estadual têm conexões diretas. Nairo Ferreira poderia atrapalhar as garantias regulamentares do São Caetano quando chegar a hora de a onça beber água no Conselho Técnico da Federação Paulista de Futebol.

Inimigo íntimo

O São Caetano não quer correr o risco de ter um inimigo íntimo na reunião programada para o próximo dia 22. Inimigo íntimo significa um Nairo Ferreira pronto a entregar a rapadura de considerar o pleito do São Caetano ilegítimo, como o fez anteriormente.

Tudo aconteceu em abril, quando ele mesmo, Nairo Ferreira, assinou por indução possivelmente de Saul Klein um documento encaminhado à FPF. Reiteravam-se os direitos de o São Caetano permanecer na competição por conta da saída do Red Bull. Mas, contraditoriamente, no mesmo dia, difundiu na mídia apoio à FPF por ter optado, ainda preliminarmente, pelo Água Santa de Diadema.

Não fosse o Conselho Técnico da FPF bater na porta do calendário de decisões para a próxima temporada, provavelmente Nairo Ferreira não teria sido convencido agora a deixar a presidência da metade saudável do São Caetano, aquela da legitimidade de representação nas instâncias esportivas.

Enfatizar essa premissa, ou seja, de que o São Caetano sócio-esportivo é que tem espaço na FPF, não o São Caetano Futebol Limitada, é importantíssimo para o entendimento de toda a equação que provocou a queda de Nairo Ferreira da porção boa do futebol local.

Apressando os passos

Com o Conselho Técnico da FPF batendo à porta, o melhor mesmo foi a decisão de os conselheiros do São Caetano apressarem os passos. O alarme de que Nairo Ferreira poderia trair o clube foi suficiente. As falcatruas à frente do São Caetano Futebol Limitada, também. Nairo teria feito acordo com a Federação Paulista de Futebol, com o Red Bull e o Água Santa de Diadema para abandonar a disputa pela vaga. Em troca de quê? Aí é outra história.

Antes de fazer projeções sobre o que vai acontecer no futuro próximo com a metade podre do São Caetano (o São Caetano Futebol Limitada, do qual Nairo segue como principal responsável, com quase a totalidade das ações e de uma imensidão de dívidas), o melhor mesmo é tentar descobrir os próximos passos da metade boa, que terminou a Série A1 do Campeonato Paulista na 15ª colocação, ou penúltima posição.

O São Caetano de dentro de campo só será rebaixado à Série A2 se a FPF exorbitar e rasgar o regulamento. A equipe do Red Bull, agora de Bragança Paulista, vai desistir da competição porque a holding que a controla passou a controlar também o Bragantino, mais relevante na hierarquia do futebol brasileiro. A legislação esportiva não permite dupla representação na mesma série. E o regulamento da FPF determina que quem deixa uma competição só pode recomeçar a vida esportiva no degrau debaixo da hierarquia estadual, no caso a Segunda Divisão.

Versão fraudulenta

A retirada do Red Bull da Série A1 (e o rebaixamento regulamentar à Segunda Divisão) manteria o São Caetano na competição. A versão que concede acesso ao Água Santa de Diadema, terceiro colocado da Série A2, é fraudulenta. Uma fraude normativa tão estúpida que, se levada à sério, como a FPF pretende, provocaria estragos em toda a cadeia de competições paulistas. Haveria possível enxurrada de recursos nos tribunais esportivos.

O embaralhamento seria geral e irrestrito. Nacional da Capital e Taboão da Serra já seriam aliados do São Caetano. As duas equipes também foram penúltimas colocadas na Série A2 e Série A3. E são contrárias ao rebaixamento do Red Bull à Série A2, porque o destino da equipe é a Segunda Divisão. Do outro lado do tabuleiro mal-ajambrado da FPF estão equipes que, semelhantemente ao Água Santa, se considerariam prejudicadas se o efeito-cascata do rebaixamento do Red Bull seguir outro figurino. Mesmo que o figurino seja da legalidade normativa exigida pelo São Caetano, Nacional e Taboão da Serra.

A reação do São Caetano contra a barbaridade anunciada maliciosamente desde março é considerada inadiável. Não seria um Nairo Ferreira a colocar água no chope da viabilidade, cuja legitimidade intocável foi consolidada em 40 páginas de Parecer Jurídico de um especialista em Direitos Constitucionais e Direitos Desportivos.

André Ramos Tavares, o especialista em questão, é dono de uma biografia que colocaria a nocaute todos os integrantes da Comissão de Assuntos Jurídicos da Federação Paulista de Futebol. Dois deles são advogados oficiais do Red Bull e do Água Santa. Eles não podem avaliar os rumos da vaga da discórdia sem flertar com a desconfiança e a desfaçatez ética.

Especialista no Conselho

Ainda não se tem conhecimento dos próximos passos do São Caetano -- agora sem Nairo Ferreira -- para tratar da legalidade de disputar a Série A1. Certo é que se pretende participar do Conselho Técnico da competição. Não existe mais o risco de ter oficialmente um representante no Conselho Técnico da Série A2 que avalizaria a pretendida versão resolutiva da FPF. Nairo Ferreira está descartado.

O São Caetano pretende participar mesmo é do Conselho Técnico da Série A1. Especula-se que já teria contratado um profissional em Direitos Desportivos. Ele falar em nome do clube aos demais participantes da Série A1.

Não se acredita que a FPF barraria o representante do São Caetano do baile que definirá os participantes da Série A1 do ano que vem. Até porque, a possível restrição interditaria a interlocução com um clube filiado e o remeteria diretamente às instâncias jurídico-esportivas.

O São Caetano jamais recorrerá à Justiça Comum. Pelo menos até se esgotarem todas as etapas previstas na esfera esportiva. Inclusive na FIFA.  Mas não está descartada ação reparadora por perdas e danos impostos ante possível inflexibilidade da FPF em reconhecer a manutenção da equipe na Série A1.

Quem gosta de emoções dentro e fora dos campos de futebol não pode perder os próximos capítulos. Na edição de amanhã vamos apresentar um menu imperdível: o erro anunciado sempre informalmente pela FPF de enfiar goela abaixo um duplo privilégio, ao Red Bull e ao Agua Santa de Diadema, poderá custar mais caro do que se imagina ao futebol paulista.  Trata-se de uma guerra santa, porque a FPF, como as congêneres, entende que democracia é bom apenas da boca para fora.

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